Testosterona como solução para libido em queda: moda, lucro ou transformação real?

Pacientes relatam efeitos colaterais significativos incluindo raiva intensa, excitação sexual descontrolada e alterações físicas; alguns descontinuam tratamento após impacto negativo na qualidade de vida.
Testosterona não é uma solução mágica; é como colocar um motor de Ferrari em um carro velho.
Alan Reeves, que usa testosterona há sete anos, adverte sobre expectativas irrealistas sobre o tratamento.
Mark

Por que você acha que a testosterona se tornou tão popular agora, especificamente nos últimos anos?

Mimi

Porque temos uma combinação perfeita: uma queda real na atividade sexual, clínicas privadas com muito a ganhar, e redes sociais amplificando histórias de transformação pessoal. As pessoas veem alguém dizendo que a testosterona salvou seu casamento e pensam que podem ser elas também.

Mark

Mas a testosterona realmente funciona, ou é principalmente placebo?

Mimi

Funciona para algumas pessoas, genuinamente. Alan Reeves e Melissa Green não estão mentindo sobre suas experiências. O problema é que funciona para alguns e não para muitos outros — e ninguém consegue prever quem se beneficiará antes de começar.

Mark

Então por que os médicos do NHS são tão cautelosos?

Mimi

Porque eles veem o quadro todo. Sabem que a baixa libido tem múltiplas causas — estresse, relacionamentos ruins, depressão, sedentarismo. Testosterona não resolve nenhuma dessas coisas. É mais fácil prescrever um hormônio do que conversar com um paciente sobre o que realmente está acontecendo em sua vida.

Mark

E as mulheres? Por que elas enfrentam uma situação diferente?

Mimi

Porque não existem tratamentos licenciados para mulheres no NHS. Tudo é "off-label", ou seja, usando medicamentos de forma não aprovada. E os efeitos colaterais — pelos faciais, acne, raiva intensa — são mais visíveis e perturbadores para muitas mulheres do que para homens.

Mark

Cheryl O'Malley parou de tomar. Ela se arrepende de ter começado?

Mimi

Não exatamente. Ela se arrepende dos efeitos colaterais, da raiva que sentiu. Mas ela aprendeu algo importante: seu corpo não precisava disso. Quando parou, voltou ao normal. Isso é valioso, mesmo que tenha custado tempo e dinheiro.

Mark

Qual é o risco real aqui?

Mimi

Que pessoas gastem dinheiro em algo que não precisam, sofram efeitos colaterais desnecessários, e percam a oportunidade de lidar com as causas reais de sua baixa libido. E que clínicas privadas lucrem com a insegurança e a esperança das pessoas.

  • Prescrições de testosterona cresceram 135% no Reino Unido entre 2021 e 2024
  • Frequência sexual caiu de cinco vezes por mês nos anos 1990 para três vezes em 2010
  • Clínicas privadas lucram com TRT enquanto NHS estabelece critérios mais rigorosos
  • Mulheres enfrentam efeitos colaterais significativos e falta de tratamentos licenciados

Frequência sexual no Reino Unido caiu de cinco vezes por mês nos anos 1990 para três vezes em 2010, com múltiplos fatores contribuindo além de hormônios. Clínicas privadas lucram com TRT como solução rápida, enquanto NHS estabelece critérios mais rigorosos; mulheres enfrentam falta de tratamentos licenciados e efeitos colaterais significativos.

Prescrições de testosterona crescem 135% no Reino Unido entre 2021-2024 em meio a declínio geral da atividade sexual. Especialistas alertam sobre promoção exagerada por clínicas privadas versus benefícios reais para pacientes.

Alan Reeves tinha 24 anos quando era membro do grupo de dançarinos The Dreamboys, aqueles rapazes que se despiam para multidões nos anos 1990. Ele era tão procurado que até apareceu no filme das Spice Girls. Mas aos 30 anos, algo mudou. Sua energia desapareceu. Sua libido evaporou. "Eu simplesmente não me sentia bem", diz ele agora, aos 52 anos, trabalhando como coach de fitness em Londres.

Por anos, Reeves e sua esposa ficavam sem sexo por três ou quatro meses seguidos. Ele não tinha interesse. Nenhum. Esse tipo de coisa quebra casamentos. Quando começou a fazer terapia de reposição de testosterona, tudo mudou. Ele diz que o tratamento o transformou de um "velho rabugento" em alguém que se sente como se tivesse voltado aos 20 anos. A sensação é "fenomenal". Mulheres também estão procurando testosterona. Rachel Mason, uma blogueira de 37 anos que escreve sobre menopausa, diz que o hormônio tem sido "incrível" para sua energia, concentração e desejo sexual. Melissa Green, aos 43 anos, afirma que a testosterona não só lhe devolveu "o entusiasmo pela vida" como também salvou seu casamento.

No Reino Unido, onde as estatísticas mostram uma redução geral do apetite sexual, as prescrições de testosterona cresceram 135% entre 2021 e 2024, segundo dados da NHS Business Authority compilados pela Care Quality Commission. O contexto é preocupante: em 2010, britânicos entre 16 e 44 anos relatavam fazer sexo em média três vezes por mês. Em 2000, eram quatro vezes. Na década de 1990, cinco vezes. A queda é real e consistente. Soazig Clifton, diretora acadêmica da Natsal, a pesquisa nacional de comportamento sexual realizada a cada dez anos com mais de 10 mil entrevistas, observa que "ao longo dos anos, notamos uma queda em todos os grupos demográficos". Mesmo quando analisam especificamente casais que vivem juntos — o grupo onde você esperaria mais sexo — a frequência diminuiu. Ninguém consegue apontar uma única razão. O mundo digital hiperconectado, os níveis de estresse mais altos, a obesidade crescente, o sedentarismo: tudo contribui. Ben Davis, clínico geral e terapeuta sexual, resume: "As pessoas têm tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. Há a tecnologia, obviamente, mas também há um aumento no estresse, na depressão, na solidão. Tudo isso contribui para a redução do desejo sexual."

Os níveis de testosterona nos homens estão definitivamente diminuindo, diz Geoffrey Hackett, urologista consultor e membro da Sociedade Britânica de Medicina Sexual. A obesidade, o diabetes tipo 2, as vidas sedentárias — tudo reduz testosterona. Mas Hackett ressalva que o quadro é complexo: ter baixa testosterona aumenta a probabilidade de baixa libido, mas nem todos com níveis baixos terão desejo sexual reduzido. Apesar dessa complexidade, estações de metrô e redes sociais estão repletas de anúncios: "Baixa libido? Confusão mental? Cansado? Hora de verificar seus níveis de testosterona!"

Aqui está o problema. Clínicas privadas estão lucrando com a venda de TRT como solução rápida para um problema complexo. Paula Briggs, consultora do NHS em saúde sexual e reprodutiva, chama isso de "mina de ouro", onde muitas pessoas pagam muito dinheiro por algo de que não precisam. "Está fora de controle", diz ela. "A indústria do bem-estar criou essa lacuna no mercado que está usando a seu favor. É abusivo." As clínicas privadas, porém, argumentam que estão preenchendo um vazio deixado pelo NHS. Jeff Foster, diretor médico da Voy, uma clínica especializada em saúde masculina, afirma que o NHS não está preparado para diagnosticar ou tratar os milhares de homens que podem ter baixa testosterona. Michael Kocsis, que oferece TRT pela empresa Balance My Hormones desde 2016, diz que alguns pacientes foram informados pelo NHS de que não tinham níveis baixos, mas ainda assim buscam tratamento particular. "Só porque o nível de testosterona deles pode estar um pouco acima do limite estabelecido pelo NHS, não significa que a TRT não possa ajudá-los", diz ele.

Mas nem tudo é transformador. Cheryl O'Malley fez TRT por um ano. Embora tenha recuperado parte da energia perdida durante a menopausa, o hormônio aumentou demais seu desejo sexual e a deixou com sentimentos intensos de raiva. "Eu estava muito excitada. Queria fazer sexo com meu marido, mas ao mesmo tempo o odiava. É aí que você percebe que não está bem, que não sou eu, que me sinto fora de controle." Ela parou de tomar. Os efeitos colaterais para mulheres incluem crescimento excessivo de pelos, acne e ganho de peso — geralmente reversíveis com redução de dosagem. Para homens, podem incluir ganho de peso, ereções dolorosas, calvície, alterações de humor e diminuição da produção de espermatozoides, afetando fertilidade. Rachel Mason tem uma "parte particularmente mais peluda" no pulso onde aplica seu gel diariamente, mas diz que os benefícios valem a pena. Muitas mulheres, porém, têm medo de começar porque temem se tornar masculinas.

Ben Davis alerta que a TRT pode ter um efeito placebo, levando pacientes a tomar medicamentos dos quais não precisam. Paula Briggs observa um aumento significativo no número de pacientes que lhe dizem precisar de testosterona porque se sentem deprimidos e sem vontade de fazer sexo — frequentemente porque viram o impacto transformador que o hormônio teve na vida de alguém nas redes sociais. "Só porque funciona para uma celebridade não significa que funcione para a população em geral." Ela relata que médicos clínicos gerais em sua área estão inundados de pedidos de exames de testosterona, e muitos pacientes saem com receita apenas para voltar meses depois dizendo que notaram pouco impacto. As evidências clínicas, até agora, sugerem que TRT é eficaz apenas para mulheres pós-menopáusicas com baixa libido.

Alan Reeves, que faz TRT há sete anos, afirma que sua vida melhorou drasticamente. Mas ele acredita que testosterona "não é uma solução mágica" e que não faz sentido tomá-la sem fazer outras mudanças no estilo de vida. Caso contrário, é como colocar um motor de Ferrari em um carro velho. "Eu ando com uma postura melhor agora, isso se deve em parte à testosterona, em parte a mim." Ben Davis concorda: existem muitos fatores que contribuem para baixa libido — o relacionamento com o parceiro, a forma como se veem, o que os excita — e testosterona não é a única resposta. Para alguns, a medicação pode ser realmente transformadora. Para outros, é um gasto desnecessário com efeitos colaterais que não compensam.

Está fora de controle. A indústria do bem-estar criou essa lacuna no mercado que está usando a seu favor. É abusivo.
— Paula Briggs, consultora do NHS em saúde sexual e reprodutiva
Só porque funciona para uma celebridade não significa que funcione para a população em geral.
— Paula Briggs
Quieres la nota completa? Lee el original en A Gazeta ↗
Contáctanos FAQ