Viridis obteve licença prévia em dezembro de 2025 e aguarda licença de instalação para começar operações que movimentarão 5 milhões de toneladas de argila anualmente. Sete projetos de terras raras na região demandarão 180 mil metros cúbicos de água por mês e afetarão 60 mil pessoas próximas às escavações, gerando preocupações com contaminação e radioatividade.
Viridis avança em projeto de terras raras em MG apesar de resistência comunitária
Isso é um laboratório a céu aberto e a gente é cobaia
Por que essa mineração de terras raras é tão importante agora? Não é apenas mais uma mina?
Não. A China controla quase toda a produção mundial. Esses elementos são críticos para a transição energética — motores elétricos, geradores eólicos. O Brasil quer entrar nesse mercado, e a Viridis seria uma das primeiras operações robustas do país.
Mas espera — a empresa tem experiência em terras raras? Porque o texto diz que nenhuma empresa testou essa escala no Brasil.
Exatamente. A Viridis é australiana, fundada em 2006, mas não tem histórico de mineração de terras raras em larga escala. Eles têm um acordo com a Solvay, que é experiente em refino, mas a extração em si é nova para eles aqui.
E quanto aos 60 mil moradores que estão próximos? Qual é o risco real?
O relatório federal lista vários: contaminação de água, exposição a radioatividade, poeira, metais pesados. A região já tem uma mina de urânio em descomissionamento. Adicionar sete projetos de terras raras simultaneamente cria o que chamam de impactos cumulativos.
Mas o diretor da Viridis diz que não há risco de contaminação de água. Como sabemos quem está certo?
Não sabemos ainda. Por isso o Ministério Público pediu uma auditoria do TCU. O projeto tem Classe 6 — o maior nível de impacto ambiental — mas ainda não começou. É um teste em tempo real.
A empresa está disposta a mudar os planos?
Petersen disse que sim — que adiaram as escavações mais próximas às casas e que mudariam se comprovado o incômodo. Mas os moradores dizem que não receberam detalhes suficientes dos impactos.
Então é um acordo verbal? Não há garantias formais?
O texto menciona um acordo com a prefeitura para postergar, mas não especifica se é vinculante ou apenas uma intenção. Isso é uma lacuna importante.
Quanto tempo durará a operação?
A Viridis planeja pelo menos 40 anos. Petersen diz que operações desse tipo podem durar 200 anos, mas isso é especulação.
E se der errado? Qual é a garantia financeira para remediar danos?
O MPTCU pediu exatamente isso ao TCU — esclarecimento sobre planos de fechamento de mina e garantias financeiras. Ainda não há resposta pública.
Le Pouls
- Investimento de US$ 450 milhões (R$ 2 bilhões) da Viridis em Poços de Caldas
- Licença prévia obtida em dezembro de 2025; aguarda licença de instalação
- 5 milhões de toneladas de argila movimentadas anualmente; 180 mil m³ de água por mês demandados
- 60 mil pessoas em áreas residenciais próximas ao projeto
- Relatório interministerial de 60 páginas apontou graves riscos socioambientais em setembro de 2026
Viridis obteve licença prévia em dezembro de 2025 e aguarda licença de instalação para começar operações que movimentarão 5 milhões de toneladas de argila anualmente. Sete projetos de terras raras na região demandarão 180 mil metros cúbicos de água por mês e afetarão 60 mil pessoas próximas às escavações, gerando preocupações com contaminação e radioatividade.
A mineradora australiana Viridis inicia encomendas de equipamentos para extrair terras raras em Poços de Caldas com investimento de US$ 450 milhões, mas enfrenta forte resistência de moradores preocupados com impactos ambientais e à saúde.
A mineradora australiana Viridis está colocando em movimento a maquinaria de um projeto que pode redefinir a indústria de mineração no Brasil. A empresa começou a fazer encomendas de equipamentos para sua operação de extração de terras raras em Poços de Caldas, no sul de Minas Gerais — um passo que sinaliza que o projeto Colossus, como é chamado, deixou de ser apenas um plano e virou realidade iminente. Mas essa realidade está chegando cercada de protestos, cartas ao presidente e um relatório federal de 60 páginas que lista riscos que as autoridades locais dizem não terem sido adequadamente explicados.
O investimento é de US$ 450 milhões, aproximadamente R$ 2 bilhões. A Viridis já tem um acordo comercial com a empresa belga Solvay, que fará o refino do material extraído. Os elementos de terras raras — neodímio, praseodímio, disprósio, térbio — são componentes essenciais para ímãs de alta intensidade usados em motores elétricos, geradores eólicos e equipamentos de ressonância magnética. Hoje, a China domina esse mercado, mas há uma expectativa de que a produção se descentralize nos próximos anos. No Brasil, existe apenas uma operação comercial de terras raras em funcionamento: a Serra Verde, em Minaçu, Goiás, adquirida pela americana USA Rare Earth. A Viridis quer ser a segunda.
O processo que a Viridis usará envolve lavrar argila e remover quimicamente as terras raras na forma de um carbonato. A empresa planeja remover o lantânio — um componente de baixo valor — na própria planta de Poços de Caldas, em parceria com a Solvay. O material processado será então enviado para a unidade da Solvay na França, que abastecerá o mercado europeu. A empresa obteve a licença prévia em dezembro de 2025, após análise da Câmara de Atividades Minerárias do Conselho Estadual de Política Ambiental de Minas Gerais. Agora aguarda a licença de instalação para começar as obras. Em setembro, o BNDES liberou um financiamento de R$ 77,5 milhões para a Viridis por meio de uma linha de fomento voltada a minerais críticos para a transição energética.
Mas em Poços de Caldas, Caldas e Andradas — municípios vizinhos no sul do estado — a reação não é de boas-vindas. Sete projetos de exploração de terras raras estão previstos para a região, com uma movimentação total de mais de 10 milhões de toneladas de material por ano. A demanda hídrica será de cerca de 180 mil metros cúbicos por mês, um volume equivalente ao abastecimento de uma cidade de até 40 mil habitantes. O projeto Colossus recebeu a Classe 6 no licenciamento ambiental estadual — o maior nível em relação ao potencial de impacto ambiental. Moradores dizem que a empresa não detalhou adequadamente os impactos que virão. O plano é que, no futuro, o projeto chegue a apenas 300 metros das casas.
Danielle Vilas Boas, integrante do coletivo Rara é a Vida, criado após uma reunião da Viridis com a comunidade, aponta que o projeto tem dois pontos críticos: o conjunto habitacional paralelo à avenida Yolanda e a região do Jardim Contorno e Paraíso, que concentra 60 mil pessoas. "Quando você tem uma mineração nova num risco de impacto desse, que vai ser produzida numa escala que nunca foi testada nesse país por uma empresa que não tem experiência em mineração de terras raras, isso é um laboratório a céu aberto e a gente é cobaia", disse ela à Folha. Os moradores enviaram uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Uma comitiva interministerial do governo federal visitou a região em junho para ouvir as comunidades afetadas.
Esse relatório interministerial, divulgado em 14 de setembro, apontou graves riscos socioambientais: possibilidade de impactos cumulativos na água, no solo, na biodiversidade e na saúde pública; exposição a elementos radioativos e metais pesados — uma preocupação agravada pela presença da mina de urânio em descomissionamento da INB em Caldas; poluição atmosférica, sonora e poeira. Em 16 de setembro, o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União pediu que o TCU instaure uma auditoria operacional nos órgãos federais envolvidos na autorização, licenciamento e fiscalização, incluindo o Ibama e a Agência Nacional de Mineração.
Klaus Petersen, diretor-executivo da Viridis Brasil, respondeu aos questionamentos. Disse que a empresa estudou a possibilidade de postergar as escavações mais próximas às casas e já fez um acordo com a prefeitura para isso. "Se for comprovado que realmente incomoda, a gente muda o plano", afirmou. Sobre a poeira, disse que a empresa elaborou um programa de mitigação com cercas de árvores e trabalho a úmido. O projeto será instalado numa área de 400 hectares — equivalente a 560 campos de futebol. Petersen, geólogo com mais de 30 anos de experiência, disse que a extensão não é "nada muito grande" e que haverá "várias cavas pequenas que vão migrando de um local para o outro". O projeto movimentará cerca de 5 milhões de toneladas de argilas iônicas por ano, com previsão de extrair entre 2 kg e 3 kg de terras raras por tonelada de argila. Uma operação desse tipo pode ter vida útil de cerca de 200 anos, mas a Viridis planeja explorar por pelo menos 40 anos.
Sobre a contaminação de água, Petersen disse que não há possibilidade disso ocorrer com o processo que será usado. Afirmou que quase 50% do custo da planta é dedicado à recuperação de água, filtragem e recuperação de componentes químicos. A empresa usa sulfato de amônio para extrair as terras raras, mas não devolve a argila contaminada. Em vez disso, usa um processo de três tanques gigantes de lavagem com água filtrada do sistema. O projeto segue seu caminho, mas a tensão entre a promessa de desenvolvimento e as preocupações comunitárias permanece em aberto.
Citations marquantes
Quando você tem uma mineração nova num risco de impacto desse, que vai ser produzida numa escala que nunca foi testada nesse país por uma empresa que não tem experiência em mineração de terras raras, isso é um laboratório a céu aberto e a gente é cobaia— Danielle Vilas Boas, integrante do coletivo Rara é a Vida
Já fizemos um acordo com a prefeitura para que a gente postergue isso para avaliarmos os impactos. Se for comprovado que realmente incomoda, a gente muda o plano— Klaus Petersen, diretor-executivo da Viridis Brasil