Vírus altera QR Code do Pix em lojas virtuais brasileiras sem deixar rastro

Consumidores brasileiros sofrem desvio de recursos financeiros sem possibilidade de rastreamento visual, com prejuízos potencialmente distribuídos entre múltiplas contas antes da detecção.
O dinheiro vai para o lugar errado, sem aviso visual
Como funciona o novo malware que substitui QR codes do Pix em lojas virtuais brasileiras.
Mark

Por que esse vírus é tão difícil de detectar?

Mimi

Porque não deixa rastro visual. O QR code muda, mas você não vê a mudança acontecendo. É como se alguém trocasse a placa de uma loja enquanto você não está olhando.

Luke

Mas o código tem que estar armazenado em algum lugar. Não há log de quando foi alterado?

Mimi

Há, mas o vírus infecta o site, não o computador do cliente. O lojista teria que estar monitorando o código em tempo real para pegar a troca.

Mark

E quantas lojas estão infectadas?

Mimi

Noventa sites de pequeno e médio porte que usam Magento foram confirmados. Mas provavelmente há mais que ainda não sabem.

Luke

Noventa é o número que a Kaspersky verificou, certo? Não é o número total de infectados.

Mimi

Exato. É só o que foi confirmado até agora.

Mark

Se eu pagar com Pix e meu dinheiro for desviado, consigo recuperar?

Mimi

Sim, mas só se avisar rápido. Tem o MED, que rastreia até cinco transferências. Mas os criminosos distribuem o dinheiro em dezenas de contas em poucas horas.

Luke

E qual é a taxa de sucesso do MED nessas situações?

Mimi

A reportagem não diz. Só que quanto mais rápido você avisar, melhor.

Mark

E se eu usar cartão de crédito em vez de Pix?

Mimi

O vírus copia seus dados e você é fraudado depois. Mas o lojista recebe o dinheiro normalmente.

Luke

Então o lojista não tem incentivo para descobrir que está infectado?

Mimi

Não imediatamente. Alguns só percebem quando veem mais compras abandonadas do que o normal.

  • Vírus descoberto em 1º de setembro por pesquisador independente "eremit4"
  • 90 sites de ecommerce infectados usando plataforma Magento
  • Fraude também copia dados de cartão de crédito para clonagem futura
  • Criminosos distribuem dinheiro em 50+ contas em poucas horas

O vírus substitui o código Pix original por um fraudulento no momento do pagamento, afetando 90 sites de pequeno e médio porte que usam a plataforma Magento. A fraude também copia dados de cartão de crédito quando o cliente escolhe outra opção de pagamento, permitindo clonagem futura mesmo que o lojista receba o valor.

Um novo malware altera imperceptivelmente QR codes do Pix em páginas de pagamento de ecommerces brasileiros, desviando recursos diretamente para contas de criminosos sem deixar vestígios visuais.

Um pesquisador de segurança independente identificou em 1º de setembro um novo tipo de ataque que reescreve o código Pix no momento exato em que você está prestes a pagar em uma loja online. O vírus substitui o QR code legítimo por outro fraudulento, desviando seu dinheiro diretamente para contas de criminosos. Não há aviso visual. Nenhum sinal de que algo mudou. Você vê o código, escaneia, transfere — e o dinheiro vai para o lugar errado.

O pesquisador, que se identifica como "eremit4", descreveu a tática como "o novo magecart brasileiro", referência a uma forma tradicional de roubo de dados de cartão de crédito. A diferença agora é que os criminosos evoluíram. Não estão mais apenas capturando informações de cartões. Estão sequestando pagamentos Pix em tempo real, trocando os códigos durante o checkout para redirecionar as transações. A empresa de segurança Kaspersky verificou o trabalho do pesquisador e confirmou a descoberta: 90 sites de ecommerce de pequeno e médio porte no Brasil estão infectados. Todos usam a plataforma Magento, um software gratuito de construção de lojas virtuais.

O que torna esse ataque particularmente perigoso é que o vírus infecta o site, não o computador do cliente. Isso significa que qualquer pessoa que compra naquela loja está vulnerável. Não é um problema isolado de um usuário desatento. É um problema que afeta todos os clientes simultaneamente. Fabio Assolini, diretor do time de investigação da Kaspersky na América Latina, explica que a troca do código não deixa nenhum indício visual. O código Pix Copia e Cola também é alterado, prejudicando quem acessa a loja pelo celular. Para o comprador comum, é impossível saber que algo está errado apenas olhando.

Alguns lojistas já perceberam o problema — não porque viram o vírus, mas porque notaram um aumento anormal no número de compras abandonadas. Alguns começaram a informar o CNPJ e o nome da empresa para que os clientes pudessem verificar o destinatário antes de confirmar. Outros redirecionaram os pagamentos para plataformas terceirizadas. Mas a maioria provavelmente ainda não sabe que foi infectada. Assolini alerta que em sites menores, o pagamento nem sempre vai para o nome fantasia da loja. O registro pode estar no nome do proprietário. Isso cria uma zona cinzenta onde o cliente legítimo não consegue distinguir entre um pagamento legítimo e um fraudulento.

Quando a fraude é descoberta, existe um mecanismo chamado MED — Mecanismo Especial de Devolução — que pode rastrear a transação por até cinco transferências. Mas aqui está o problema: quanto mais tempo passa entre o pagamento e a descoberta da fraude, mais tempo os criminosos têm para dispersar o dinheiro. Eles costumam ter mais de 50 contas de "testas de ferro" em operações como essa. Em poucas horas, o valor é distribuído entre dezenas de contas. Perder duas ou três contas durante o crime está nos planos deles. O cliente tem 80 dias para solicitar a devolução, mas os estelionatários já sabem disso. Eles trabalham rápido.

O mesmo vírus que desvia o Pix também copia dados de cartão de crédito quando o cliente escolhe pagar com cartão em vez de Pix. Nesse cenário, o lojista recebe o dinheiro normalmente, mas o cliente é fraudado depois, quando seus dados clonados são usados em outras transações. A solução recomendada é usar cartões virtuais — números temporários gerados pelo banco que expiram após uma única transação.

Para se proteger, o consumidor deve verificar o nome do recebedor e o CNPJ antes de confirmar qualquer transferência Pix. Se notar um desvio, deve acionar o banco imediatamente para registrar a fraude e solicitar o MED. Quanto mais rápido o aviso, maior a chance de o banco bloquear o valor antes que seja dispersado. Para os lojistas, a proteção passa por manter o Magento atualizado, usar senhas únicas e complexas para a administração do site, e fazer monitoramento recorrente com software de qualidade para identificar comportamentos anômalos. O código malicioso que ativa a troca do QR code costuma ser escrito em linhas ofuscadas — uma atividade muito suspeita que um software de monitoramento deveria detectar. Mas para um lojista sem experiência técnica, identificar essas linhas é um desafio.

É o novo magecart brasileiro
— Pesquisador independente eremit4
Como o criminoso infecta o site e não o computador da vítima, o potencial de estrago é muito maior e atinge todos os clientes
— Fabio Assolini, diretor de investigação da Kaspersky na América Latina
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