Tradicional fabricante de móveis de SC tem falência decretada após 55 anos

Aproximadamente 301 funcionários estavam na empresa até abril; número exato de desligamentos ainda não foi divulgado.
Máquinas retiradas sem autorização, fábrica abandonada
O juiz apontou sinais de esvaziamento patrimonial que evidenciaram o colapso irreversível da empresa.
Mark

Como uma empresa que exportava para a IKEA chega a esse ponto de colapso total?

Mimi

Não foi um único golpe. Foi uma sequência de crises que a empresa não conseguiu absorver. A pandemia desorganizou tudo — o custo de um contêiner subiu sete vezes. Quando você depende de exportação e não consegue embarcar sua mercadoria, o caixa seca.

Mark

Mas a pandemia foi em 2020. Por que a empresa só pediu recuperação em 2024?

Mimi

Porque no começo eles conseguiram se adaptar, suspenderam produção temporariamente. O problema é que quando a logística começou a normalizar, outras coisas pioraram. Os juros subiram, as exportações caíram 27,7% em 2023, o preço da madeira disparou. Não foi uma crise, foram várias acontecendo ao mesmo tempo.

Mark

E a administração da empresa? Não tentaram se reestruturar?

Mimi

Tentaram. Abriram uma unidade em São Bento do Sul em 2020, investiram em automação e sistemas de gestão. Mas quando você está preso em contratos de exportação com margens apertadas e os custos explodem, a reestruturação não é suficiente.

Mark

Qual é o tamanho do estrago financeiro?

Mimi

R$ 133 milhões em dívida, mas esse número pode mudar. Os credores têm 15 dias para contestar. O que preocupa mais é que a empresa retirou máquinas sem autorização judicial e deixou a fábrica abandonada. Isso sugere que no final ninguém estava mais acreditando que haveria recuperação.

Mark

E os funcionários?

Mimi

Havia cerca de 301 pessoas até abril, entre ativos e afastados. O número exato de desligamentos não foi divulgado, o que é preocupante. Essas pessoas provavelmente já sabiam que algo grave estava acontecendo, mas a empresa não comunicou claramente.

Mark

O que acontece agora com os bens?

Mimi

A administração judicial tem 180 dias para vender tudo — máquinas, imóveis, estoque. Um leiloeiro será indicado. Mas com uma empresa que estava paralisada desde maio, é difícil saber qual é o valor real desses ativos. Podem estar deteriorados.

  • A Três Irmãos estava sem produzir desde maio e acumulou descumprimentos graves no plano de recuperação judicial — o juiz não teve outra saída senão decretar a falência.
  • Máquinas de grande porte foram retiradas da sede sem autorização e a matriz foi encontrada em situação de abandono, sinalizando um esvaziamento patrimonial que agravou a decisão judicial.
  • O custo de um contêiner chegou a dez mil dólares em 2021 — sete vezes o valor pré-pandemia —, tornando inviável a operação de exportação que sustentava a empresa.
  • Com cerca de 301 funcionários ainda registrados em abril, o número real de demissões permanece sem divulgação oficial, deixando centenas de famílias em incerteza.
  • A administradora judicial tem 60 dias para planejar a venda dos ativos e 40 dias para apontar responsabilidades civis e penais — o relógio já está correndo.

Em mais de meio século de história, a Três Irmãos cresceu de uma pequena marcenaria familiar em Santa Catarina até processar 15 mil toneladas de madeira por mês — mas a pandemia desfez, em poucos anos, o que décadas haviam construído. Com dívidas estimadas em R$ 133 milhões e a fábrica paralisada desde maio, a Justiça decretou a falência na segunda-feira, encerrando formalmente uma trajetória que começou em 1971. O colapso da empresa é também o retrato de uma crise setorial mais ampla: quando os ventos da logística global mudam de direção, até as raízes mais fundas podem ser arrancadas.

A Três Irmãos, fabricante de móveis com mais de cinco décadas de história em Santa Catarina, teve a falência decretada pela Justiça na segunda-feira. O juiz ordenou o lacre imediato das unidades em Campo Alegre e Caçador, além da apreensão de todos os bens e documentos. O que começou em 1971 como uma pequena marcenaria familiar havia se transformado em uma operação capaz de processar 15 mil toneladas de madeira por mês e empregar cerca de 500 pessoas.

A sentença lista uma série de descumprimentos: a empresa não honrou o plano de recuperação judicial iniciado em 2024, deixou credores sem pagamento, não comprovou o destino de R$ 3,25 milhões obtidos com venda de ativos e acumulou inadimplências fiscais. O documento ainda aponta um esvaziamento patrimonial — máquinas foram retiradas da sede sem autorização e a matriz foi deixada em abandono. A dívida total está estimada em R$ 133 milhões, valor que pode ser revisto após contestação dos credores.

A crise teve origem em 2021, quando a pandemia desorganizou a logística internacional. O frete marítimo disparou para cerca de dez mil dólares por contêiner — sete vezes o patamar anterior —, inviabilizando as exportações. A empresa, que havia firmado parceria com a IKEA em 2009 e expandido com uma unidade em Caçador em 2016, foi forçada a suspender a produção. Entre 2022 e 2023, o cenário piorou: as exportações de móveis catarinenses caíram 27,7%, os juros subiram e os custos de matérias-primas e energia pressionaram ainda mais as margens.

Até abril, a empresa contava com cerca de 301 funcionários entre ativos e afastados. O número exato de demissões não foi divulgado. A administradora judicial Recupere tem 60 dias para apresentar um plano de venda dos ativos e 40 dias para entregar um relatório sobre as causas da quebra e as responsabilidades dos envolvidos. Um leiloeiro ainda será indicado para conduzir a alienação dos bens.

A Três Irmãos, fabricante de móveis que operava há mais de cinco décadas em Santa Catarina, teve sua falência decretada pela Justiça na segunda-feira. O juiz assinou a sentença ordenando o lacre imediato da fábrica matriz em Campo Alegre e da unidade em Caçador, além da apreensão de todos os bens e documentos da empresa. A decisão encerra uma trajetória que começou em 1971 como uma pequena marcenaria familiar e evoluiu para uma operação que chegou a processar 15 mil toneladas de madeira por mês e empregar cerca de 500 pessoas.

A empresa estava paralisada desde maio deste ano, segundo consta na sentença. O juiz fundamentou a falência em uma série de descumprimentos: a Três Irmãos não honrou as obrigações assumidas no plano de recuperação judicial iniciado em 2024, deixou de pagar credores com saldos em aberto de aproximadamente R$ 210 mil e 175 mil euros, não comprovou o destino de R$ 3,25 milhões obtidos com a venda de ativos, cancelou três parcelamentos de ICMS por atraso de cotas e acumulou inadimplências com a Receita Federal. O documento judicial também aponta um "esvaziamento patrimonial": máquinas de grande porte foram retiradas da sede sem autorização, e a matriz foi deixada em situação de abandono.

A dívida total da empresa foi estimada em aproximadamente R$ 133 milhões, embora esse valor possa ser reavaliado. A administradora judicial responsável, a Recupere, recebeu ordem para inventariar, avaliar e vender os bens. Um leiloeiro ainda será indicado para conduzir o processo. A empresa tem cinco dias para apresentar uma relação de credores em formato eletrônico; caso não cumpra, será usada a lista já elaborada pela administração. Os credores terão 15 dias para contestar os valores, o que pode alterar o montante final da dívida.

A crise que levou a Três Irmãos ao colapso começou em 2021, quando a pandemia desorganizou a logística internacional. O custo do transporte marítimo de um contêiner disparou para cerca de dez mil dólares, sete vezes acima do patamar pré-pandemia. A falta de contêineres, atrasos nos portos e escassez de matérias-primas elevaram os custos de produção e tornaram impossível atender aos pedidos de exportação. A empresa, que havia feito sua primeira grande exportação para a IKEA em 2009 e expandido com uma unidade em Caçador em 2016, viu-se forçada a suspender temporariamente a produção.

Entre o final de 2022 e 2023, o cenário piorou. As exportações de móveis de Santa Catarina caíram 27,7% em 2023 comparado ao ano anterior, enquanto os juros subiram significativamente. Os preços da madeira, MDF, ferragens, colas, vernizes, energia, combustíveis e transportes aumentaram, comprimindo as margens e a competitividade. A combinação desses fatores destruiu a capacidade da empresa de gerar receita suficiente para pagar suas obrigações, levando ao pedido de recuperação judicial em 2024.

Até abril deste ano, a Três Irmãos tinha cerca de 301 funcionários entre ativos e afastados, considerando a matriz em Campo Alegre e a unidade em Caçador. O número exato de desligamentos não foi divulgado. A empresa havia inaugurado um parque industrial de mais de 16 mil metros quadrados em São Bento do Sul em 2020, mas fechou a unidade em maio de 2023.

Os próximos passos envolvem ações rápidas. Um mandado será expedido com urgência para lacrar os estabelecimentos e preservar os bens. Oficiais de justiça acompanhados pela administração judicial realizarão buscas para rastrear possíveis ativos, como imóveis e equipamentos, que serão bloqueados. A Recupere tem 60 dias após assumir formalmente a função na falência para apresentar um plano detalhado de realização dos ativos, com estimativa de tempo não superior a 180 dias. Também deve entregar, em até 40 dias, um relatório apontando as causas da quebra e as responsabilidades civil e penal dos envolvidos. A venda dos bens será conduzida por um leiloeiro ainda a ser indicado.

O transporte marítimo de um contêiner chegou a custar cerca de US$ 10 mil, valor sete vezes superior ao registrado antes da pandemia
— Plano de recuperação judicial da Três Irmãos
As exportações de móveis de Santa Catarina caíram 27,7% em 2023, na comparação com o mesmo período de 2022
— Dados citados no plano de recuperação judicial
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