1.316 municípios brasileiros podem ficar sem medicamentos essenciais para intubação, comprometendo o atendimento de pacientes críticos com covid-19. Analgésicos e bloqueadores neuromusculares estão em falta em 18 Estados, levando hospitais a suspender admissões em UTI e forçando compras coletivas emergenciais.
Medicamentos para intubação podem faltar em 1.316 municípios, alerta CNM
Um paciente que podia ser mantido vivo e um que morreria por falta de ar
Por que exatamente esses medicamentos — analgésicos e bloqueadores neuromusculares — são tão críticos?
Quando um paciente com covid-19 está tão grave que precisa de um ventilador, você não pode simplesmente colocar um tubo na traqueia dele enquanto ele está acordado e consciente. O bloqueador neuromuscular paralisa os músculos para que o tubo possa entrar e ficar no lugar. Sem ele, o paciente se debate, tosse, expele o tubo. Morre.
E por que faltaram justamente naquele momento?
A demanda explodiu. A segunda onda de covid foi muito mais severa que a primeira. Hospitais que nunca tinham intubado tantos pacientes simultaneamente de repente precisavam de quantidades de medicamentos que o sistema de abastecimento não estava preparado para fornecer. Não havia estoque de segurança.
A Santa Casa de São Carlos parou de receber pacientes. O que isso significa na prática?
Significa que havia pessoas chegando à emergência em insuficiência respiratória grave, precisando de UTI, e o hospital tinha que dizer não. Não porque não havia leito. Mas porque não havia medicamento para manter vivo quem entrasse. É uma situação que médicos e enfermeiros não deveriam nunca ter que enfrentar.
Os hospitais particulares formaram um consórcio para importar medicamentos. Isso funcionou?
Foi uma solução de emergência, e apenas para quem tinha recursos. Hospitais públicos e pequenos hospitais municipais não tinham essa opção. Revelou uma divisão: os ricos conseguiam se organizar para importar, os pobres ficavam dependendo de um sistema que estava quebrado.
A maioria dos municípios não decretou lockdown. Por quê?
Pressão política. Lockdown é impopular, prejudica o comércio, gera conflito. Mas a verdade é que sem reduzir a circulação do vírus, você não reduz o número de pessoas que precisam de intubação. Era uma escolha entre sofrer agora ou sofrer depois, e muitos prefeitos escolheram sofrer depois.
O que a Anvisa fez?
Flexibilizou as regras para importação de medicamentos e dispositivos médicos, mesmo que não tivessem registro no Brasil. Era uma admissão de derrota — o sistema normal não funcionava, então abriram uma válvula de escape. Mas isso leva tempo, e pacientes não têm tempo.
Le Pouls
- 1.316 municípios brasileiros enfrentavam risco iminente de desabastecimento de medicamentos para intubação
- 50,4% dos 2,6 mil municípios consultados pela CNM relataram o risco entre 23 e 25 de março de 2021
- Santa Casa de São Carlos parou de receber pacientes para UTI na quinta-feira, 25 de março, por falta de medicamentos
- 18 Estados relatavam escassez de bloqueadores neuromusculares, segundo o Fórum Nacional de Governadores
- 709 municípios sinalizaram risco de desabastecimento de oxigênio
1.316 municípios brasileiros podem ficar sem medicamentos essenciais para intubação, comprometendo o atendimento de pacientes críticos com covid-19. Analgésicos e bloqueadores neuromusculares estão em falta em 18 Estados, levando hospitais a suspender admissões em UTI e forçando compras coletivas emergenciais.
Pesquisa da CNM aponta que 50,4% dos 2,6 mil municípios consultados enfrentam risco iminente de desabastecimento de medicamentos para intubação de pacientes com covid-19 nos próximos dias.
No final de março de 2021, enquanto a segunda onda de covid-19 varria o Brasil, um problema silencioso e letal começava a se desenhar nos hospitais: os medicamentos necessários para intubar pacientes graves estavam desaparecendo. A Confederação Nacional de Municípios fez contato com 2,6 mil prefeituras entre 23 e 25 de março e recebeu uma resposta alarmante. Metade delas — 1.316 municípios — relatou risco iminente de que seus hospitais ficassem sem os insumos essenciais para manter pacientes críticos vivos nos próximos dias.
Os medicamentos em falta eram específicos e insubstituíveis: analgésicos e bloqueadores neuromusculares, drogas que paralisam os músculos respiratórios de um paciente para que um tubo possa ser inserido na traqueia e uma máquina possa respirar por ele. Sem esses remédios, um paciente grave não podia ser intubado. Com leitos de UTI lotados e a demanda crescendo, hospitais enfrentavam uma escolha impossível. O Fórum Nacional de Governadores havia alertado para o que chamou de "um colapso dentro do colapso" — a falha não era apenas de leitos ou ventiladores, mas da própria capacidade de manter pacientes vivos uma vez internados.
A Santa Casa de São Carlos, no interior de São Paulo, virou símbolo dessa crise. Com seus 30 leitos de UTI para covid-19 completamente ocupados, o hospital parou de aceitar novos pacientes na quinta-feira, 25 de março. Não era falta de espaço. Era falta de remédio. Três reposições de medicamentos que deveriam ter chegado naquela semana nunca apareceram, e o estoque estava quase zerado. Hospitais particulares em São Paulo, percebendo o risco, começaram a se organizar em consórcio para importar medicamentos por conta própria — uma solução emergencial que revelava o colapso do sistema de abastecimento nacional.
A Associação Nacional de Hospitais Privados soou o alarme na mesma quinta-feira: os medicamentos para intubação poderiam faltar em três a quatro dias. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária havia publicado medidas na sexta anterior para facilitar importações emergenciais, simplificando processos burocráticos para dispositivos e medicamentos prioritários, mesmo que não regularizados no país. Era uma concessão extraordinária, um reconhecimento de que o sistema havia quebrado.
A pesquisa da CNM revelou também a situação do oxigênio, outro insumo crítico. Enquanto a maioria dos municípios (69,1%) afirmou não haver risco imediato de desabastecimento, 709 cidades sinalizaram que o risco existia. Oito em cada dez prefeituras relataram que não receberam oxigênio enviado pelo Estado naquela semana — um dado que sugeria falhas profundas na logística estadual.
Apesar da crise hospitalar, a resposta das prefeituras foi cautelosa. Apenas 37,6% dos municípios pesquisados haviam decretado lockdown, o fechamento total das atividades não essenciais. A maioria (61,1%) ainda não havia tomado essa medida. Em vez disso, oito em cada dez prefeituras restringiam a circulação noturna, e 84% havia paralisado as aulas presenciais. Era um meio termo que refletia a pressão política contra confinamentos mais rigorosos, mesmo enquanto os hospitais se aproximavam do colapso.
O quadro que emergia era de um sistema de saúde sob pressão extrema em múltiplas frentes simultaneamente. Não era apenas que havia muitos pacientes. Era que os insumos básicos para salvar vidas estavam faltando, que hospitais precisavam parar de receber doentes, que gestores municipais enfrentavam uma crise de abastecimento que nenhuma medida local podia resolver sozinha. Os medicamentos para intubação não eram luxo ou complemento — eram a diferença entre um paciente que podia ser mantido vivo e um que morreria por falta de ar. E em 1.316 municípios, essa diferença estava desaparecendo.
Citations marquantes
Há grande preocupação dos gestores para atender aos pacientes internados com covid-19 nos hospitais— Confederação Nacional de Municípios
Risco de um colapso dentro do colapso pela falta desses medicamentos— Fórum Nacional de Governadores