Na Faculdade de Direito da USP, a ministra Cármen Lúcia e o ministro Alexandre de Moraes lembraram ao Brasil que a democracia não é uma conquista estática, mas uma prática que exige vigilância permanente. Diante de uma tentativa de golpe documentada entre 2021 e 2022 e de campanhas crescentes de desinformação nas redes sociais, os dois magistrados colocaram ao cidadão uma responsabilidade que nenhuma instituição pode carregar sozinha. A pergunta que ficou suspensa no auditório — se o TSE pode cassar mandatos por abuso de desinformação — revela que a ameaça evoluiu mais rápido do que o arcabouç
Ministra Cármen Lúcia: democratas não podem sossegar enquanto ditaduras ameaçam
As ditaduras não sossegam, então os democratas também não podem sossegar
Por que a ministra insistiu tanto que a democracia exige trabalho contínuo? Parecia uma crítica velada.
Porque em 1988 as pessoas acharam que tinham terminado o trabalho. Promulgaram a Constituição e acharam que estava feito. Mas democracia não é um produto que você compra e usa. É algo que você tem que defender todo dia, ou ela apodrece.
E a mudança de tática que Moraes descreveu — de atacar a democracia diretamente para atacar as instituições — isso é mais perigoso?
É mais insidioso. Quando alguém diz que quer um golpe, você sabe o inimigo. Quando dizem que as urnas são fraudulentas, que os votos foram roubados, você está lidando com algo que parece uma questão técnica, mas é um ataque à confiança no sistema inteiro.
E a pergunta dele sobre cassar mandatos por desinformação — isso sugere que existe um vazio legal?
Existe. O sistema eleitoral tem ferramentas para punir abuso de autoridade, mas desinformação é mais nebulosa. Como você prova que alguém agiu de má fé? Como você distingue entre opinião e mentira deliberada? É um problema que ninguém resolveu ainda.
Então o que Cármen Lúcia estava pedindo, no fundo?
Que cada pessoa entenda que defender democracia é responsabilidade dela. Não é só coisa de juiz ou de instituição. É de quem vota, de quem fala, de quem escolhe acreditar ou não em uma mentira.
El Pulso
- A ministra Cármen Lúcia declarou sem rodeios que a democracia brasileira está em risco, evocando a tentativa de golpe de 2021-2022 como prova de que o perigo não é abstrato.
- O ministro Alexandre de Moraes descreveu uma mudança de tática dos adversários da democracia: ataques frontais cederam lugar a campanhas de fake news e manipulação algorítmica que funcionam como uma 'lavagem cerebral' sistemática.
- A discussão expôs uma lacuna regulatória crítica: o TSE tem instrumentos para punir abuso de autoridade, mas não dispõe de ferramentas claras para cassar mandatos por abuso de desinformação.
- Cármen Lúcia alertou que a geração de 1988 cometeu o erro de tratar a Constituição como ponto de chegada, e não como ponto de partida — um descuido que abre espaço para retrocessos.
- A saída apontada pelos dois ministros passa pela responsabilidade ativa do cidadão: a maioria democrata do povo brasileiro é, segundo eles, o principal freio contra qualquer tentativa de ruptura institucional.
Na Faculdade de Direito da USP, a ministra Cármen Lúcia e o ministro Alexandre de Moraes lembraram ao Brasil que a democracia não é uma conquista estática, mas uma prática que exige vigilância permanente. Diante de uma tentativa de golpe documentada entre 2021 e 2022 e de campanhas crescentes de desinformação nas redes sociais, os dois magistrados colocaram ao cidadão uma responsabilidade que nenhuma instituição pode carregar sozinha. A pergunta que ficou suspensa no auditório — se o TSE pode cassar mandatos por abuso de desinformação — revela que a ameaça evoluiu mais rápido do que o arcabouço legal capaz de contê-la.
Na tarde de uma sexta-feira, a Faculdade de Direito da USP recebeu dois ministros do STF para uma conversa sobre voto e democracia que rapidamente ultrapassou os limites da teoria constitucional. Cármen Lúcia foi direta: a democracia não é um estado conquistado de uma vez por todas. É um trabalho contínuo, e quem a defende não pode descansar enquanto quem a ameaça permanece ativo.
Ela relembrou o período entre 2021 e 2022, quando o Brasil enfrentou uma tentativa de golpe de Estado com consequências reais. A resistência a esse momento, disse, deveu-se em parte à firmeza da Justiça Eleitoral sob a presidência de Moraes — que se recusou a ceder — mas também à maioria do povo brasileiro, que é democrata e honra uma democracia ainda em construção. Sem essa base popular, nenhuma instituição teria conseguido segurar o que foi tentado.
Moraes descreveu uma mudança de estratégia entre os adversários da democracia. Atacá-la de frente tornou-se ineficaz, então passaram a minar as instituições que a sustentam: propagam a narrativa de fraude nas urnas, usam redes sociais como arma e direcionam algoritmos para amplificar mentiras de forma sistemática. O resultado, disse ele, é uma espécie de lavagem cerebral que é mais sofisticada, mais difícil de nomear e mais fácil de negar.
Cármen Lúcia evocou a promulgação da Constituição em outubro de 1988 — aquela sensação de que o Brasil havia finalmente encontrado sua alma democrática. O erro, refletiu, foi tratar aquele momento como uma chegada. A democracia foi deixada como algo resolvido, quando ela exige vigilância constante. Todo tempo é difícil para quem o vive, observou, e não existe época de paz em que se possa simplesmente descansar.
Moraes encerrou com uma pergunta que expõe uma lacuna real: o TSE pode cassar mandatos por abuso de autoridade, mas pode cassá-los por abuso de desinformação? A resposta não existe ainda. É um vazio jurídico que os inimigos da democracia exploram todos os dias, e que o debate na USP deixou sem solução — mas, ao menos, claramente nomeado.
Na tarde de sexta-feira, dentro da Faculdade de Direito da USP, a ministra Cármen Lúcia colocou a questão de forma direta: a democracia não é um estado que se alcança e depois se abandona. É um trabalho que nunca termina. Ao lado do colega Alexandre de Moraes, ela falava a um auditório sobre voto e democracia no Brasil, mas o que tinha a dizer ia além da teoria constitucional. A democracia, disse, está em risco. E quem a defende não pode descansar enquanto quem a ameaça não descansa.
O Brasil viveu um momento de perigo real entre 2021 e 2022, quando houve uma tentativa de golpe de Estado que deixou marcas. Cármen Lúcia não minimizou isso. Ela creditou a resistência a essa tentativa, em parte, à ação rigorosa da Justiça Eleitoral sob a presidência de Moraes, que se recusou a ceder, que manteve o cumprimento da lei com precisão. Mas ela foi além: disse que a Justiça não agiu sozinha. A maioria do povo brasileiro, afirmou, é democrata. Quer democracia. Honra a democracia que está em construção permanente. Sem isso, nenhuma instituição teria conseguido frear o que tentaram fazer.
O que preocupa agora é diferente, mas igualmente grave. Moraes, ao falar, descreveu uma mudança de tática. Atacar a democracia de frente não funciona mais, disse. Então passaram a atacar as instituições que a sustentam. Falam em fraude nas urnas, em voto roubado. Usam as redes sociais como arma, com algoritmos direcionados, com mentiras amplificadas. As pessoas, disse, foram submetidas a uma espécie de lavagem cerebral, absorvendo informações falsas de forma sistemática. É um ataque mais sofisticado, mais difícil de nomear, mais fácil de negar.
Cármen Lúcia refletiu sobre o momento em que a Constituição foi promulgada, naquela tarde de 5 de outubro de 1988. Havia uma sensação de que o Brasil tinha finalmente encontrado sua alma democrática, que nada mais poderia reverter isso. Mas, disse ela, não continuaram nas ruas conversando, cantando, bradando pelo que queriam. Deixaram a democracia como algo resolvido, quando ela exige vigilância constante. Todo tempo é difícil para quem vive, ela observou. Não há época de paz em que se possa simplesmente descansar.
Moraes levantou uma questão que expõe uma lacuna real no sistema. O Tribunal Superior Eleitoral pode cassar mandatos por abuso de autoridade, perguntou. Mas pode cassar por abuso de desinformação? A pergunta fica no ar. Ele defendeu que o TSE seja rigoroso no combate ao uso de informações falsas para desgastar a democracia e ganhar vantagem eleitoral. Mas as ferramentas legais para isso não estão claras. É um vazio que os que atacam a democracia exploram todos os dias.
Citas Notables
É preciso que cada um de nós se responsabilize pela democracia, tanto no Brasil quanto no mundo, porque ela está em risco— Ministra Cármen Lúcia
Atacar a democracia diretamente não dá mais ibope, então passou-se a atacar as instituições da democracia, falando em fraude nas urnas, no voto— Ministro Alexandre de Moraes