Por que homens ignoram sinais de varizes e só procuram médico por insistência

Doença venosa não tratada pode evoluir para úlceras venosas e limitações funcionais significativas nas atividades diárias.
Quanto mais cedo o problema for identificado, maiores são as chances de tratá-lo com intervenções simples
A cirurgiã vascular resume por que a detecção precoce de varizes muda completamente o prognóstico e as opções de tratamento.
Mark

Por que você acha que homens especificamente têm tanta dificuldade em reconhecer varizes como um problema de saúde?

Mimi

Acho que é uma combinação de fatores. Primeiro, não há dor. A medicina moderna treinou a gente a associar doença com sofrimento. Se não dói, não é problema. Segundo, para homens que malham, veias aparentes viram um sinal de sucesso, não de alerta.

Mark

Mas a médica diz que 90% chegam por insistência de companheiras. Isso não é um número surpreendente?

Mimi

Surpreendente, mas revelador. Mostra que o problema não é falta de informação — é falta de percepção do próprio corpo. Mulheres, historicamente, são mais atentas a mudanças na pele e na aparência. Homens não têm esse hábito de observação.

Mark

E quanto ao exercício físico? Ele realmente mascara os sintomas?

Mimi

Mascara e muito bem. Uma panturrilha forte bombeia sangue de volta para o coração. Então um homem ativo pode ter varizes progressivas e nunca sentir cansaço nas pernas. Até o dia em que envelhece um pouco, ganha peso, reduz o treino — aí o silêncio vira grito.

Mark

Qual é o maior medo que você vê nos pacientes?

Mimi

Cirurgia. Eles imaginam aquelas operações antigas, com cicatrizes enormes, semanas de recuperação. Ninguém quer isso. Mas as técnicas mudaram tanto que muitos casos resolvem em consultório, com anestesia local, e o cara volta para casa no mesmo dia.

Mark

Se a detecção precoce é tão importante, por que não há mais campanhas de conscientização?

Mimi

Boa pergunta. Acho que porque varizes não matam. Não são emergência. Mas destroem qualidade de vida silenciosamente — e podem evoluir para úlceras, infecções. O sistema de saúde não prioriza o que não grita.

  • Nove em cada dez homens só buscam avaliação vascular após pressão de alguém próximo, revelando uma resistência cultural profunda ao autocuidado.
  • A confusão entre veias saltadas pelo exercício e varizes reais cria uma falsa sensação de saúde que adia diagnósticos importantes.
  • O fortalecimento muscular mascara sintomas clássicos, dando ao homem ativo a ilusão de que está protegido — até que o corpo começa a cobrar a conta.
  • Sem tratamento, a doença venosa pode evoluir para úlceras e limitações funcionais que comprometem atividades simples do dia a dia.
  • Técnicas ambulatoriais modernas com anestesia local e recuperação rápida tornam o medo de cirurgia um obstáculo ultrapassado — mas ainda presente no imaginário masculino.

Há uma lacuna silenciosa entre o que o corpo mostra e o que o homem escolhe ver: veias dilatadas são confundidas com sinal de saúde, e a ausência de dor é interpretada como ausência de problema. A cirurgiã vascular Dra. Aline Lamaita observa que cerca de 90% dos homens que chegam ao seu consultório foram trazidos pela insistência de uma companheira — não pela própria percepção de risco. A doença venosa, quando ignorada, avança em silêncio até impor limitações concretas à vida cotidiana, e o paradoxo é que os tratamentos modernos tornaram a intervenção precoce mais simples do que nunca.

Um homem sai da academia, olha para as próprias pernas e vê veias saltadas. Interpreta como sinal de forma física. Meses depois, as veias permanecem — tortuosas, dilatadas, mesmo em repouso — e ele continua sem sentir dor. Só vai ao médico quando a companheira insiste.

Esse é o padrão que a cirurgiã vascular Dra. Aline Lamaita, integrante da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular, repete ver em seu consultório: aproximadamente 90% dos pacientes homens chegam por insistência de terceiros. "Por eles, não há nada para tratar", resume a especialista.

A confusão tem raiz compreensível: veias mais visíveis são mesmo uma consequência natural do exercício e da redução de gordura. Mas uma veia que permanece dilatada e tortuosa em repouso — especialmente acompanhada de inchaço, manchas nos tornozelos, coceira ou endurecimento da pele — é outra história. Homens que praticam musculação podem não sentir os sintomas clássicos porque o fortalecimento da panturrilha favorece o retorno venoso, criando uma ilusão de segurança. O exercício, porém, não cura varizes.

Com o tempo, o quadro silencioso se transforma: peso e cansaço nas pernas, dificuldade para ficar em pé, desconforto em viagens. Em estágios avançados, surgem alterações na pele e úlceras venosas — cenários que a detecção precoce poderia evitar.

O medo de cirurgias complexas também contribui para o adiamento. Mas esse cenário mudou: hoje, muitos casos são tratados com procedimentos minimamente invasivos, em ambiente ambulatorial, sob anestesia local e com retorno rápido às atividades. Quanto mais cedo o problema é identificado, mais simples é a solução. O desafio continua sendo convencer o homem a procurar ajuda antes que alguém precise insistir.

Um homem olha para as próprias pernas após o treino na academia e vê veias saltadas, definidas, pulsantes sob a pele. Pensa: isso é sinal de que está ficando em forma. Continua a vida. Meses depois, as veias continuam ali, mesmo quando não está exercitando. Começam a formar padrões tortuosos, dilatados. Ele não sente dor, então ignora. Até que sua companheira insiste: "Você deveria ver um médico com isso."

Este é o padrão que a cirurgiã vascular Dra. Aline Lamaita observa repetidamente em seu consultório. Segundo ela, aproximadamente 90% dos homens que a procuram chegam lá por insistência de alguém próximo — geralmente uma parceira. "Por eles, não há nada para tratar", resume a especialista, que integra a Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular.

O problema começa com uma confusão compreensível. Veias mais visíveis são realmente uma consequência natural do exercício físico, do aumento de massa muscular e da redução de gordura corporal. Mas nem toda veia aparente é uma variz. A distinção importa: uma veia que fica mais evidente durante o treino é uma coisa; uma veia que permanece dilatada e tortuosa, mesmo em repouso, é outra. Quando essa segunda situação vem acompanhada de outros sinais — inchaço recorrente, manchas próximas aos tornozelos, coceira, descamação ou endurecimento da pele — o alerta deve soar.

O silêncio da doença nos estágios iniciais alimenta a negligência. Homens ativos, particularmente aqueles que praticam musculação, podem não sentir os sintomas clássicos porque o fortalecimento da panturrilha favorece o retorno do sangue das pernas. Isso cria uma ilusão de segurança. O exercício não cura varizes, porém, nem impede que a doença evolua. Com o tempo — com o envelhecimento, ganho de peso ou redução da atividade física — aquele quadro silencioso pode se transformar. O homem que nunca sentiu nada começa a notar peso e cansaço nas pernas, dificuldade para ficar em pé por longos períodos, desconforto em viagens. A vida cotidiana passa a ser limitada.

Em estágios avançados, a doença venosa não tratada pode provocar alterações significativas na pele e favorecer o surgimento de úlceras venosas, geralmente localizadas próximas aos tornozelos. Esses são os cenários que a detecção precoce poderia evitar.

Outro obstáculo é o medo. Muitos homens adiam a consulta porque imaginam uma cirurgia complexa, com internação hospitalar, grandes incisões e um longo período de recuperação. Esse cenário, porém, mudou. As técnicas evoluíram significativamente. Hoje, muitos casos de varizes podem ser tratados com procedimentos minimamente invasivos, realizados em ambiente ambulatorial, sob anestesia local, com recuperação rápida e possibilidade de retomar as atividades rotineiras imediatamente após o procedimento. Dra. Aline, que é mestre em Ciências pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e especialista em Cirurgia Vascular, trabalha com esses tratamentos modernos.

A conclusão é simples: quanto mais cedo o problema for identificado, maiores são as chances de tratá-lo com intervenções simples e menos invasivas. O desafio, porém, permanece sendo convencer homens a procurar ajuda antes que a doença se torne sintomática — antes que alguém precise insistir.

É muito comum que os pacientes homens só cheguem ao consultório do cirurgião vascular por insistência das companheiras. Cerca de 90% dos homens que atendo chegam por esse motivo.
— Dra. Aline Lamaita, cirurgiã vascular
Uma coisa é a veia ficar mais aparente durante o exercício. Outra é permanecer dilatada e tortuosa, ainda mais quando acompanhada de outros sinais.
— Dra. Aline Lamaita
Want the full story? Read the original at UOL ↗
Contact Us FAQ