Num tempo em que se aprende a ler o sofrimento além das notas e do comportamento visível, uma adolescente autista que parece bem na escola pode carregar, em silêncio, uma ansiedade que consome suas forças em casa. O neurocientista Fabiano de Abreu Agrela lembra que a inteligência e o bom desempenho não afastam a dor, e que a camuflagem social, esse esforço de se moldar ao que o mundo espera, pode esconder justamente o que mais precisa ser visto. Diante disso, a família e os profissionais são chamados a observar com atenção e a acolher antes que o silêncio se transforme em crise.
Meninas autistas com ansiedade generalizada precisam de cuidado específico para prevenir sofrimento e autolesão
O sofrimento é interno e no silêncio.
Por que uma menina com boas notas pode estar em sofrimento sem ninguém perceber?
Por causa da camuflagem social. Ela imita o que se espera, esconde dificuldades e se comporta bem na escola. O custo aparece em casa, como exaustão, irritabilidade e isolamento.
Vale separar o que é estudo e o que é opinião do especialista. O estudo de 2023 com 733 jovens associa camuflagem a ansiedade e depressão. Associação não prova que uma causa a outra.
E a diferença entre meninas e meninos?
A revisão de 2025, com 56 estudos e 13.410 participantes, achou ansiedade um pouco maior nas meninas, principalmente nas mais velhas e com QI mais alto.
Mas a diferença média foi pequena e variou entre os estudos. Não serve para prever o caso de uma menina específica.
Como a família deve agir no dia a dia?
Com regras claras, tarefas acessíveis, rotina previsível e sem rótulos como inútil ou incapaz. Validar conquistas reais também faz parte.
Essas orientações vêm de um único especialista. Os protocolos do NICE tratam de avaliação após autolesão e de terapia adaptada, não dessas recomendações domésticas.
E se houver sinais de risco?
É preciso avaliação médica e psicossocial, plano de segurança e acompanhamento. E perguntar diretamente sobre suicídio não aumenta o risco, segundo a evidência citada.
O texto também diz que mudanças no sono ou no apetite, sozinhas, não indicam risco suicida. Convém observar, sem concluir.
Il Polso
- Uma adolescente que tira boas notas chega exausta em casa, e o contraste entre a escola e o lar oculta um sofrimento que ninguém vê de imediato.
- A camuflagem social funciona como uma máscara que consome energia e pode esconder ansiedade, depressão e pensamentos de desesperança.
- Família e profissionais buscam validar conquistas, criar rotinas previsíveis e substituir críticas por comunicação clara e acolhedora.
- Quando surgem sinais de autolesão ou desesperança persistente, a avaliação médica e psicossocial, com plano de segurança e acompanhamento em até 48 horas, torna-se urgente.
Num tempo em que se aprende a ler o sofrimento além das notas e do comportamento visível, uma adolescente autista que parece bem na escola pode carregar, em silêncio, uma ansiedade que consome suas forças em casa. O neurocientista Fabiano de Abreu Agrela lembra que a inteligência e o bom desempenho não afastam a dor, e que a camuflagem social, esse esforço de se moldar ao que o mundo espera, pode esconder justamente o que mais precisa ser visto. Diante disso, a família e os profissionais são chamados a observar com atenção e a acolher antes que o silêncio se transforme em crise.
Uma adolescente volta da escola sem nenhum problema aparente: as notas são boas, o comportamento é adequado e os professores não têm queixas. Mas em casa surgem a exaustão, a irritabilidade, o isolamento e a dificuldade de começar qualquer tarefa. É esse contraste que o neurocientista Fabiano de Abreu Agrela descreve ao alertar para o sofrimento de meninas autistas com ansiedade generalizada, um sofrimento que pode ser intenso mesmo quando há alta capacidade intelectual.
Parte da dificuldade está na camuflagem social, o masking, em que a pessoa reproduz comportamentos esperados e reprime suas reações espontâneas para não ser rejeitada. Esse esforço consome recursos emocionais e cognitivos, e estudos citados associam essa prática a sintomas de ansiedade e depressão. As evidências, porém, mostram diferenças pequenas e variáveis entre os estudos, o que impede conclusões sobre casos individuais.
Agrela reforça que a falta de iniciativa dessas jovens não significa falta de vontade ou responsabilidade. Muitas vezes elas sabem o que precisa ser feito e simplesmente não conseguem executar. Para a família, o caminho recomendado é validar as conquistas reais, manter rotinas previsíveis, explicar objetivos com clareza e evitar expressões depreciativas, que aprofundam a sensação de inadequação.
O risco de autolesão existe e deve ser levado a sério. Quando há ingestão intencional de medicamentos, autolesão ou suspeita de comportamento suicida, a avaliação médica e psicossocial é indispensável, com plano de segurança, contatos de emergência e restrição de acesso a meios perigosos. Perguntar diretamente sobre pensamentos de morte não os aumenta. Para o especialista, o cuidado deve começar antes da crise, porque o sofrimento dessas meninas costuma ser interno e silencioso.
Uma adolescente chega da escola depois de um dia sem incidentes: notas boas, comportamento adequado, nenhuma queixa de professores. Em casa, porém, aparecem a exaustão, a irritabilidade, o isolamento e a dificuldade de começar qualquer tarefa. É esse contraste que o neurocientista Fabiano de Abreu Agrela descreve ao alertar para o sofrimento de meninas e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), que pode ser intenso mesmo quando há alta capacidade intelectual e bom desempenho escolar.
Um dos fatores que dificultam o reconhecimento desse sofrimento é a camuflagem social, também chamada de masking. Ela ocorre quando a pessoa autista reproduz comportamentos socialmente esperados, controla reações espontâneas e esconde dificuldades para evitar a rejeição ou ser aceita em um grupo. Segundo o especialista, o esforço consome muitos recursos cognitivos e emocionais.
Dois estudos sustentam a associação. Um deles, publicado em 2023 na revista Autism Research, acompanhou 733 crianças e adolescentes autistas de 4 a 17 anos e encontrou relação entre camuflagem e sintomas de ansiedade, depressão e outras formas de sofrimento psicológico. A outra, uma revisão sistemática de 2025, analisou 56 estudos com 13.410 participantes e identificou sintomas ansiosos ligeiramente mais altos nas meninas do que nos meninos, sobretudo nas mais velhas e com QI mais elevado. A diferença média foi pequena e variou entre os estudos, o que impede generalizações para casos individuais.
O TAG se caracteriza por preocupação excessiva e persistente, difícil de controlar, com tensão, inquietação, alterações do sono e dificuldade de concentração. Em jovens autistas, pode se somar a obstáculos de flexibilidade cognitiva, processamento sensorial e regulação emocional, prejudicando a capacidade de iniciar atividades, organizar tarefas e lidar com imprevistos. Agrela afirma que isso não significa falta de vontade, inteligência ou responsabilidade: a jovem pode entender perfeitamente o que precisa fazer e, ainda assim, não conseguir executar. Funções como planejamento e regulação emocional dependem de redes que envolvem o córtex pré-frontal e o cingulado anterior, e a ansiedade pode alterar seu funcionamento, mas isso não permite apontar falha estrutural em uma região específica. A exaustão da adaptação contínua também pode levar ao chamado burnout autista, embora perda de iniciativa e isolamento exijam avaliação individual, pois podem ter relação com ansiedade, depressão ou outras condições.
Para a família, o neurocientista recomenda validação emocional, rotinas previsíveis e comunicação objetiva, sem transformar dificuldades executivas em acusação de incapacidade. Ele defende "validar conquistas reais", "diálogo sem rigidez" e "inclusão ativa", e diz que "precisamos de regras e tarefas domésticas claras". Isso significa responsabilidades acessíveis, objetivos explicados e nenhuma expressão depreciativa diante de erros ou atrasos: repetir que uma adolescente é inútil ou nunca faz nada pode aprofundar o sentimento de inadequação. Mudanças no sono, no apetite, nas interações sociais e na participação escolar merecem atenção, ainda que, isoladamente, não indiquem risco suicida.
A literatura científica documenta a associação entre autismo, sofrimento emocional e autolesão. Ansiedade, depressão, rejeição e histórico de autolesão podem aumentar a vulnerabilidade, mas o risco depende de vários fatores. Para Agrela, o problema muitas vezes passa despercebido: "O sofrimento é interno e no silêncio." Expressões persistentes de inutilidade, desesperança ou incapacidade de suportar a dor emocional não devem ser ignoradas.
Após ingestão intencional de medicamentos em excesso, autolesão ou suspeita de comportamento suicida, é necessária avaliação médica e psicossocial; a ingestão, por si só, não define a intenção suicida sem que se investiguem as circunstâncias. As diretrizes internacionais citadas, do NICE, indicam avaliação especializada, plano de segurança com sinais de agravamento, contatos de emergência, pessoas de confiança e restrição de acesso a medicamentos ou outros meios perigosos, além de acompanhamento inicial em até 48 horas quando persistem preocupações com a segurança. Segundo a evidência citada, perguntar diretamente sobre pensamentos de morte não aumenta a probabilidade deles.
O NICE aponta a terapia cognitivo-comportamental adaptada como uma intervenção possível para a ansiedade em crianças e adolescentes autistas, com comunicação concreta, materiais visuais, atividades estruturadas, pausas e participação dos responsáveis quando apropriado. Medicação pode ser considerada para transtornos associados, após avaliação individual, para tratar sintomas e não traços da identidade autista. O apoio familiar não substitui o atendimento psicológico ou psiquiátrico quando o sofrimento é grave. Na avaliação do especialista, o cuidado deve começar antes da crise.
Citazioni salienti
Precisamos de regras e tarefas domésticas claras.— Fabiano de Abreu Agrela, neurocientista
O sofrimento é interno e no silêncio.— Fabiano de Abreu Agrela, neurocientista