Multas por excesso de velocidade crescem 32% em São Paulo nos primeiros meses de 2026

Oitenta e oito por cento das multas envolvem pequenos excessos
A maioria dos motoristas flagrados não estava muito acima do limite permitido nas vias de São Paulo.
Mark

Por que o crescimento de multas é tão expressivo? Trinta e dois por cento em apenas cinco meses parece muito.

Mimi

Há dois fatores principais. Primeiro, mais gente está usando carro individual em vez de transporte público. Segundo, a distração — especialmente pelo celular — está fazendo motoristas cometerem infrações que antes talvez não cometessem.

Luke

Mas espera. A CET diz que a quantidade de radares é praticamente a mesma desde dois mil e quatorze. Então o aumento não é por mais fiscalização?

Mimi

Não, é por mais infrações sendo cometidas. Os radares estão no mesmo lugar, mas mais motoristas estão passando por eles acima do limite.

Mark

E por que os domingos têm tantas multas? Vinte por cento do total em um único dia da semana?

Mimi

Provavelmente porque as pessoas estão mais relaxadas, menos atentas. E também porque o trânsito flui melhor nos fins de semana, então as pessoas aceleram mais.

Luke

Mas isso é especulação, certo? O dado é só que domingos têm mais multas. Não sabemos exatamente por quê.

Mimi

Verdade. O que sabemos é o padrão. O porquê é interpretação.

Mark

E a maioria das multas é por pequenos excessos — até vinte por cento acima do limite. Isso muda como a gente pensa sobre o problema?

Mimi

Muda bastante. Não é que temos motoristas loucos acelerando descontroladamente. É gente um pouco acima do limite, provavelmente sem perceber.

Luke

Ou percebendo, mas achando que é aceitável. Oitenta e oito por cento das infrações em uma categoria só sugere que muita gente está fazendo a mesma coisa.

Mark

Então é um problema de cultura de trânsito, não de fiscalização?

Mimi

Parece ser. A fiscalização está lá há anos. O que mudou foi o comportamento das pessoas.

  • Em apenas cinco meses, São Paulo acumulou mais de 1,37 milhão de multas por velocidade — um salto que não pode ser explicado apenas por fiscalização mais intensa.
  • A distração ao volante, especialmente pelo uso do celular, é apontada como o principal motor comportamental por trás do crescimento das infrações.
  • A dinâmica do trânsito paulistano agrava o problema: motoristas presos em congestionamentos tendem a acelerar nas vias livres, criando um ciclo de risco compensatório.
  • O aumento coincide com mais veículos nas ruas e menos passageiros no transporte público, ampliando a exposição de condutores às situações fiscalizadas.
  • Domingos e horários diurnos concentram a maior parte das autuações, sugerindo que o excesso de velocidade não é fenômeno da madrugada, mas do movimento ordinário da cidade.

São Paulo registrou 1,37 milhão de multas por excesso de velocidade nos primeiros cinco meses de 2026 — um crescimento de 32,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. O dado revela menos uma cidade de infratores temerários do que uma metrópole distraída: quase nove em cada dez autuações envolvem pequenos excessos, aqueles que escapam pela fresta da atenção fragmentada do cotidiano urbano. Por trás dos números, emergem questões mais profundas sobre como as cidades moldam o comportamento humano — e sobre o preço silencioso da pressa coletiva.

São Paulo registrou 1.377.415 multas por excesso de velocidade entre janeiro e maio de 2026, contra 1.039.207 no mesmo período de 2025 — um crescimento de 32,5% que chama atenção tanto pelo volume quanto pelo que revela sobre o perfil dos infratores. A esmagadora maioria, 88,48%, envolvia motoristas trafegando até 20% acima do limite permitido — a faixa de infração média, punida com quatro pontos na carteira e multa de R$ 130,16. Apenas 1,14% das autuações correspondiam a velocidades superiores a 50% do limite, categoria que implica suspensão imediata da habilitação.

Para o arquiteto e urbanista Flamínio Fichmann, assessor técnico do Instituto de Engenharia, a distração é o fator central. O uso do celular ao volante lidera as causas comportamentais, mas a própria lógica do trânsito paulistano contribui: motoristas que enfrentam congestionamentos tendem a compensar acelerando em trechos mais livres, criando situações de risco quase involuntárias.

O crescimento das multas também coincide com uma mudança no padrão de mobilidade da cidade. Fichmann aponta redução no uso do transporte público e aumento proporcional do transporte individual — mais veículos em circulação significam mais exposição às situações fiscalizadas. As avenidas Prestes Maia, Radial Leste, Jacu Pêssego e Olavo Fontoura figuram entre os locais com maior concentração de autuações pela CET.

Os dados de maio revelam padrões temporais claros: domingos concentram 20,8% das multas, seguidos por sábados (17,3%) e sextas-feiras (15,2%). Os finais de semana respondem por mais de um terço do total. Em relação aos horários, 61,2% das infrações ocorrem durante o dia — entre 6h e 18h —, desfazendo a imagem do excesso de velocidade como fenômeno noturno. A CET reafirmou que os radares apenas registram o comportamento dos condutores e que o número de pontos de fiscalização eletrônica permanece praticamente estável desde 2014.

São Paulo registrou um salto de 32,5% nas multas por excesso de velocidade durante os cinco primeiros meses de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior. O Observatório Mobilidade Segura, órgão da Prefeitura, contabilizou 1.377.415 infrações entre janeiro e maio deste ano, contra 1.039.207 no mesmo intervalo de 2025. O crescimento é significativo, mas a composição das multas revela um padrão que surpreende: a esmagadora maioria dos motoristas flagrados não estava muito acima do limite permitido. Oitenta e oito vírgula quarenta e oito por cento das infrações envolviam veículos trafegando até vinte por cento acima da velocidade máxima da via. Outros dez vírgula trinta e oito por cento foram registrados entre vinte e cinquenta por cento acima do permitido. Apenas um vírgula quatorze por cento das multas correspondiam a velocidades superiores a cinquenta por cento do limite — a categoria que resulta em suspensão imediata da habilitação além da multa gravíssima.

Para especialistas, a distração emerge como um dos principais culpados por trás do comportamento dos motoristas. Flamínio Fichmann, arquiteto e urbanista que atua como assessor técnico do Instituto de Engenharia, aponta que a pressão das obrigações cotidianas nas grandes cidades alimenta um estado de desatenção generalizado. Segundo ele, o uso de celular é o motivo principal dessa falta de atenção. Mas há outra dinâmica em jogo: quando motoristas enfrentam congestionamentos intensos em determinados trechos ou horários, frequentemente tentam compensar acelerando em vias mais livres. A própria estrutura do trânsito paulistano, portanto, pode estar incentivando comportamentos de risco.

O aumento nas autuações também coincide com mudanças na composição do transporte na cidade. Fichmann observa que há uma redução no uso de transporte público e um crescimento proporcional do transporte individual. Mais veículos circulando significa mais pessoas expostas às situações reguladas pelas leis de velocidade — e, consequentemente, mais oportunidades para infrações. A Avenida Prestes Maia, no Centro, a Radial Leste, a Avenida Jacu Pêssego na Zona Leste e a Avenida Olavo Fontoura na Zona Norte aparecem entre os locais com maior concentração de multas aplicadas pela CET, a Companhia de Engenharia de Tráfego.

Os dados de maio de 2026, o mês mais recente com registros disponíveis, mostram padrões claros de quando as infrações ocorrem. Domingos concentram a maior proporção de multas, com vinte vírgula oito por cento do total. Sábados vêm em seguida com dezessete vírgula três por cento, seguidos por sexta-feira com quinze vírgula dois por cento. Juntos, os finais de semana respondem por mais de um terço de todas as autuações. Quanto aos horários, a maior parte dos flagrantes acontece durante o dia: trinta vírgula nove por cento das multas foram registradas entre meio-dia e as dezoito horas, e outros trinta vírgula três por cento entre seis e onze horas e cinquenta e nove minutos. Essas duas faixas somam sessenta e um vírgula dois por cento das infrações. À noite, entre dezoito e vinte e três horas e cinquenta e nove minutos, foram registrados vinte vírgula quatro por cento. A madrugada, de zero a cinco horas e cinquenta e nove minutos, respondeu por dezoito vírgula quatro por cento.

O Código de Trânsito Brasileiro estabelece três categorias de penalidade. Trafegar até vinte por cento acima do limite é infração média: quatro pontos na carteira e multa de cento e trinta reais e dezesseis centavos. Entre vinte e cinquenta por cento acima do permitido, a infração é grave, com cinco pontos e multa de cento e noventa e cinco reais e vinte e três centavos. Ultrapassar cinquenta por cento da velocidade máxima é infração gravíssima, resultando em oitocentos e oitenta reais e quarenta e um centavos de multa — valor que inclui um fator multiplicador de três — além da suspensão imediata do direito de dirigir. A CET, em nota, afirmou que o volume de multas aplicadas reflete o comportamento dos condutores que desrespeitam as leis de trânsito. A companhia ressaltou que os radares apenas registram infrações e que São Paulo mantém praticamente a mesma quantidade de pontos de fiscalização eletrônica desde dois mil e quatorze.

As pessoas estão cada vez mais distraídas por uma série de motivos. Na conjuntura de quem mora nas grandes cidades, a pressão em função das suas obrigações, dos seus compromissos, está cada vez maior. Então existe um estresse em relação a isso, e as pessoas estão mais distraídas. E o motivo principal dessa distração, eu não tenho dúvida, é o uso de celular.
— Flamínio Fichmann, arquiteto e urbanista, assessor técnico do Instituto de Engenharia
Want the full story? Read the original at G1 ↗
Contact Us FAQ