Redes de Renan Santos escapam de filtro do TSE enquanto rivais são penalizados

Algoritmos promoviam livremente contas que o tribunal desconhecia
Renan Santos manteve perfis ativos em redes sociais sem declará-los ao TSE, escapando do filtro de recomendação por mais de dez dias.
Mark

Por que essa história importa? Parece um detalhe técnico de campanha.

Mimi

Porque algoritmos decidem o que bilhões de pessoas veem todos os dias. Se um candidato consegue ficar invisível para o filtro do TSE, suas postagens chegam para gente aleatória. Seus rivais que cumprem a regra não têm esse privilégio.

Luke

Mas quanto tempo estamos falando? Dez dias é muito?

Mimi

Dez dias em uma campanha presidencial é bastante. É tempo suficiente para ganhar seguidores, viralizar, construir narrativa. E Renan continuou usando essas contas mesmo depois de pedir para adicioná-las.

Mark

O TSE não fiscaliza isso?

Mimi

Aparentemente não. A reportagem perguntou se o tribunal faz alguma fiscalização sobre as informações prestadas pelos candidatos. O TSE não respondeu à pergunta específica.

Luke

Espera — o TSE não respondeu? Ou respondeu de forma genérica?

Mimi

Respondeu com uma nota geral sobre multas e regras. Mas não respondeu se já estava fiscalizando ou se faria algo sobre Renan.

Mark

E as plataformas? Elas sabem que devem aplicar esse filtro?

Mimi

Sabem. Mas o X manteve um filtro desatualizado até a Folha questionar. Nas outras plataformas, não há transparência — ninguém sabe se estão cumprindo ou não.

Luke

Então o problema é triplo: candidatos não declaram, o TSE não fiscaliza, e as plataformas não aplicam o filtro corretamente mesmo quando deveriam.

Mimi

Exatamente. E enquanto isso, candidatos que cumprem as regras ficam em desvantagem.

Mark

Qual é a punição para quem não declara?

Luke

O TSE disse que pode haver multa, mas não há evidência de que alguém foi multado por isso. É uma ameaça sem dentes.

Mimi

E há ainda uma crítica mais funda: a regra acaba favorecendo candidatos ricos que podem pagar anúncios, porque os pobres dependem de alcance orgânico.

  • Renan Santos declarou ao TSE apenas duas presenças digitais, mas manteve contas ativas em três outras plataformas de alto alcance — sem o filtro que limitava seus rivais.
  • Por mais de dez dias, os algoritmos do Instagram, YouTube e TikTok promoveram livremente seu conteúdo enquanto candidatos que seguiram as regras ficavam restritos aos próprios seguidores.
  • A equipe jurídica do candidato pediu a inclusão dos perfis omitidos três dias após o início da campanha, mas o TSE só certificou o pedido após a Folha questionar o atraso — na noite de 27 de agosto.
  • Outros candidatos cometeram irregularidades semelhantes, e ao menos uma plataforma, o X, manteve filtros desatualizados até ser questionada pela reportagem.
  • O TSE alertou sobre multas, mas as advertências chegaram tarde para quem já colheu dias de promoção gratuita — e a fiscalização nas demais plataformas permanece opaca e desigual.

Em democracias mediadas por algoritmos, as regras que deveriam nivelar o campo eleitoral só valem para quem as declara. Ao omitir perfis ativos no Instagram, YouTube e TikTok no momento de seu registro, o candidato Renan Santos (Missão) operou por mais de dez dias fora do filtro de recomendação imposto pelo TSE a seus concorrentes — uma vantagem silenciosa, mas mensurável, no coração da campanha presidencial de 2026. O episódio não é isolado: revela uma fragilidade estrutural na fiscalização digital do tribunal e levanta uma questão mais antiga sobre a distância entre a norma escrita e a norma vivida.

Quando Renan Santos registrou sua candidatura à Presidência pelo partido Missão, em 7 de agosto, informou ao TSE apenas uma conta no X e um site. O que o tribunal desconhecia era que o candidato mantinha perfis ativos no Instagram, YouTube e TikTok — plataformas onde algoritmos decidem o que milhões de brasileiros veem todos os dias.

Desde 2024, o TSE exige que as redes sociais removam dos algoritmos de recomendação qualquer perfil declarado por candidatos. Na prática, postagens só chegam a quem já segue o candidato, não a usuários aleatórios. A regra pretende nivelar o campo eleitoral — mas só funciona se todos declararem todas as suas contas.

Renan Santos não o fez. Por mais de dez dias, suas contas não declaradas foram promovidas livremente pelas plataformas. Três dias após o início oficial da campanha, sua equipe jurídica pediu ao tribunal para incluir os perfis omitidos — mas até a noite de 27 de agosto eles ainda não constavam na base do TSE nem no DivulgaCand. O tribunal só certificou o acréscimo depois que a Folha questionou o atraso. Enquanto isso, o candidato continuou usando as contas nos dias seguintes ao pedido, em aparente descumprimento da regra que exige 48 horas de espera após o registro.

O caso não é isolado. Rui Costa Pimenta (PCO) declarou apenas um site, ignorando suas contas no Instagram e no X. Hertz Dias (PSTU) informou apenas um nome genérico, sem especificar plataforma. Samara Martins (UP) e Wilson Grassi (Democrata) também deixaram informações incompletas. Algumas campanhas reconheceram os erros ao serem questionadas; outras não responderam.

O TSE emitiu nota alertando que informações incompletas violam a legislação e podem gerar multas — mas as advertências chegaram tarde para quem já se beneficiou do silêncio. Há ainda outra fragilidade: mesmo quando o tribunal atualiza sua base, cada plataforma precisa aplicar o filtro por conta própria. O X manteve dados desatualizados até ser questionado pela reportagem. Nas demais empresas, que não publicam seus algoritmos, a fiscalização é ainda mais opaca.

Críticos apontam uma contradição mais profunda: ao bloquear recomendações orgânicas, a regra torna candidatos com menos seguidores ainda mais dependentes de publicidade paga, favorecendo quem tem recursos. A intenção era proteger a disputa da interferência algorítmica. O resultado pode ser o inverso — uma estrutura que penaliza os pobres, recompensa os ricos e oferece dias de vantagem gratuita a quem simplesmente escolhe não declarar.

Quando Renan Santos registrou sua candidatura à Presidência pelo partido Missão em 7 de agosto, ele informou ao Tribunal Superior Eleitoral apenas duas presenças digitais: uma conta no X, antigo Twitter, e um site. O que o tribunal não sabia era que o candidato mantinha perfis ativos e operacionais no Instagram, YouTube e TikTok — plataformas onde milhões de brasileiros passam suas horas de lazer e onde algoritmos decidem o que cada pessoa vê.

Essa omissão importa porque desde 2024 o TSE estabeleceu uma regra clara: as redes sociais devem remover dos seus algoritmos de recomendação qualquer perfil declarado por um candidato. Na prática, isso significa que postagens de um candidato só aparecem para quem já o segue, não para usuários aleatórios que a plataforma poderia tentar converter em eleitores. A intenção é nivelar o campo, evitando que algoritmos favoreçam uns sobre outros. Mas a regra só funciona se os candidatos declarem todas as suas contas.

Renan Santos não o fez. Durante mais de dez dias — de 7 a 19 de agosto — suas contas não declaradas continuaram recebendo o tratamento normal das plataformas, o que significa que os algoritmos as promoviam livremente. Apenas três dias após o início oficial da campanha, em 19 de agosto, a equipe jurídica de Renan pediu ao tribunal para adicionar os outros perfis à sua ficha oficial. Mas até o final da noite de 27 de agosto, quando a Folha entrou em contato com o TSE questionando o atraso, esses perfis ainda não constavam na base de dados do tribunal nem no DivulgaCand, o sistema público onde candidatos são registrados. O tribunal só certificou o pedido de acréscimo após a reportagem intervir.

O regulamento eleitoral é explícito: perfis preexistentes que não foram informados no momento do registro só podem ser usados em campanha 48 horas após serem registrados na Justiça Eleitoral. Renan, porém, continuou usando suas contas não declaradas nos dias seguintes ao pedido de complementação. Quando procurada, sua campanha não respondeu sobre o assunto. O TSE também não respondeu às perguntas específicas da reportagem sobre se o candidato já poderia estar usando esses perfis antes da aprovação ou se o tribunal faz alguma fiscalização para evitar que candidatos que cumprem as regras sejam prejudicados em relação aos que não as cumprem.

Renan Santos não é o único. Rui Costa Pimenta, do PCO, declarou apenas um site ao se registrar, apesar de estar presente no Instagram e no X. Hertz Dias, do PSTU, informou apenas o termo genérico "HertzdiasPSTU" sem especificar qualquer plataforma. Samara Martins, da UP, e Wilson Grassi, do Democrata, também deixaram em branco ou apenas indicaram nomes de usuários sem links. Quando questionadas, as campanhas de Pimenta e Dias reconheceram erros e disseram que solicitariam retificações. A de Grassi alegou que as estratégias de comunicação ainda não estavam definidas no momento do registro. Samara Martins não respondeu.

O TSE emitiu uma nota afirmando que encaminhou orientações aos partidos e tribunais regionais alertando que informações incompletas ou incorretas sobre redes sociais violam a legislação eleitoral e podem resultar em multas. O tribunal também reafirmou que a obrigação de informação deve ser cumprida no momento do registro e que usar aplicações ou endereços eletrônicos não comunicados à Justiça Eleitoral durante a campanha pode sujeitar candidatos às sanções previstas em lei. Mas essas advertências chegam tarde demais para quem já se beneficiou do silêncio.

Outra camada de fragilidade: mesmo quando o TSE atualiza sua base de dados, a aplicação do filtro depende de cada plataforma fazer sua própria atualização. O X, por exemplo, manteve um filtro desatualizado até 27 de agosto, quando a Folha entrou em contato. A rede alterou seu algoritmo apenas após a reportagem questionar. Nas outras empresas, que não publicam seus algoritmos como o X faz, a fiscalização é ainda mais opaca e complexa. Ninguém sabe ao certo se estão cumprindo a regra ou não.

Há ainda uma crítica mais profunda à própria regra: ao bloquear recomendações para candidatos que cumprem as regras, o dispositivo acaba favorecendo aqueles com recursos para pagar anúncios nas plataformas, já que candidaturas com menor alcance e número de seguidores ficam ainda mais dependentes de publicidade paga. A intenção era evitar interferência das plataformas nas campanhas. O resultado pode ser o oposto: uma estrutura que penaliza candidatos pobres e recompensa os ricos, enquanto aqueles que simplesmente não declaram suas contas ganham dias ou semanas de promoção gratuita.

A informação incompleta ou incorreta sobre as redes sociais utilizadas por candidatas e candidatos viola a legislação eleitoral e pode acarretar multa para os envolvidos
— Tribunal Superior Eleitoral
Trata-se de algum problema de comunicação entre a equipe que fez o registro e o sistema do TSE. Naturalmente será retificado
— Campanha de Rui Costa Pimenta
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