Num início de ano em que o petróleo volta a subir e as ações da Petrobras acumulam ganhos superiores a 20%, o mercado olha para o horizonte eleitoral com otimismo contido. A estatal, que carrega a memória de décadas de ingerência política, aparece agora no centro de promessas divergentes entre os pré-candidatos à Presidência: privatizar ou reforçar seu papel de indutora do desenvolvimento, e o que fazer com o preço dos combustíveis. Para os analistas, a eleição não trará uma resposta definitiva, mas inaugura um período em que a empresa tende a oscilar conforme cada discurso ganhe ou perca forç
Petrobras: pré-candidatos à Presidência sinalizam rumos para a estatal e elevam volatilidade das ações
O ganho veio do petróleo; o risco vem da política
Se as ações subiram mais de 20%, por que o foco da matéria está na eleição?
Porque o ganho veio do petróleo, mas o risco vem da política. Os analistas recomendam compra e, ao mesmo tempo, avisam que o papel deve oscilar mais até outubro.
Qual é a divisão principal entre os candidatos?
Lula e Ciro criticam o PPI e veem a Petrobras como motor de desenvolvimento. Moro e Doria falam em desestatização, com ritmos e desenhos diferentes.
Vale notar que quase tudo isso é a leitura de uma casa, a Levante. São falas e intenções de pré-candidatos, não programas de governo fechados.
E o governo Bolsonaro?
Diz ser favorável à desestatização, mas sem formato definido, e afirma não controlar os preços da estatal.
Exato: favorável, mas sem proposta concreta. E a PEC para reduzir o preço dos combustíveis é descrita apenas como algo que o governo estuda.
O mercado está otimista?
Segundo a Refinitiv, 11 de 12 casas recomendam compra da PETR4.
Só que o preço-alvo médio de R$ 35,44 implica alta de apenas 3,5%. O otimismo é sobre a direção, não sobre um grande ganho adicional.
Então o que acompanhar?
As propostas dos presidenciáveis para preços e desestatização, e a reação dos papéis a elas.
O Pulso
- As ações PETR3 e PETR4 dispararam mais de 20% no começo de 2022, puxadas por um petróleo que já beira os US$ 90.
- A alta dos combustíveis nas bombas transformou a Petrobras em tema central de campanha, pressionando o governo a estudar uma PEC para reduzir o preço da gasolina e do diesel.
- Lula e Ciro Gomes atacam a política de preços (PPI) e defendem uma Petrobras indutora do desenvolvimento, enquanto Moro e Doria discutem privatização gradual e em blocos.
- Bolsonaro afirma não controlar os preços e diz que gostaria de se livrar da estatal, sem apresentar um formato concreto de desestatização.
- Bancos como BofA, Bradesco BBI e XP seguem comprando o papel, mas alertam que a volatilidade deve crescer à medida que a disputa eleitoral se aproxima.
Num início de ano em que o petróleo volta a subir e as ações da Petrobras acumulam ganhos superiores a 20%, o mercado olha para o horizonte eleitoral com otimismo contido. A estatal, que carrega a memória de décadas de ingerência política, aparece agora no centro de promessas divergentes entre os pré-candidatos à Presidência: privatizar ou reforçar seu papel de indutora do desenvolvimento, e o que fazer com o preço dos combustíveis. Para os analistas, a eleição não trará uma resposta definitiva, mas inaugura um período em que a empresa tende a oscilar conforme cada discurso ganhe ou perca força.
As ações da Petrobras começaram 2022 com valorização superior a 20%, embaladas por um petróleo que saltou de uma média de US$ 71 em 2021 para perto de US$ 90. Bank of America, Bradesco BBI e XP mantêm recomendação de compra, apontando a commodity em alta, a perspectiva de dividendos e um valuation atrativo.
Todos, porém, lembram que a proximidade das eleições deve trazer volatilidade. A Levante de Ideias reuniu falas de pré-candidatos que já sinalizam o destino da estatal, sobretudo em dois pontos: a desestatização e o futuro da política de preços. Com a gasolina e o diesel pesando no bolso, o governo estuda uma PEC para reduzir temporariamente seus preços, e o tema deve dominar a campanha.
Lula e Ciro Gomes, historicamente à esquerda, criticam o PPI e veem a Petrobras como motor do desenvolvimento. Lula chega a cogitar rever vendas de ativos feitas nos últimos anos; Ciro quer reduzir importações incentivando o refino. Do lado liberal, Sérgio Moro diz que privatizar é válido desde que gere eficiência, e João Doria propõe vender a empresa em blocos, com um fundo de compensação abastecido pelas vencedoras do leilão, para amortecer altas do barril.
Bolsonaro, por sua vez, defende a desestatização sem apresentar caminho e afirma não controlar os preços, atribuindo a alta dos combustíveis ao ICMS estadual e à corrupção dos governos petistas.
Os analistas veem efeitos divididos: a vitória de um candidato desenvolvimentista pode pesar sobre o papel, e o inverso também é verdade. Por ora, o otimismo prevalece: 11 de 12 casas recomendam compra da PETR4, com preço-alvo médio de R$ 35,44. Mas a tendência, concluem, é de maior volatilidade nos próximos meses.
As ações da Petrobras (PETR3 e PETR4) começaram 2022 com valorização superior a 20%, embalada pela disparada do petróleo. O brent, que teve média de US$ 71 em 2021, já circula perto de US$ 90 neste início de ano. Bank of America, Bradesco BBI e XP mantêm recomendação de compra para o papel, citando a alta da commodity, a perspectiva de dividendos e um valuation considerado atrativo.
Todas essas casas, porém, fazem a mesma ressalva: a proximidade das eleições presidenciais deve trazer um período de volatilidade para os papéis. A casa de research Levante de Ideias de Investimentos reuniu falas de pré-candidatos que já indicam o que pretendem fazer com a estatal, sobretudo em dois pontos: uma possível desestatização e o futuro da política de preços.
A Levante avalia que o tema será recorrente na campanha, em parte pelo aumento forte dos combustíveis nas bombas. Com o petróleo em alta, o governo estuda levar adiante uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) para reduzir temporariamente o preço da gasolina e do diesel, de modo a aliviar a perda de renda causada pela inflação.
Há divergências claras entre os pré-candidatos. Lula (PT), que lidera as pesquisas, e Ciro Gomes (PDT) são, historicamente, alinhados à esquerda, criticam abertamente o preço de paridade de importação (PPI) e veem a Petrobras como indutora do desenvolvimento econômico. Há nuances: no caso de Lula, cogita-se rever as vendas de ativos feitas nos últimos cinco anos; Ciro defende sobretudo reduzir a dependência de importações por meio de incentivo ao refino.
Do lado mais liberal, as propostas giram em torno da desestatização, mas, segundo a Levante, o debate é gradual e cauteloso, por causa das dificuldades políticas. Sérgio Moro (PODE) diz não ver problema em privatizar, desde que estudos mostrem ganho de eficiência econômica. No fim do ano passado, afirmou que, se fizer sentido do ponto de vista econômico e gerar eficiência, a decisão tem de ser tomada. João Doria (PSDB) propõe dividir a empresa em fatias para privatizá-la em blocos, por meio de leilão, dentro de um amplo programa que incluiria também o Banco do Brasil (BBAS3). Em entrevista ao Estado de S. Paulo, em dezembro, disse que as vencedoras do leilão aportariam recursos mensais a um fundo de compensação, um colchão contra altas expressivas do barril no mercado internacional.
O governo de Jair Bolsonaro (PL) é favorável à desestatização, mas não apresentou formato para viabilizá-la. Ele afirma não controlar a política de preços e já disse que, se pudesse, ficaria livre da Petrobras. No início do ano, atribuiu o preço alto dos combustíveis ao ICMS cobrado pelos Estados e à "roubalheira" dos governos do PT, citando R$ 100 bilhões em dívidas ligadas a obras não realizadas. Para a Levante, falas assim indicam o tom da disputa.
Sobre os combustíveis, a Levante resume: Moro, Doria e Bolsonaro entendem que o tema precisa de encaminhamento. A PEC do governo trataria de zerar impostos; Moro propõe simplificar a cadeia tributária do setor; Doria, o fundo financiado pela iniciativa privada. Para os analistas, qualquer que seja o próximo presidente, essas questões terão de ser enfrentadas, assim como os limites do papel social e econômico da estatal.
Os analistas veem efeitos divididos para as ações. Por ter sofrido com ingerência política ao longo da história, a empresa é vista com cautela por investidores e poderia sofrer com a vitória de candidatos de visão mais desenvolvimentista, e o inverso também valeria. A tendência, concluem, é de maior volatilidade nos próximos meses.
Por ora, o otimismo prevalece: segundo a Refinitiv, de 12 casas que cobrem a PETR4, 11 recomendam compra e uma é neutra. O preço-alvo médio é de R$ 35,44, potencial de alta de apenas 3,5% sobre o fechamento da quarta-feira anterior.
Citações Notáveis
Se do ponto de vista econômico fizer sentido a privatização da Petrobras, se isso gerar eficiência para a economia, a decisão tem que ser tomada.— Sérgio Moro (PODE), no fim de 2021
Os mercados devem acompanhar com bastante atenção os planos e declarações dos presidenciáveis; a tendência é de aumento de volatilidade nos papéis.— Levante de Ideias de Investimentos