Próxima à Faria Lima, cronista prefere observar jovens a se importar com eclipse

Meu desprezo, óbvio, é uma forma de paixão
A cronista reflete sobre sua obsessão em observar o comportamento dos jovens à sua volta.
Mark

Por que você não consegue se importar com o eclipse?

Mimi

Porque só me interesso pelo que me perturba. E o eclipse não me perturba. Os jovens ao meu lado, sim.

Mark

O que você vê neles que a assusta tanto?

Mimi

Vejo minha filha em dez anos. Vejo a possibilidade de eu virar aquela tia que teme pelo futuro alheio. Vejo comportamentos que não consigo classificar como certos ou errados.

Mark

Você acha que eles estão fazendo algo errado?

Mimi

Não sei. Eles planejam beber até o coma, levar drogas, assediar. Mas falam disso como se fosse natural, como se fosse um teste do TikTok. Talvez seja apenas a forma deles de estar no mundo.

Mark

E você, como está no mundo?

Mimi

Observando. Sempre observando. Finjo comer minha moqueca vegana, mas estou presa neles. O outro é a coisa que mais venero e mais temo.

Mark

Você os julga?

Mimi

Meu desprezo é uma forma de paixão. Não consigo não julgá-los. Mas também não consigo parar de olhar.

  • Um grupo de jovens profissionais planeja comparecer ao casamento de uma colega ausente com drogas, bebedeira extrema e convidados não autorizados — sem qualquer sinal de culpa.
  • A noiva Priscila não sabe que seus próprios colegas consideram seu futuro marido cafona, falido em potencial e possivelmente narcisista — informações que circulam livremente entre risos.
  • A narradora se descobre menos incomodada com os excessos do que com o próprio incômodo: percebe que está se tornando a tia ansiosa que projeta medos maternos em estranhos.
  • No canto da mesa, um colega esquecido implora que não morram antes do seu aniversário no domingo — e ninguém responde.
  • O eclipse solar, evento astronômico raro, passa completamente despercebido — relegado a um 'mandem fotos' irônico enquanto o drama humano ao lado consome toda a atenção disponível.

Numa tarde comum próxima à Faria Lima, uma escritora sentada sozinha se vê absorvida não pelo eclipse solar que atravessa o céu, mas pela mesa ao lado — onde jovens colegas de trabalho planejam um casamento com excessos e indiferenças que a perturbam e fascinam em igual medida. O que começa como observação casual se transforma em espelho: ela reconhece em si mesma o surgimento daquela figura que teme o futuro alheio mais do que o próprio. O eclipse passa. O humano, sempre, fica.

Ela não escolheu aquela mesa perto da Faria Lima — saiu de uma gravação com fome e acabou ali. O eclipse solar andava acontecendo por esses dias, mas ela confessa sem culpa: só se interessa pelo que a perturba. E o que a perturba está sentado bem ao lado.

O grupo conversa animado sobre o casamento de Priscila, que está de férias e não ouve o que seus colegas realmente pensam. Eles planejam beber até precisar de socorro médico, levar drogas e pessoas não convidadas. Acham o noivo cafona e sem futuro — sua startup vai à falência porque ele deixa tudo nas mãos de um sócio que vive viajando. Uma tal Laura, ex dele, anda dizendo para todo mundo que ele é narcisista. A narradora pondera: problema psicológico real ou apenas diagnóstico de TikTok? De qualquer forma, eles riem como se fosse o mais natural do mundo.

Ela os observa com atenção cirúrgica — o sotaque, as roupas de alfaiataria, o cabelo com mensagem progressista, os braços que procuram um smartwatch nas costas das amigas. Quando o rapaz anuncia que só vai parar no casamento ao entrar em coma alcoólico, uma colega promete levar coisas mais divertidas. Riem juntos de uma piada sobre 'doguinhas' — e ela fica satisfeita por ter pegado a referência.

Na ponta da mesa, um rapaz escanteado implora: 'Se vocês não morrerem, domingo é meu aniversário'. Silêncio.

E então vem o golpe real: em pouco mais de dez anos, sua filha terá a idade deles. Ela se pergunta se já virou aquela tia que, ao ver jovens, não pensa mais em si mesma, mas nas mães que devem sofrer por eles. Os medos se multiplicam — não apenas os ligados à integridade física, mas os menores e igualmente assustadores: e se sua filha falar assim, trabalhar assim, comer hot dog gourmet assim?

Ela finge atenção à moqueca vegana, mas sabe que está completamente tomada. O outro — em qualquer forma, em qualquer mesa — é o que ela mais venera, teme e não consegue ignorar. O desprezo, reconhece, é apenas uma forma de paixão. Lá longe, o eclipse continua seu curso. Legal. Mandem fotos.

Estou sentada numa mesa próxima à Faria Lima, e não escolhi estar aqui. Saí de uma gravação e precisava comer algo. O eclipse solar passou por esses dias — eu gostaria de me importar com isso, de verdade. Adoro que o Sol exista, mas só me interesso pelo que me perturba. Como uso filtro solar, boné e óculos escuros, estou em paz com o astro.

Na mesa ao lado, um grupo de colegas de trabalho conversa com animação sobre um casamento que vai acontecer no próximo sábado. A noiva é Priscila, que está de férias e, portanto, não está ali para ouvir o que seus colegas realmente pensam. Eles planejam beber como camelos sedentos, parar só quando precisarem de ajuda médica, levar drogas e pessoas não convidadas. Também não sabe que acham seu futuro marido cafona, alguém sem futuro que vai falir em breve sua startup porque deixa tudo nas mãos do sócio — e o sócio está sempre viajando. Há ainda o detalhe de que ele saía com uma tal Laura, que anda contando para todo mundo que ele é um narcisista de primeira.

Fico pensando se estamos falando de um problema psicológico real ou apenas de um teste do TikTok. Se o rapaz realmente tem problemas graves de desenvolvimento, temos uma situação complicada. Mas se está apenas regredido por decepções e traumas e vai se casar agora, também não é legal. De qualquer forma, eles riem disso tudo como se fosse o mais natural do mundo.

Estou completamente tomada pelo sotaque deles — anasalado, enfrescalhado, enriquecido com ferro, ácido fólico e férias na Europa desde os dois anos de idade. O rapaz tem 27 anos, cabelo com atitude progressista (laterais mais baixas, topo com volume), veste camisa e calça bege de alfaiataria. Está com as mãos enfiadas nas costas das amigas, procurando um smartwatch que não encontra. Seu cabelo manda uma mensagem, suas roupas mandam outra. Seus braços, porém, são diretos — Laura diria para todo mundo que ele é um assediador.

Ele conta que está no veneno e que no casamento só vai parar quando entrar em coma alcoólico. Uma menina à sua frente pede para ele não queimar a largada: vai levar coisas mais divertidas. Riem juntos: "Suas irmãs ou doguinhas? Não que elas não sejam cachorras". Fico feliz porque peguei a referência — doguinhas são drogas.

Há um rapaz escanteado na ponta da mesa, claramente o colega que chamaram por educação. Implora por amor: "Se vocês não morrerem, domingo é meu aniversário!". Ninguém responde.

Meu Deus. Em pouco mais de dez anos minha filha terá a idade deles. Virei aquela tia que ao ver jovens não pensa mais em si, mas em como devem sofrer suas mães? Para além do maior dos temores — ligados à integridade física dos nossos filhos — existem tantos outros. E se minha filha falar como eles, trabalhar no que eles trabalham, comer hot dog gourmet como eles comem?

Estou completamente tomada pelos jovens, assim como estaria se fosse uma mesa com idosos em silêncio ou divorciadas embriagadas pelo futuro. Finjo estar atenta à minha moqueca vegana, mas estou intrigada pelo comportamento humano. O outro é a coisa que mais venero, idolatro, temo. Meu desprezo é uma forma de paixão. Sou tragada por cada gesto, cada lampejo de inteligência, cada imbecilidade. Daí tem também um negócio chamado eclipse solar que, de vez em quando, rola lá longe. Legal. Mandem fotos.

Só me interesso pelo que me perturba
— A cronista
O outro é a coisa que eu mais venero, idolatro, temo
— A cronista
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