Um em cada cinco adolescentes portugueses (13-18 anos) mostra sinais de gaming problemático, segundo dados do ECATD-CAD 2024. A dependência desenvolve-se através de hábitos; tornar o comportamento aleatório e variar jogos, dias e durações é estratégia preventiva eficaz.
Videojogos: como prevenir a dependência nos adolescentes
Se o jogo nunca se tornar uma rotina, não se tornará uma dependência
Se os videojogos podem ser benéficos, como é que os pais sabem quando algo mudou e se tornou um problema?
É uma boa pergunta, porque a linha não é sempre clara. O que importa é observar se o jogo começou a substituir outras coisas — se o filho deixou de ver amigos, se as notas caíram, se dorme menos, se fica irritado quando não pode jogar. Não é sobre o número de horas, é sobre o que está a ser sacrificado.
Então a proibição total não é a resposta?
Não. A proibição cria conflito e, muitas vezes, apenas afasta o comportamento para longe dos olhos dos pais. O que funciona é manter o jogo aleatório, variado, nunca permitir que se torne uma rotina fixa. Se o filho joga diferentes jogos em diferentes dias, por tempos diferentes, o cérebro não cria aquela dependência que surge da repetição.
E se a criança já está a passar quatro horas por dia a jogar?
Isso é um sinal de alerta, mas não é, por si só, um diagnóstico. O que importa é entender por quê. Precisa de mais tempo para sentir o mesmo prazer? Está a usar o jogo para escapar a emoções difíceis? Deixou de fazer outras coisas que gostava? Se a resposta for sim a várias destas perguntas, aí há razão para preocupação.
Qual é o papel do controlo parental?
É uma ferramenta útil, mas não é a solução completa. Pode estabelecer limites de tempo, mas o que realmente importa é a conversa com o filho, entender o que o atrai no jogo, e garantir que existem outras fontes de satisfação — desporto, amigos, família, atividades criativas.
Se um adolescente já tem sinais de dependência, o que devem fazer os pais?
Procurar ajuda profissional. Existem critérios claros para diagnosticar isto, e um psicólogo pode ajudar a entender o que está por trás do comportamento e a criar um plano para mudar. Não é algo que se resolva sozinho.
O Pulso
- 21% dos adolescentes portugueses (13-18 anos) apresentam padrão de jogo online problemático
- 3 em cada 10 adolescentes passam 4+ horas por dia a jogar nos dias sem escola
- A OMS reconhece a Perturbação por Jogos Eletrónicos desde 2022
- Diagnóstico de dependência requer pelo menos 5 de 9 critérios de alerta
Um em cada cinco adolescentes portugueses (13-18 anos) mostra sinais de gaming problemático, segundo dados do ECATD-CAD 2024. A dependência desenvolve-se através de hábitos; tornar o comportamento aleatório e variar jogos, dias e durações é estratégia preventiva eficaz.
Estudo revela que 21% dos adolescentes portugueses apresentam padrão de jogo online problemático. Especialistas recomendam evitar rotinas de jogo e manter outras fontes de prazer para prevenir dependência.
Depois da escola, o computador. À mesa de jantar, fala-se do nível ultrapassado, da jogada memorável, mas a conversa apaga-se depressa — há um ecrã que o chama. À noite, quando é hora de dormir, a irritação toma conta. Ao fim de semana, as horas desaparecem em frente ao monitor. Este cenário é familiar a muitos pais de adolescentes em Portugal, e a preocupação que sentem tem fundamento nos números: um em cada cinco adolescentes entre os 13 e 18 anos apresenta um padrão de jogo online problemático, de acordo com o Estudo sobre o Consumo de Álcool, Tabaco, Drogas e outros Comportamentos Aditivos e Dependências de 2024. O Projeto Europeu de Inquéritos Escolares sobre o Álcool e outras Drogas aponta para uma realidade semelhante, com 24% dos estudantes portugueses de 16 anos a mostrarem indicadores de uso prejudicial de videojogos.
Os videojogos não são, por si só, o problema. Podem ser uma forma legítima de diversão e até de aprendizagem. O risco surge quando ocupam o lugar que deveria pertencer à escola, à família, aos amigos, ao sono, a outras formas de prazer. João Nuno Faria, psicólogo clínico e coordenador do Núcleo de Intervenção no Comportamento Online da clínica PIN – Partners in Neuroscience, oferece uma perspetiva clara aos pais que querem encontrar equilíbrio: a chave é impedir que os videojogos se transformem num hábito. "Para que um comportamento se torne uma adição, teve de se tornar um hábito antes disso," explica. "Se for prevenida a criação do hábito, a dependência nunca se tornará uma realidade." A forma mais eficaz de evitar isso é tornar o comportamento imprevisível — jogar diferentes jogos, em diferentes dias, por períodos variáveis. Se o jogo nunca se enraizar numa rotina, não evoluirá para uma dependência.
Outras medidas preventivas são igualmente importantes. Os pais devem garantir que a prática de videojogos não interfira com as rotinas diárias essenciais e, simultaneamente, alimentar outras fontes de satisfação: atividades físicas, culturais, recreativas, momentos em família. Quando o videojogo se torna a única fonte de prazer, o risco aumenta significativamente. Existem também ferramentas práticas: o sistema PEGI fornece informação sobre a idade apropriada para cada jogo, e os sistemas de controlo parental permitem estabelecer limites de tempo diário.
A quantidade de horas passadas a jogar é uma das maiores preocupações dos pais, e os dados confirmam a razão. Três em cada dez adolescentes portugueses passam quatro ou mais horas por dia a jogar nos dias sem escola; um em cada dez faz o mesmo em dias de aulas. Mas o tempo, por si só, não é o critério decisivo. "Pode ser sinal da necessidade de cada vez mais tempo de jogo para sentir o mesmo grau de satisfação, mas, como critério único, não é suficiente para diagnosticar um problema," diz Faria. É a relação que se estabelece com o videojogo que o torna prejudicial.
A Organização Mundial da Saúde reconhece a Perturbação por Jogos Eletrónicos desde 2022, com a entrada em vigor da CID-11. A Associação Americana de Psiquiatria inclui a Perturbação de Jogo pela Internet no DSM-5, apresentando nove critérios de alerta. Um diagnóstico de dependência exige a presença de pelo menos cinco destes sinais: preocupação constante com os videojogos que domina pensamentos e tempo; tristeza, irritabilidade ou raiva quando não pode jogar; necessidade crescente de mais tempo para obter a mesma satisfação; tentativas repetidas e falhadas de reduzir o tempo de jogo; perda de interesse por atividades que antes eram prazerosas; continuação ou aumento do jogo apesar das consequências negativas na escola, trabalho, relações ou saúde; mentira ou ocultação do tempo gasto a jogar; uso dos videojogos como principal estratégia para lidar com emoções negativas como tristeza, ansiedade ou culpa; comprometimento de relações importantes, desempenho escolar ou profissional devido ao jogo.
O desafio para os pais é encontrar o equilíbrio entre permitir que os filhos usufruam dos benefícios dos videojogos e protegê-los do risco de dependência. Não se trata de proibição, mas de prevenção ativa — manter a variabilidade, proteger as rotinas essenciais, alimentar outras fontes de satisfação, e estar atento aos sinais de que o jogo está a ocupar um espaço que não deveria ocupar.
Citações Notáveis
Para que um comportamento se torne uma adição, teve de se tornar um hábito antes disso. Se for prevenida a criação do hábito, a dependência nunca se tornará uma realidade.— João Nuno Faria, psicólogo clínico e coordenador do Núcleo de Intervenção no Comportamento Online da clínica PIN
É a relação que se estabelece com o videojogo que o torna problemático, não apenas o tempo dedicado.— João Nuno Faria