Por dezenas de milhares de anos, o intestino humano coevoluiu com um ecossistema microbiano que a modernidade desfez em poucas décadas. Um estudo publicado na revista Nature revela que mais de 600 espécies bacterianas presentes nos ancestrais humanos desapareceram das populações industrializadas, deixando para trás um microbioma empobrecido que pode estar na raiz de alergias, demência e doenças crônicas contemporâneas. A descoberta, feita a partir da comparação entre caçadores-coletores da Tanzânia e da Bolívia com habitantes da Califórnia, nos convida a refletir sobre o preço silencioso do pr
Mais de 600 bactérias intestinais desapareceram com a industrialização
Um microbioma muito diferente daquele que nosso corpo evoluiu para encontrar
Então o estudo está dizendo que perdemos 600 espécies de bactérias? Como sabem que eram comuns antes?
Eles compararam dois grupos de caçadores-coletores que vivem hoje — hadza e tsimane — e encontraram bactérias que ambos compartilham mas que faltam nas populações industrializadas. O padrão de mutações em cada espécie sugere que essas bactérias estavam lá há dezenas de milhares de anos.
Mas espera — eles estão inferindo o passado a partir do presente. Não têm amostras de fezes de 50 mil anos atrás. Estão usando a genética para argumentar que essas espécies são ancestrais, não que necessariamente eram comuns em todos os humanos.
Entendi. E por que desapareceram?
Principalmente por causa de mudanças na dieta — alimentos processados, açúcar refinado — e antibióticos. Quando você muda o que come, muda quem vive no seu intestino.
Mas também há um viés de seleção aqui. Os hadza e tsimane vivem em ambientes muito específicos. Não sabemos se seus microbiomas representam o que era típico em todas as populações caçadoras-coletoras.
E isso importa para a saúde das pessoas hoje?
Pode importar muito. Essas bactérias podem ter treinado nosso sistema imunológico ou produzido compostos que precisamos. Sua ausência pode estar ligada a alergias, demência e doenças crônicas.
Mas isso é especulação. O estudo não prova causalidade. Correlação entre ausência de bactérias e doenças modernas não é a mesma coisa que dizer que as bactérias previnem as doenças.
Então não devemos tentar recuperar essas bactérias?
Arrieta, que não participou do estudo, diz que não — pode haver riscos infecciosos. Melhor estudar quais funções específicas foram perdidas e tentar restaurá-las de forma segura.
Exatamente. É a diferença entre "voltar ao passado" e "entender o que perdemos e por quê".
The Pulse
- Um californiano médio carrega apenas 270 espécies bacterianas no intestino, enquanto um hadza da Tanzânia abriga cerca de 730 — uma diferença que representa séculos de erosão microbiana acelerada.
- Dietas ricas em açúcar e grãos refinados, uso massivo de antibióticos e alimentos ultraprocessados transformaram o ecossistema intestinal humano de forma irreversível nas últimas décadas.
- Pesquisadores identificaram padrões genéticos distintos nas bactérias compartilhadas por hadza e tsimane, confirmando que essas espécies habitam o intestino humano há dezenas de milhares de anos — e que as perdemos recentemente.
- Cientistas alertam que a tentativa de restaurar completamente o microbioma ancestral pode ser perigosa, dado o potencial infeccioso desconhecido de centenas de espécies ainda pouco estudadas.
- O caminho apontado pela ciência é compreender as funções específicas perdidas e buscar formas seguras de recuperá-las, sem romantizar um retorno integral ao passado microbiano.
Por dezenas de milhares de anos, o intestino humano coevoluiu com um ecossistema microbiano que a modernidade desfez em poucas décadas. Um estudo publicado na revista Nature revela que mais de 600 espécies bacterianas presentes nos ancestrais humanos desapareceram das populações industrializadas, deixando para trás um microbioma empobrecido que pode estar na raiz de alergias, demência e doenças crônicas contemporâneas. A descoberta, feita a partir da comparação entre caçadores-coletores da Tanzânia e da Bolívia com habitantes da Califórnia, nos convida a refletir sobre o preço silencioso do progresso — pago não apenas no ambiente externo, mas dentro de nós mesmos.
Há dezenas de milhares de anos, o intestino humano era lar de um ecossistema microbiano rico e estável. Hoje, mais de 600 dessas espécies bacterianas ancestrais desapareceram ou se tornaram raras nas populações industrializadas, segundo estudo publicado na revista Nature. A descoberta levanta questões inquietantes sobre a relação entre esse empobrecimento microbiano e o aumento de alergias, demência e doenças crônicas no mundo moderno.
A pesquisa, liderada por Justin Sonnenburg, da Universidade Stanford, comparou amostras de fezes de caçadores-coletores hadza, da Tanzânia, e tsimane, da Amazônia boliviana, com as de californianos. Os números são reveladores: enquanto um californiano médio carrega cerca de 270 espécies bacterianas, um hadza abriga aproximadamente 730. Ao analisar 636 das 848 espécies compartilhadas pelos dois povos tradicionais mas ausentes nas populações industrializadas, os cientistas encontraram mutações genéticas distintas em cada grupo — evidência de que essas bactérias coabitam o intestino humano há dezenas de milhares de anos.
A história desse declínio é também a história da modernidade. O cozimento com fogo, a agricultura, os antibióticos e os alimentos ultraprocessados foram, cada um a seu tempo, remodelando o ecossistema intestinal. Sonnenburg argumenta que as bactérias perdidas podem ter sido essenciais para treinar o sistema imunológico e sintetizar compostos vitais. O coautor Michael Gurven, antropólogo da Universidade da Califórnia, sugere que o microbioma ancestral pode explicar por que os tsimane parecem protegidos contra doenças cardíacas.
A cautela, porém, é parte central da mensagem científica. Marie-Claire Arrieta, da Universidade de Alberta, alertou que restaurar integralmente um microbioma de caçadores-coletores seria precipitado e potencialmente perigoso, dado o desconhecimento sobre o potencial infeccioso dessas espécies. O horizonte da pesquisa não é o retorno ao passado, mas a compreensão cuidadosa do que foi perdido — e de como recuperar funções específicas de forma segura.
Há dezenas de milhares de anos, o intestino humano abrigava um ecossistema microbiano estável e complexo. Hoje, mais de 600 espécies de bactérias que provavelmente viveram em nossos ancestrais desapareceram ou se tornaram raras nas populações dos países industrializados, segundo pesquisa publicada na revista Nature na última quarta-feira (7). O achado levanta questões perturbadoras sobre como essas mudanças podem estar contribuindo para o aumento de alergias, demência e outras doenças crônicas que definem a saúde moderna.
Pesquisadores liderados por Justin Sonnenburg, especialista em microbioma da Universidade Stanford, compararam amostras de fezes de dois grupos de caçadores-coletores que vivem em ambientes remotos: os hadza, da Tanzânia, e os tsimane, da Amazônia boliviana. Os números revelam a escala da transformação. Um californiano médio carrega aproximadamente 270 espécies bacterianas em seu intestino. Um hadza médio abriga cerca de 730. Mais significativo ainda é o tipo de bactéria: muitas das espécies encontradas nesses povos são raras ou completamente ausentes nos Estados Unidos e em outras nações industrializadas.
O que torna a descoberta particularmente robusta é a metodologia. Os pesquisadores identificaram 848 espécies compartilhadas pelos hadza e tsimane, mas ausentes nas populações industrializadas. Ao analisar 636 dessas espécies em detalhe, encontraram um padrão revelador: cada uma apresentava mutações distintas dependendo de ter sido encontrada entre os hadza ou os tsimane. Esse padrão genético sugeriu aos cientistas que essas bactérias habitavam o intestino de caçadores-coletores há dezenas de milhares de anos. Os hadza as mantêm até hoje porque preservam seu modo de vida ancestral. Os tsimane, cujos ancestrais migraram para as Américas há cerca de 15 mil anos pela ponte terrestre de Bering, desenvolveram suas próprias variações dessas mesmas espécies durante o isolamento geográfico.
A história evolutiva do microbioma humano é uma história de mudanças dietéticas e tecnológicas. Nossos primeiros ancestrais, semelhantes aos macacos, tinham um microbioma adaptado a plantas e carne crua. Centenas de milhares de anos atrás, quando começaram a cozinhar com fogo, o ecossistema intestinal mudou. Há cerca de 10 mil anos, a domesticação de plantas cultivadas provocou outra transformação. Mas as mudanças mais drásticas ocorreram nas últimas décadas. Bilhões de pessoas passaram a consumir alimentos ricos em açúcar e grãos refinados. Os antibióticos, que salvaram inúmeras vidas, também destruíram microrganismos benéficos no intestino. O resultado é um microbioma radicalmente diferente daquele para o qual o genoma humano evoluiu.
Sonnenburg argumenta que essas bactérias ancestrais podem ter sido cruciais para treinar o sistema imunológico ou sintetizar compostos que o corpo necessita. À medida que desapareceram nas sociedades modernas, outras ocuparam seu lugar, criando um ecossistema intestinal profundamente alterado. "Até que ponto pode ser prejudicial o fato de termos alterado tanto nossos microbiomas?", perguntou Sonnenburg. "Acho que este estudo indica que pode ser bastante prejudicial." Michael Gurven, antropólogo da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara e coautor do estudo, sugeriu que o microbioma ancestral pode ajudar a explicar por que os tsimane parecem estar protegidos contra doenças cardíacas e outras condições crônicas.
Mas a cautela é necessária. Marie-Claire Arrieta, cientista do microbioma da Universidade de Alberta que não participou da pesquisa, alertou que as pessoas em países industrializados não deveriam tentar simplesmente restaurar um microbioma de caçadores-coletores. Os cientistas ainda sabem pouco sobre essas 636 espécies bacterianas e os possíveis danos que poderiam causar. "Há um grande potencial infeccioso", afirmou Arrieta. Ela defendeu, em vez disso, o estudo cuidadoso dos efeitos benéficos que esses micróbios ancestrais podem ter, buscando maneiras de restaurar funções específicas perdidas sem tentar recriar completamente um microbioma do passado. O desafio agora é compreender quais dessas funções microbianas foram perdidas e como recuperá-las de forma segura.
Notable Quotes
Até que ponto pode ser prejudicial o fato de termos alterado tanto nossos microbiomas? Acho que este estudo indica que pode ser bastante prejudicial.— Justin Sonnenburg, Universidade Stanford
A ideia de que deveríamos voltar aos microbiomas ancestrais não faz muito sentido. Mas, sem dúvida, é importante estudá-los para compreender algumas dessas funções microbianas que foram perdidas.— Marie-Claire Arrieta, Universidade de Alberta