Ursos gigantes de Portugal encolheram milhares de anos; caça humana é suspeita

Nenhuma pessoa perseguiria um urso de 400 kg acordado
Explicação de por que a caça humana era possível apenas durante a hibernação dos ursos gigantes.
Mark

Como é que os investigadores conseguem saber o peso exato de um urso que morreu há vinte mil anos?

Mimi

Através dos ossos. O tamanho e a densidade dos ossos, especialmente dos membros e da coluna, permitem estimar o peso corporal com bastante precisão. Quando se tem centenas de fósseis de diferentes períodos, consegue-se traçar uma tendência clara.

Mark

E por que razão a caça durante a hibernação seria tão diferente da caça a um urso acordado?

Mimi

Um urso hibernante está num estado de torpor profundo — praticamente imóvel, previsível, vulnerável. Um grupo de caçadores experientes com lanças podia aproximar-se e atacar sem risco de ser atacado. Um urso acordado de quatrocentos quilogramas é uma ameaça existencial.

Mark

Mas isso não explica por que é que os ursos encolheram especificamente. Não poderiam ter simplesmente desaparecido?

Mimi

Poderiam, mas não desapareceram. O que aconteceu foi seleção natural sob pressão humana. Os ursos maiores e mais agressivos eram caçados com mais frequência. Os menores, mais tímidos, tinham mais probabilidades de sobreviver e reproduzir-se. Ao longo de milhares de anos, isso muda a população inteira.

Mark

E se não fosse a caça? E se fosse apenas a mudança de dieta?

Mimi

É uma possibilidade real. Se os ursos antigos comiam mais peixe ou carne, isso explicaria o tamanho. Mas a caça humana também destruiu as florestas e as presas. Provavelmente foi uma combinação — pressão ambiental e pressão de predação humana trabalhando juntas.

Mark

O que é que isto nos diz sobre os ursos que vivem hoje?

Mimi

Que são sobreviventes de um processo de seleção brutal. Compreender como chegaram aqui é essencial para os proteger. Se não entendermos o que os moldou, não conseguimos antecipar o que os pode destruir.

  • Ursos que pesavam quase 400 kg há 22.000 anos reduziram-se a menos de 145 kg nos dias de hoje — uma perda de massa sem precedentes documentada em fósseis portugueses.
  • A caça durante a hibernação, quando os animais eram mais vulneráveis, terá eliminado sistematicamente os exemplares maiores e mais ousados ao longo de gerações.
  • A destruição das florestas pelos agricultores e a ocupação humana das grutas retiraram aos ursos tanto o alimento como os refúgios que garantiam a sua sobrevivência.
  • Investigadores alertam que os ursos ibéricos atuais podem nem sequer descender diretamente dos gigantes pré-históricos, tornando urgente a análise de ADN antigo para esclarecer a questão.
  • Compreender esta transformação evolutiva é agora considerado essencial para proteger os ursos remanescentes e preservar o papel ecológico insubstituível que desempenham nos ecossistemas ibéricos.

Ao longo de milénios, os ursos-pardos que habitavam a Península Ibérica foram moldados não apenas pelo clima, mas pela presença crescente e perturbadora do ser humano. Fósseis recolhidos em grutas portuguesas revelam que estes animais perderam mais de quarenta por cento da sua massa corporal desde a última glaciação — uma transformação silenciosa que a ciência agora associa à caça seletiva, à destruição das florestas e à ocupação dos seus refúgios ancestrais. O que começou como coexistência tornou-se pressão evolutiva, e o gigante que um dia percorreu estas terras sobrevive hoje numa forma muito mais contida de si mesmo.

Há vinte e dois mil anos, um urso-pardo em Portugal podia pesar quase quatrocentos quilogramas. Hoje, os seus descendentes ibéricos mal chegam a cento e quarenta e cinco. A história deste encolhimento progressivo foi reconstituída a partir de centenas de fósseis recolhidos em grutas portuguesas e publicada na revista Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology. O autor principal, Darío Estraviz-López, paleontólogo da Universidade NOVA de Lisboa, defende que a paleontologia é uma das melhores ferramentas para compreender como uma espécie se tornou o que é hoje.

Portugal revela-se um caso singular: os ursos-das-cavernas, presentes em toda a Europa, nunca chegaram à Península Ibérica — provavelmente por dependerem de grutas muito maiores e de rotas de migração específicas. Na sua ausência, os ursos-pardos ocuparam esse espaço ecológico e atingiram dimensões extraordinárias. Os fósseis da Gruta da Furninha, com cerca de oitenta mil anos, mostram animais de tal robustez que Estraviz-López os comparou, ao segurar os ossos, aos próprios ursos-das-cavernas extintos.

A redução de tamanho não se explica apenas pelo clima. Os investigadores apontam para uma pressão humana prolongada e multifacetada: primeiro a ocupação das grutas, depois a destruição das florestas pela agricultura, e por fim as armas de fogo. A caça durante a hibernação terá sido particularmente seletiva, eliminando os animais maiores e mais visíveis. A coautora Ana García-Vázquez compara o fenómeno ao que ocorre hoje em populações de elefantes, onde a pressão da caça está a aumentar a proporção de animais nascidos sem presas.

O que se perdeu vai além da massa corporal. Os ursos são dispersores de sementes em escala industrial — um único excremento pode conter mais de setenta mil sementes — e regulam populações de veados, javalis e outras espécies. Estraviz-López sublinha que compreender como os gigantes ibéricos se transformaram nos sobreviventes de hoje é o melhor guia disponível para proteger os ursos que ainda restam e evitar que outras espécies sigam o mesmo caminho.

Há vinte e dois mil anos, um urso-pardo percorria o que hoje é Portugal pesando cerca de trezentos e oitenta e cinco quilogramas — um colosso que faria qualquer exemplar moderno parecer frágil. Hoje, os seus descendentes ibéricos pesam pouco mais de cento e quarenta quilogramas. A transformação não foi acidental. Centenas de fósseis recolhidos em grutas portuguesas contam a história de um encolhimento progressivo ao longo de milhares de anos, um processo que investigadores agora associam à pressão humana: caça sistemática, destruição de habitat, ocupação de refúgios ancestrais.

O estudo, publicado na revista Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, oferece uma cronologia surpreendente. Os ursos-pardos ibéricos não foram sempre gigantes — mas foram. Há cerca de doze a oito mil anos, no início do Holocénico, os machos do Noroeste de Espanha ainda pesavam aproximadamente duzentos e sessenta quilogramas, enquanto as fêmeas rondavam os cento e quarenta. A redução continuou. Nos dias de hoje, os machos perderam mais de quarenta por cento da sua massa original; as fêmeas, mais de vinte e cinco por cento. Darío Estraviz-López, paleontólogo da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa e autor principal do estudo, explica que a paleontologia oferece uma das melhores ferramentas para compreender como uma espécie adquiriu as características que apresenta hoje. A evolução, como disse o biólogo Theodosius Dobzhansky, só faz sentido à luz da própria evolução.

O que torna Portugal particularmente revelador é o que ali não existe. Os ursos-das-cavernas, Ursus spelaeus, estiveram distribuídos por toda a Europa, mas apesar de décadas de escavações, nunca foi encontrado qualquer indício da sua presença em Portugal. Os ursos-pardos, pelo contrário, eram abundantes. Estraviz-López suspeita que os ursos-das-cavernas simplesmente nunca se expandiram até à Península — eles precisavam de grutas muito maiores para hibernar e regressavam às mesmas tocas durante milhares de anos. Na ausência destes animais, os ursos-pardos ocuparam o seu lugar ecológico. Os exemplares da Gruta da Furninha, com cerca de oitenta mil anos, revelaram-se particularmente impressionantes: muitos pesariam mais de trezentos quilogramas, e a sua constituição física — não apenas o tamanho — chamou a atenção dos investigadores. Ao segurar os enormes ossos, Estraviz-López notou uma semelhança inquietante com os restos dos ursos-das-cavernas extintos. Os ursos-das-cavernas, afirmou, estão num patamar completamente diferente em termos de robustez.

Mas por que encolheram? A redução do tamanho não pode ser explicada apenas pelas alterações climáticas. Estraviz-López considera que a caça humana desempenhou um papel crucial — e que o timing era tudo. Nenhuma pessoa armada com uma lança perseguiria um urso de quatrocentos quilogramas completamente desperto. Mas durante a hibernação, a tarefa tornava-se muito mais fácil para um grupo de caçadores experientes com um plano cuidadosamente preparado. O processo foi lento e multifacetado. Numa primeira fase, os seres humanos começaram a ocupar as mesmas grutas utilizadas pelos ursos. Mais tarde, os agricultores destruíram as florestas onde viviam. Por fim, as armas de fogo tornaram muito mais fácil abatê-los. Esta pressão prolongada pode ter eliminado de forma desproporcionada os animais maiores e mais ousados, favorecendo os ursos mais pequenos, que tinham menos probabilidades de entrar em conflito com os seres humanos. Ana García-Vázquez, bióloga da Universidade de Bucareste e coautora do estudo, compara este fenómeno com o que se observa atualmente em algumas populações de elefantes, nas quais estão a nascer mais animais sem presas devido à pressão da caça.

García-Vázquez alerta também para uma possibilidade alternativa: os antigos gigantes e os atuais ursos ibéricos podem nem sequer pertencer à mesma população. Os ursos com uma dieta mais carnívora ou que se alimentam de peixe tendem a atingir maiores dimensões. A análise de ADN antigo e a composição química dos ossos poderão ajudar a esclarecer a questão. Mas o que se perdeu transcende a massa corporal. Os ursos desempenham um papel fundamental nos ecossistemas: apropriam-se de presas abatidas por lobos, ajudam a controlar o número de veados e javalis, e dispersam sementes numa escala quase industrial. Uma única porção de excremento de urso pode conter mais de setenta mil sementes, e mais de noventa e uma espécies de roedores e aves podem alimentar-se delas. Compreender como os gigantes da Península Ibérica se transformaram nos sobreviventes atuais é, segundo Estraviz-López, o melhor guia disponível para proteger os ursos que ainda restam — e para evitar que outras espécies sofram transformações semelhantes.

Nenhuma pessoa armada com uma lança perseguiria um urso de cerca de 400 kg completamente desperto. Mas, durante a hibernação, a tarefa torna-se mais fácil para um grupo de caçadores experientes, com um plano cuidadosamente preparado.
— Darío Estraviz-López, paleontólogo da Universidade NOVA de Lisboa
Uma única porção de excremento de urso pode conter mais de 70.000 sementes, e mais de 91 roedores e aves podem alimentar-se delas.
— Darío Estraviz-López
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