Pfizer contradiz Pazuello sobre oferta de doses da vacina ao Brasil

Isenção eterna de responsabilidade por efeitos colaterais
A cláusula mais polêmica do contrato que Pazuello disse não poder aceitar.
Mark

Por que o ministro Pazuello minimizou tanto a oferta da Pfizer? Ele disse nove milhões quando a empresa oferecia 70 milhões.

Mimi

Talvez porque os 70 milhões não eram para o primeiro semestre. A Pfizer não deixou claro quantas doses daquele total chegaria até junho. Se a maioria viesse depois, o número grande não resolvia o problema imediato.

Mark

Mas por que não mencionar os 70 milhões, mesmo que a entrega fosse lenta?

Mimi

Porque números grandes sem cronograma são promessas vazias. Pazuello estava tentando mostrar que a Pfizer não tinha o que o Brasil precisava agora. Era uma questão de política, não só de matemática.

Mark

E as cláusulas contratuais? Eram realmente um obstáculo real ou uma desculpa?

Mimi

Eram reais. Isenção eterna de responsabilidade é pesada para qualquer governo aceitar. Mas a Pfizer tinha precedentes — 12 países já tinham assinado nos mesmos termos.

Mark

Então por que o Brasil não fez o mesmo?

Mimi

Porque cada país tem seu próprio cálculo político. Pazuello estava em uma posição frágil. Aceitar aquelas cláusulas teria sido impopular. Recusá-las significava não ter vacinas.

  • A Pfizer contradisse publicamente o ministro Pazuello ao afirmar que ofereceu 70 milhões de doses ao Brasil — não 9 milhões como ele declarou —, com entregas previstas já a partir de dezembro de 2020.
  • A discrepância no cronograma das negociações também é grave: enquanto Pazuello falou em três meses de contato, a Pfizer registra tratativas desde junho de 2020, com proposta formal enviada em agosto.
  • O verdadeiro impasse reside nas cláusulas contratuais: a Pfizer exige isenção total e permanente de responsabilidade por efeitos colaterais, além de não fornecer o diluente necessário para aplicação da vacina.
  • A farmacêutica argumenta que os mesmos termos foram aceitos por países como EUA, Israel, Japão, Reino Unido e União Europeia, sinalizando pouca disposição para abrir exceções ao Brasil.
  • Com novas reuniões anunciadas e nenhuma concessão à vista, o Brasil permanecia sem contrato assinado enquanto a pandemia avançava e o tempo para vacinação em massa se estreitava.

No limiar de 2021, enquanto o Brasil aguardava vacinas contra a covid-19, uma disputa de números e cronologias emergiu entre o Ministério da Saúde e a Pfizer, revelando algo mais profundo do que uma simples divergência administrativa. O ministro Pazuello descreveu uma oferta modesta e tardia; a farmacêutica apresentou registros de uma proposta muito maior, feita meses antes. Nesse confronto de versões, o que estava em jogo não era apenas a memória dos fatos, mas a responsabilidade histórica por cada dose que não chegou a tempo.

No início de janeiro de 2021, o ministro da Saúde Eduardo Pazuello declarou publicamente que a Pfizer havia oferecido ao Brasil apenas nove milhões de doses de vacina contra a covid-19, com as primeiras 500 mil chegando em janeiro. A farmacêutica respondeu com uma nota direta e contundente: a oferta real havia sido de 70 milhões de doses, com entregas previstas desde dezembro de 2020.

A divergência sobre os números veio acompanhada de outra, igualmente relevante: Pazuello situou o início das conversas três meses antes de sua fala, mas a Pfizer informou que as negociações começaram em junho de 2020, com a primeira proposta formal enviada em 15 de agosto. Essa diferença de cronologia sugeria que o Brasil havia tido mais tempo para negociar do que o ministro admitiu.

No centro do impasse estavam as cláusulas contratuais. A Pfizer exigia isenção eterna e irrestrita de responsabilidade por eventuais efeitos colaterais, além de transferir ao Brasil a obrigação de fornecer o diluente necessário para aplicação da vacina. Pazuello afirmou que o governo não poderia assinar um contrato nessas condições e pediu adequações à realidade brasileira.

A empresa rebateu citando uma lista de países que aceitaram os mesmos termos — entre eles Estados Unidos, Israel, Japão, Reino Unido, Canadá e a União Europeia — e reafirmou disposição para negociar, sem sinalizar, contudo, qualquer flexibilidade real. Com novas reuniões prometidas e nenhum acordo fechado, o Brasil seguia sem vacinas garantidas enquanto a pandemia não dava trégua.

No início de janeiro de 2021, uma disputa pública sobre números eclodiu entre o Ministério da Saúde e a Pfizer. O general Eduardo Pazuello, então ministro da Saúde, havia declarado que a farmacêutica oferecera ao Brasil apenas nove milhões de doses de vacina contra covid-19, com as primeiras 500 mil chegando em janeiro. A Pfizer respondeu com uma nota que contradisse frontalmente essas afirmações.

Segundo a empresa, ela havia oferecido 70 milhões de doses ao governo brasileiro, com entregas previstas a partir de dezembro de 2020 — não janeiro, como Pazuello havia dito. A discrepância nos números era gritante. O ministro havia descrito o cronograma da Pfizer como insuficiente: 500 mil doses em janeiro, 500 mil em fevereiro, dois milhões em março, e dois milhões em cada um dos meses seguintes até junho. Pazuello havia questionado publicamente se essa quantidade resolveria o problema do Brasil, observando que o total do primeiro semestre vacinaria apenas metade da população do Rio de Janeiro.

Mas havia também uma discrepância sobre quando as conversas haviam começado. Pazuello afirmou que o Ministério da Saúde havia sido procurado três meses antes de sua declaração. A Pfizer, porém, informou que as negociações iniciaram em junho de 2020, com a primeira proposta formal enviada em 15 de agosto daquele ano. Essa diferença de cronologia importava porque sugeria que o Brasil havia tido mais tempo para negociar do que o ministro havia reconhecido publicamente.

O cerne da disputa, contudo, não era apenas quantidade. Pazuello apontou cláusulas contratuais que, segundo ele, tornavam impossível a compra. A Pfizer exigia isenção eterna e completa de responsabilidade por qualquer efeito colateral resultante da vacinação. Além disso, a empresa não forneceria o diluente necessário para aplicar a vacina — essa responsabilidade recairia sobre o Brasil. O ministro havia dito que o governo não poderia assinar um contrato nessas condições e pediu que a Pfizer amenizasse essas exigências para adequá-las à realidade brasileira.

A Pfizer respondeu que suas cláusulas estavam alinhadas com acordos fechados em outros países. A empresa listou uma série de nações que haviam aceitado os mesmos termos: Estados Unidos, Japão, Israel, Canadá, Reino Unido, Austrália, México, Equador, Chile, Costa Rica, Colômbia e Panamá, além da União Europeia. Segundo a Pfizer, todos esses países haviam garantido quantidades de doses por meio de acordos que incluíam as mesmas cláusulas apresentadas ao Brasil. A empresa reafirmou sua disposição em negociar um acordo que beneficiasse os brasileiros, mas não sinalizou flexibilidade quanto aos termos contratuais.

O impasse revelava uma tensão fundamental: de um lado, um ministério que buscava proteger o Brasil de responsabilidades legais ilimitadas e garantir acesso a insumos essenciais; do outro, uma multinacional que operava sob um modelo contratual padronizado globalmente e não estava disposta a fazer exceções. Pazuello havia anunciado que novas reuniões ocorreriam nos dias seguintes, mas a questão de quem cederia — e em quais pontos — permanecia em aberto.

O que nós queremos da Pfizer é que ela nos dê o tratamento compatível com o nosso país, que amenize essas cláusulas. Não podemos assinar desta forma.
— General Eduardo Pazuello, ministro da Saúde
As cláusulas apresentadas ao governo brasileiro estão em linha com os acordos fechados em outros países do mundo, inclusive na América Latina.
— Pfizer, em nota oficial
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