Ministra do TSE defende autenticidade contra IA na política: 'Direito básico'

Queremos saber em que candidato estamos votando, não numa versão mais bonita dele
A ministra Estela Aranha explicou o cerne do debate sobre inteligência artificial nas eleições brasileiras.
Mark

Por que a ministra Aranha escolheu usar a palavra "direito básico" para falar de autenticidade? Parece uma escolha forte.

Mimi

Porque ela está dizendo que não é um luxo, não é uma preferência estética. É fundamental. Se você não sabe se está votando numa pessoa real ou numa versão artificial dela, você não consegue exercer o direito de voto de forma informada. É quase como votar com os olhos fechados.

Mark

Mas o avatar no vídeo avisa que é artificial. Não resolve isso?

Mimi

Tecnicamente sim, mas na prática? Quantas pessoas vão assistir até o final? Quantas vão compartilhar só o trecho onde o avatar fala bem de Flávio? O aviso é como aquele disclaimer em letra pequena. Protege legalmente, mas não protege a realidade da campanha.

Mark

A ministra disse que o julgamento terá "impacto muito grande". Impacto em quê, exatamente?

Mimi

Em como as campanhas vão funcionar daqui para frente. Se o TSE disser que é proibido, outras campanhas vão pensar duas vezes. Se disser que é permitido com avisos, abre a porta para uma onda de conteúdo artificial. É um precedente que vai definir as regras do jogo.

Mark

Drauzio Varella disse que já se sentiu idiota tentando diferenciar vídeos reais de falsos. Isso não deveria ser assustador para um juiz?

Mimi

Deveria. Se um médico famoso, alguém acostumado a lidar com informação técnica, não consegue distinguir, imagine o eleitor comum. É por isso que a ministra insiste que a responsabilidade tem que ser das plataformas, não do espectador.

  • O PT acionou o TSE questionando um vídeo em que um avatar de Bolsonaro declara Flávio seu sucessor e pede votos — conteúdo produzido com IA durante convenção oficial do partido.
  • A lei eleitoral já proíbe expressamente o uso de identidade real em conteúdos gerados por inteligência artificial, colocando a campanha de Flávio sob risco concreto de multa e restrições.
  • A defesa de Bolsonaro nega autorização para o vídeo, mas admite que o ex-presidente nunca se opôs ao uso de sua imagem pelos filhos — uma distinção jurídica que o tribunal terá de avaliar.
  • A ministra Aranha alertou que a campanha eleitoral permanente nas redes sociais exige que plataformas digitais cumpram a lei, rejeitando o argumento de que regulação equivale a censura.
  • O julgamento, ainda sem data definida após adiamento, promete estabelecer o precedente mais relevante do ciclo eleitoral sobre o uso de IA em campanhas brasileiras.

Num momento em que a fronteira entre o real e o fabricado se torna cada vez mais tênue, o Tribunal Superior Eleitoral prepara-se para julgar o uso de um avatar de inteligência artificial do ex-presidente Jair Bolsonaro na convenção do PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro. A ministra Estela Aranha, que integrará o colegiado julgador, advertiu que a autenticidade na política não é privilégio dos candidatos, mas direito fundamental dos eleitores. O caso transcende a disputa partidária: é um espelho do dilema democrático de uma era em que a mentira aprendeu a sorrir com o rosto de pessoas reais.

Durante um fórum sobre credibilidade e desinformação promovido pela BBC em agosto, a ministra do TSE Estela Aranha lançou um alerta que soou como profecia: em breve, disse, só teremos candidatos de inteligência artificial. Para ela, a autenticidade das pessoas na política é um direito básico do eleitor — e não retórica vazia, já que ela própria integrará o colegiado que julgará um caso emblemático sobre o tema.

O PT apresentou ação questionando o uso de um avatar de Jair Bolsonaro na convenção do PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro. No vídeo, o avatar anuncia ser conteúdo artificial, critica a prisão do ex-presidente, declara Flávio seu sucessor e encerra com a mensagem de que o futuro do Brasil tem nome. O julgamento foi adiado esta semana e ainda não tem data, mas Aranha não minimizou seu alcance: o impacto na campanha será muito grande, afirmou, porque o que está em jogo é a plausibilidade — uma imagem falsa feita por IA carrega uma credibilidade que a mentira tradicional jamais possuiu.

A resolução do TSE é clara ao restringir o uso de identidade real em conteúdos gerados por IA. Se o tribunal reconhecer irregularidade — cenário considerado mais provável por analistas —, a campanha de Flávio enfrentará multa por propaganda antecipada e ficará proibida de usar gravações artificiais do pai. A defesa nega que Bolsonaro tenha autorizado o vídeo, embora reconheça que ele nunca se opôs ao uso de sua imagem pelos filhos.

O fórum reuniu outras vozes igualmente contundentes. O médico Drauzio Varella confessou que já não consegue distinguir com facilidade vídeos reais de falsificações — e que sua imagem é usada ilegalmente para vender medicamentos falsos, tornando-o, nas suas próprias palavras, provavelmente o maior vendedor de remédios falsos do Brasil. Ele classificou a Meta de empresa imoral e sócia de estelionatários. A ministra do STF Cármen Lúcia defendeu a liberdade de imprensa como condição da democracia e observou que a confiança se constrói devagar, mas a desconfiança se espalha como erva daninha.

O que o julgamento do avatar de Bolsonaro revelará não é apenas a posição do TSE sobre um vídeo específico, mas a capacidade do sistema eleitoral brasileiro de regular a inteligência artificial numa era em que nunca foi tão difícil saber em quem, de fato, se está votando.

A ministra Estela Aranha do Tribunal Superior Eleitoral olhou para a sala cheia de jornalistas, pesquisadores e especialistas em tecnologia reunidos num fórum sobre credibilidade e desinformação, e fez uma previsão que soou como aviso: em breve, disse ela, só teremos candidatos de inteligência artificial. A autenticidade das pessoas na política, defendeu, é um direito básico do eleitor.

Essa declaração, feita numa sexta-feira de agosto durante evento gratuito promovido pela BBC World Service e BBC News Brasil, não era retórica vaga. Aranha é uma dos sete ministros que em breve julgará um caso concreto que ilustra exatamente o dilema que ela descrevia. O PT apresentou uma ação questionando o uso de um avatar do ex-presidente Jair Bolsonaro durante a convenção do PL no fim de julho, quando a campanha de Flávio Bolsonaro foi oficializada. No vídeo analisado, o avatar começa avisando que se trata de conteúdo artificial, depois critica a prisão de Bolsonaro, diz ter escolhido Flávio como sucessor e conclui com a mensagem: o Brasil tem futuro e esse futuro é Flávio Bolsonaro Presidente.

O julgamento ainda não tem data marcada — foi adiado nesta semana — mas a ministra não hesitou em descrever seu peso. Terá um impacto muito grande na campanha, afirmou, porque a questão central é a plausibilidade. Sempre houve gente e mentiras na política, reconheceu, mas uma imagem falsa feita por inteligência artificial carrega uma credibilidade que a mentira tradicional não possui. O que está em jogo é simples: queremos saber em que candidato estamos votando, não numa versão mais bonita e inteligente dele criada por máquinas.

A lei já é clara sobre isso. Existe uma resolução do TSE que restringe expressamente o uso de uma pessoa com identidade real em conteúdos feitos com inteligência artificial. Se a Corte entender que houve irregularidade — cenário mais provável segundo análises — a campanha de Flávio enfrentará multa por propaganda antecipada e será proibida de usar gravações de Jair Bolsonaro feitas com IA. A defesa de Bolsonaro negou que ele tenha autorizado a produção e uso do vídeo, embora tenha dito que o ex-presidente nunca se opôs ao uso de sua imagem pelos filhos.

Mas Aranha vê o problema como mais amplo que um único caso. A campanha eleitoral, observou, não respeita mais o calendário. Nas ruas, rádio e televisão, a campanha começa oficialmente neste domingo. Nas redes sociais, porém, ela nunca parou. Existe uma campanha eleitoral permanente nas plataformas digitais, e isso exige que as empresas se ajustem às regras — não é questão de liberdade de expressão, mas de cumprimento da lei. Não vamos fechar todas as plataformas, disse, mas elas têm que cumprir a lei.

O fórum reuniu mais que ministros. Drauzio Varella, o médico que é protagonista involuntário de inúmeros vídeos falsos sobre venda de medicamentos, admitiu nunca ter caído numa notícia falsa sobre si mesmo — mas confessou que já se sentiu idiota muitas vezes tentando diferenciar um conteúdo real de um vídeo totalmente artificial. Até pouco tempo era fácil perceber que determinado vídeo não era feito por ele, brincou. Agora até a voz é mais bonita que a sua. Ele reconheceu que sua imagem é monetizada ilegalmente por terceiros e afirmou ser provavelmente o maior vendedor de remédios falsos do Brasil, talvez até da América Latina. Para ele, as plataformas devem ser responsabilizadas pelo que classifica como crime. A Meta, disse, é uma empresa imoral e sócia dos estelionatários.

A ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia também participou, defendendo a liberdade de imprensa como condição da democracia e observando que enquanto a confiança se constrói lentamente, a desconfiança se espalha como erva daninha. O evento também abordou violência de gênero online, abuso digital contra crianças e adolescentes, e o papel dos influenciadores digitais na propagação de desinformação. O que fica claro é que o julgamento do TSE sobre o avatar de Bolsonaro não é um caso isolado, mas um teste de como o sistema eleitoral brasileiro conseguirá regular a inteligência artificial numa era em que a plausibilidade da mentira nunca foi tão alta.

A autenticidade das pessoas na política é um direito básico. Daqui a pouco a gente só vai ter candidato de IA
— Ministra Estela Aranha, TSE
A Meta é uma empresa imoral e sócia dos estelionatários
— Drauzio Varella, médico
Quieres la nota completa? Lee el original en BBC ↗
Contáctanos FAQ