Medicamentos GLP-1 para perda de peso podem ser doping no esporte?

A ausência de evidências não é evidência da ausência
Drucker resume a incerteza científica sobre se medicações GLP-1 melhoram desempenho atlético.
Mark

Por que Serena Williams decidiu falar publicamente sobre o uso dessa medicação?

Mimi

Ela afirmou que queria levantar o estigma em torno do medicamento. Mas há uma complicação: ela é embaixadora remunerada da empresa que o vende, e seu marido é investidor. Isso muda a conversa.

Mark

Se o medicamento não é proibido, por que há tanta preocupação?

Mimi

Porque ninguém sabe realmente o que faz em atletas de elite. Nunca foi estudado neles. A ausência de dados não significa que seja seguro ou justo.

Mark

Então o risco real é que atletas percam músculos?

Mimi

Sim, mas também que suprimam o apetite justamente quando precisam de mais combustível para treinar. É um duplo golpe.

Mark

Nos esportes com categorias de peso, isso seria claramente doping?

Mimi

Provavelmente. Se você consegue atingir um limite de peso mais facilmente do que seus adversários, tem uma vantagem competitiva clara.

Mark

E se o medicamento realmente melhora a saúde cardiovascular?

Mimi

Aí fica mais cinzento. Melhorar a saúde não é a mesma coisa que melhorar o desempenho. Mas talvez seja, indiretamente. A ciência ainda está em voo cego.

Mark

O que mais preocupa os médicos?

Mimi

O acesso fácil pela internet e o precedente que uma celebridade estabelece. Se Serena Williams usa, por que não um adolescente que quer perder alguns quilos para correr mais rápido?

  • O retorno de Serena Williams ao tênis profissional após usar tirzepatida acendeu o debate sobre se medicamentos GLP-1 conferem vantagem competitiva — e se deveriam ser classificados como doping.
  • Agências antidoping monitoram essas substâncias sem proibi-las, pois ainda faltam evidências científicas de que melhorem o desempenho em atletas já em forma.
  • Os efeitos colaterais são reais: perda de massa muscular em até 35% do peso eliminado e supressão do apetite que pode comprometer seriamente a energia disponível para o treinamento de elite.
  • O acesso fácil via plataformas de saúde privadas online e a influência de celebridades como Williams — que é embaixadora remunerada de uma empresa do setor — ampliam o risco de uso fora das indicações médicas aprovadas.
  • Enquanto a ciência não responde às perguntas pendentes, especialistas preveem aumento do uso dentro e fora do esporte, mantendo o debate ético sem resolução à vista.

No cruzamento entre medicina, ética esportiva e cultura de celebridades, os medicamentos GLP-1 — popularizados pela confissão pública de Serena Williams — emergem como o mais recente campo de batalha sobre os limites do que é permitido no esporte profissional. Substâncias que prometem perda de peso e benefícios cardiovasculares ainda não são proibidas pelas agências antidoping, mas sua presença crescente levanta uma pergunta antiga com nova urgência: onde termina o tratamento e começa a vantagem?

Serena Williams revelou publicamente, em podcast de Oprah Winfrey, sua luta contra o peso após a maternidade — oito horas diárias de academia sem resultado visível. A solução encontrada foi a tirzepatida, um medicamento GLP-1 que ela descreveu como transformador: articulações melhoradas, colesterol controlado, risco cardiovascular reduzido. O que veio depois foi inevitável: quando Williams anunciou seu retorno ao tênis profissional em 2026, o mundo do esporte passou a questionar se uma substância capaz de mudar o corpo e o metabolismo de alguém poderia também mudar o placar.

Os medicamentos GLP-1 funcionam imitando hormônios intestinais que induzem saciedade. Nenhuma agência antidoping os proíbe atualmente, mas a Wada os mantém em lista de monitoramento. Para que uma substância seja classificada como doping, ela precisa melhorar o desempenho, arriscar a saúde do atleta ou violar o espírito esportivo — e, até agora, os dados não confirmam nenhum desses critérios de forma conclusiva. Nos esportes com categorias de peso, porém, a lógica muda: facilitar o enquadramento em limites de peso já seria, por si só, uma vantagem direta.

Além da perda de peso, pesquisas recentes indicam que os GLP-1s reduzem inflamações e melhoram a saúde metabólica — mas apenas um terço dos benefícios cardiovasculares observados vem da perda de peso em si. O restante ainda não é completamente compreendido pela ciência. Fisiologistas do exercício alertam, no entanto, que o próprio treino reduz inflamações com muito mais eficiência, e que os efeitos mais expressivos dessas substâncias ocorrem em pessoas com obesidade, não em atletas já condicionados.

Os riscos são concretos. Estudos mostram que entre 25% e 35% do peso perdido com esses medicamentos corresponde a massa magra — músculos, água e outros tecidos essenciais para força e resistência. Somado à supressão do apetite, o uso por atletas de elite pode gerar deficiência energética grave, com consequências para saúde óssea, humor e desempenho. O fato de Williams atuar como embaixadora remunerada da empresa que comercializa o tratamento — enquanto seu marido é investidor da mesma — adiciona uma camada ética que preocupa especialistas, especialmente pelo sinal que isso envia a jovens atletas. O debate está longe de terminar.

Serena Williams sentou-se diante do podcast de Oprah Winfrey no ano passado e confessou uma luta que nenhum adversário havia conseguido vencer: seu próprio peso. Ela descreveu oito horas diárias na academia sem resultado, a sensação de que talvez estivesse até ganhando quilos apesar do esforço extremo. Depois do nascimento de seu filho, a decisão veio: começar a tomar tirzepatida, um medicamento GLP-1 vendido sob os nomes comerciais Zepbound e Mounjaro. Meses depois, em entrevista à revista Vogue, ela falaria sobre os benefícios que experimentou — risco cardiovascular reduzido em 19%, articulações melhoradas, colesterol controlado, movimentos que nunca havia conseguido fazer antes.

O que Williams não mencionou de imediato era que ela se tornaria embaixadora remunerada da empresa Ro, que administra essas medicações, e que seu marido, Alexis Ohanian, é investidor da companhia. Quando ela retornou ao tênis profissional em 2026, após quatro anos afastada, a questão que pairava no ar era inevitável: medicamentos que fazem você perder peso e melhoram sua saúde cardiovascular podem também melhorar seu desempenho atlético? E se podem, deveriam ser considerados doping?

As medicações GLP-1 funcionam imitando hormônios intestinais que nos fazem sentir saciados. A tirzepatida, especificamente, imita tanto o GLP-1 quanto o GIP, dois sinalizadores de saciedade. Atualmente, nenhuma agência antidoping proíbe essas substâncias no esporte profissional. Mas a Agência Mundial Antidoping (Wada) as mantém em sua lista de monitoramento — não porque as considere desleais ou promotoras de desempenho, mas porque deseja acompanhar possíveis padrões de abuso. David Cowan, especialista mundial em detecção de drogas do King's College de Londres, explica que para uma substância ser classificada como doping, ela precisa ter potencial de melhorar o desempenho, arriscar a saúde do atleta ou violar o espírito do esporte. Até agora, os dados não apontam nessa direção — mas a ausência de evidências não é evidência da ausência, como ressalta Daniel Drucker, endocrinologista da Universidade de Toronto que participou de pesquisas pioneiras no desenvolvimento desses medicamentos.

O problema é que essas drogas nunca foram estudadas em atletas de elite. Massimo Mapelli, cardiologista e fisiologista do exercício do Centro Cardiológico Monzino em Milão, aponta que o cenário está evoluindo rapidamente. Nos esportes com categorias de peso restritas — pugilismo e luta livre — as medicações poderiam ser consideradas doping porque fornecem uma vantagem direta ao permitir que atletas atinjam limites de peso mais facilmente. Por isso, diuréticos já são proibidos: não apenas reduzem peso, mas podem ser usados para excretar substâncias proibidas tomadas anteriormente.

Mas há mais em jogo do que simplesmente perder peso. Pesquisas recentes mostram que os GLP-1s reduzem inflamações, melhoram a saúde metabólica e diminuem o risco de ataques cardíacos e acidentes vasculares cerebrais. Um estudo publicado na revista Lancet revelou que a perda de peso representa apenas um terço da redução dos riscos cardiovasculares — o resto vem de benefícios que os cientistas ainda não compreendem completamente. Os medicamentos melhoram o fluxo sanguíneo para os músculos e protegem órgãos, possivelmente através da redução de inflamações. Drucker não descarta a possibilidade de que os GLP-1s, de alguma forma, tornem o ambiente metabólico mais eficiente para o exercício. Mas Abbie Smith-Ryan, professora de fisiologia do exercício da Universidade da Carolina do Norte, oferece uma perspectiva diferente: o próprio exercício reduz inflamações muito mais efetivamente do que essas substâncias, e os efeitos mais fortes das medicações ocorrem em pessoas com excesso de peso ou obesidade, não em atletas magros e já em forma.

Os efeitos colaterais, porém, são reais e preocupantes. Perda muscular, problemas gastrointestinais e, raramente, inflamações graves do pâncreas. Uma meta-análise recente calculou que cerca de 35% do peso perdido com semaglutida era massa magra — músculos, água e outros tecidos não adiposos. Com tirzepatida, o percentual caía para cerca de 25,4%. A massa muscular é essencial para força, velocidade e resistência, então sua perda pode prejudicar claramente o desempenho. Mas se um atleta perder apenas gordura corporal e conseguir manter ou ganhar músculos através de exercício contínuo e ingestão adequada de proteína, poderia haver benefícios. Ainda assim, há um risco maior: essas medicações suprimem o apetite, e muitos atletas de elite já têm dificuldade para consumir calorias suficientes para suas necessidades de treinamento. A queda de apetite induzida por uma substância, aliada a uma carga de treinamento já rigorosa, representa um risco real de deficiência de energia — uma condição que pode afetar saúde óssea, humor e desempenho.

As questões éticas são talvez ainda mais complexas. Raramente atletas profissionais se enquadram nas indicações aprovadas para essas medicações — diabetes tipo 2 ou excesso de peso significativo. As empresas fabricantes afirmam não apoiar usos fora das indicações aprovadas, mas essas drogas têm fácil acesso através de serviços de assistência médica privados na internet, e há crescente preocupação com medicações GLP-1 não regulamentadas disponíveis no mercado. O fato de Williams atuar como embaixadora e defensora declarada da Ro estabelece um precedente preocupante, segundo críticos. Mapelli teme que o uso por uma atleta com tanta visibilidade envie um sinal para adolescentes de que a substância é uma opção válida para pessoas que mantêm peso saudável. Enquanto a ciência não esclarecer as questões pendentes, Michael Joyner acredita que presenciaremos um aumento do uso dessas medicações dentro e fora do esporte profissional, e o debate sobre o que é ou não aceito no esporte provavelmente continuará.

O único adversário que não consegui vencer foi o peso
— Serena Williams, em podcast de Oprah Winfrey
A ausência de evidências não é evidência da ausência
— Daniel Drucker, endocrinologista da Universidade de Toronto
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