Investidores estrangeiros fugiram para ativos mais seguros como títulos de dívida americana, deixando o mercado brasileiro vulnerável à volatilidade global. Petrobras e Vale lideraram as perdas na B3, pressionadas pela queda do petróleo que recuou até 7% após acordo da Opep+ anunciar aumento de produção.
Variante Delta derruba Bolsas globais; Ibovespa cai 1,24% e dólar sobe a R$ 5,25
Quando há medo, por que correr risco em um país emergente?
Por que o Brasil sofre tanto quando há medo nos mercados globais, se a variante Delta ainda não é um problema tão grande por aqui?
Porque o mercado brasileiro depende do dinheiro estrangeiro. Quando há incerteza em qualquer lugar do mundo, o investidor internacional puxa seu dinheiro de volta para casa, para ativos mais seguros. O Brasil é um mercado emergente — considerado mais arriscado — então é sempre o primeiro a ser abandonado quando o medo chega.
E por que o dólar sobe quando há aversão ao risco?
Os ativos mais seguros do mundo são dolarizados — títulos do Tesouro americano, principalmente. Quando o investidor corre para segurança, ele está comprando dólares. Quanto mais gente quer dólar, mais caro fica. É oferta e demanda pura.
A queda do petróleo deveria ser boa para o Brasil, não? Menos custos de importação?
Seria, se o Brasil não tivesse a Petrobras como uma das maiores empresas da bolsa. A queda do petróleo machuca a Petrobras, que é um peso enorme no índice. E a Vale também sofre porque commodities caem juntas quando há medo de recessão. O mercado está apostando que a variante vai frear a economia global.
Os analistas acham que isso vai piorar?
Depende do que acontecer lá fora. Se os mercados americanos e europeus continuarem caindo, o Brasil cai junto, mesmo que os balanços das empresas saiam bons. A tendência técnica aponta para mais quedas. Mas há esperança: se os balanços do segundo trimestre forem realmente positivos, podem aliviar um pouco a queda.
E a inflação? Isso não complica mais as coisas?
Complica bastante. Enquanto o mercado está assustado com a variante lá fora, aqui dentro a inflação está subindo mais do que o governo esperava. Os analistas já elevaram a projeção para 6,31% este ano, bem acima da meta de 5,25%. Isso significa que o Banco Central vai ter que subir os juros mais, o que torna investimentos em renda fixa mais atraentes e ações menos interessantes.
Der Puls
- Ibovespa caiu 1,24% para 124.395 pontos, menor nível desde 27 de maio
- Dólar subiu 2,63%, fechando a R$ 5,25
- Petróleo Brent caiu 6,60% e WTI recuou 7,50% após acordo da Opep+ aumentar produção
- Investidores estrangeiros fugiram para títulos do Tesouro americano e dólar
- Petrobras e Vale lideraram perdas na B3 com quedas de até 1,65%
Investidores estrangeiros fugiram para ativos mais seguros como títulos de dívida americana, deixando o mercado brasileiro vulnerável à volatilidade global. Petrobras e Vale lideraram as perdas na B3, pressionadas pela queda do petróleo que recuou até 7% após acordo da Opep+ anunciar aumento de produção.
A disseminação da variante Delta do coronavírus provocou aversão ao risco nos mercados globais, causando queda de 1,24% no Ibovespa e alta de 2,63% do dólar, que atingiu R$ 5,25. O petróleo também caiu após acordo da Opep+ aumentar produção.
A variante Delta do coronavírus varreu os mercados globais nesta segunda-feira, deixando um rastro de perdas que alcançou até as bolsas mais distantes. No Brasil, o efeito foi imediato e visível: o Ibovespa recuou 1,24%, fechando em 124.395 pontos — o pior nível desde 27 de maio — enquanto o dólar disparou 2,63%, atingindo R$ 5,25 contra o real. O petróleo também desabou, com o Brent caindo 6,60% e o WTI recuando 7,50%, pressionado tanto pela disseminação do vírus quanto por um acordo da Opep+ anunciado no fim de semana para aumentar a produção até 2022.
O que aconteceu foi um movimento clássico de fuga para segurança. Quando o medo toma conta dos investidores globais, eles abandonam ativos de risco — como ações de mercados emergentes — e correm para refúgios conhecidos: títulos de dívida americana, dólar, ouro. Os rendimentos dos títulos do Tesouro americano de dez anos caíram para 1,225%, ante 1,294% no fechamento anterior, refletindo essa correria por segurança. O Brasil, embora ainda não seja o epicentro da disseminação da Delta, sofre porque depende fortemente do apetite do investidor estrangeiro. Quando esse apetite desaparece, o mercado local fica à deriva.
Jansen Costa, sócio da Fatorial Investimentos, resumiu o dilema: embora o aumento de casos não tenha se traduzido em aumento de mortes, a incerteza é suficiente para fazer os investidores venderem ações e reduzirem sua exposição em renda variável. Thiago Raymon, head de estratégia da Wise Investimentos, foi além: quando há medo em circulação, por que um investidor correria risco em um país emergente? Os ativos mais seguros são frequentemente dolarizados, o que explica por que a moeda americana sobe junto com a aversão ao risco.
O padrão se repetiu em bolsas ao redor do mundo. Em Nova York, o Dow Jones caiu 2,09%, o S&P 500 recuou 1,59% e o Nasdaq cedeu 1,06%. Na Europa, Londres perdeu 2,34%, Frankfurt 2,62% e Paris 2,54%. Em Tóquio, o Nikkei caiu 1,25%. A sincronização global do pessimismo foi quase perfeita. No Brasil, as maiores vítimas foram as empresas mais expostas ao petróleo: Petrobras teve suas ações ordinárias caindo 1,18% e as preferenciais 1,65%, enquanto Vale recuou 1,09%. No setor financeiro, Itaú e Bradesco também sofreram quedas de 0,58% e 1,48%, respectivamente.
O acordo da Opep+ criou um paradoxo: ao anunciar aumento de produção de 400 mil barris por dia a partir de agosto, a organização sinalizou confiança na recuperação econômica. Mas o mercado interpretou diferente. Com a variante Delta ameaçando interromper essa recuperação, a demanda por petróleo fica incerta, e mais oferta em um cenário de demanda fraca significa preços mais baixos. Braulio Langer, analista da Toro Investimentos, apontou que a perspectiva de divulgação de balanços positivos no segundo trimestre — começando nesta terça com Indústrias Romi e Neoenergia — pode aliviar as perdas, mas não será suficiente para evitar quedas maiores se os mercados externos continuarem negativos.
Há um fator doméstico que pode oferecer alguma proteção: o recesso parlamentar iniciado nesta segunda reduz o ruído vindo de Brasília, particularmente sobre a reforma tributária. Isso deixa o Ibovespa ainda mais refém dos humores externos. Enquanto isso, analistas já elevaram suas projeções para a inflação deste ano para 6,31%, bem acima da meta de 5,25% do governo, e esperam que a taxa básica de juros suba para 6,75%. O mercado está preso entre dois medos: o da variante Delta lá fora e o da inflação aqui dentro.
Bemerkenswerte Zitate
Apesar desse aumento de casos não configurar aumento de mortes, já traz incerteza, fazendo com que os investidores diminuam a exposição em renda variável e vendam ações— Jansen Costa, sócio da Fatorial Investimentos
Vemos uma aversão ao risco maior e, com isso, todo mundo vai correndo para aqueles ativos que te dão uma maior segurança. Não tem motivo para o investidor correr risco em um país emergente quando há algum medo ali— Thiago Raymon, head de estratégia da Wise Investimentos