Com menos de seis meses para o início dos Jogos Olímpicos de Tóquio, o Japão deu o primeiro passo numa longa jornada de imunização, administrando as primeiras doses da vacina da Pfizer no Centro Médico de Tóquio em fevereiro de 2021. O país, que chegou a esta corrida com atraso em relação a outras grandes potências, carrega consigo uma desconfiança histórica em relação a vacinas estrangeiras e um processo de aprovação que privilegia a cautela sobre a velocidade. Imunizar 126 milhões de pessoas num ano é tanto uma promessa de saúde pública quanto uma aposta sobre o futuro de um evento que o mun
Japão inicia vacinação contra covid-19 a seis meses dos Jogos Olímpicos
Não estou a ter em conta os Jogos Olímpicos
Por que é que o Japão demorou tanto a começar a vacinar, comparado com o Reino Unido?
Tinha a ver com desconfiança histórica e processo rigoroso. O Japão exigia ensaios clínicos com participantes japoneses, e havia memória de campanhas anteriores que causaram efeitos secundários graves. Isso deixou marcas.
E os Jogos Olímpicos? Estava realmente em risco?
Tecnicamente, sim. Mas o Governo e o comité organizador nunca cederam publicamente. Disseram que aconteceria a 23 de julho, ponto final. Talvez fosse confiança, talvez fosse determinação política.
Qual era o maior obstáculo prático nos primeiros dias?
As agulhas. Parece uma coisa pequena, mas não era. As agulhas especiais conseguiam extrair seis doses de cada ampola. As seringas normais do Japão só conseguiam cinco. Isso afetava quantas pessoas podiam ser vacinadas.
E a população geral? Quando é que começaria a ser vacinada?
Só em junho ou julho. Primeiro os profissionais de saúde, depois os idosos. A população em geral teria de esperar até ao final da primavera, quando os Jogos estavam prestes a começar.
O ministro Kono disse algo interessante sobre não pensar nos Jogos.
Disse. Mas é difícil acreditar que não estava em mente. O timing era demasiado próximo. A vacinação da população geral coincidia com a abertura. Talvez fosse verdade que não era a prioridade declarada, mas estava lá, pairando sobre tudo.
Der Puls
- O relógio corre: faltam menos de seis meses para os Jogos Olímpicos e o Japão só agora começa a vacinar, com a população geral a aguardar até junho ou julho.
- O atraso de dois meses em relação ao Reino Unido expõe uma tensão antiga entre rigor regulatório e urgência pandémica, agravada por um ceticismo histórico sobre medicamentos estrangeiros.
- Até as agulhas se tornaram um obstáculo — as seringas convencionais japonesas extraem apenas cinco doses por ampola, quando seriam necessárias seis para maximizar o stock disponível.
- O ministro Taro Kono afastou publicamente qualquer ligação entre o calendário de vacinação e os Jogos Olímpicos, insistindo que a prioridade é a imunização sem pressas.
- Com cerca de 418 mil infetados e pouco mais de sete mil mortos, o Japão mantém números contidos, mas a terceira vaga do inverno lembra que a pandemia ainda não foi domada.
Com menos de seis meses para o início dos Jogos Olímpicos de Tóquio, o Japão deu o primeiro passo numa longa jornada de imunização, administrando as primeiras doses da vacina da Pfizer no Centro Médico de Tóquio em fevereiro de 2021. O país, que chegou a esta corrida com atraso em relação a outras grandes potências, carrega consigo uma desconfiança histórica em relação a vacinas estrangeiras e um processo de aprovação que privilegia a cautela sobre a velocidade. Imunizar 126 milhões de pessoas num ano é tanto uma promessa de saúde pública quanto uma aposta sobre o futuro de um evento que o mundo inteiro observa com incerteza.
Em fevereiro de 2021, o Japão iniciou a sua campanha de vacinação contra a covid-19, com as primeiras doses da vacina da Pfizer administradas no Centro Médico de Tóquio, no distrito de Meguro. O primeiro a receber a injeção foi Kazuhiro Araki, diretor do centro, que se voluntariou para encorajar outros. Nesse dia, doze profissionais de saúde foram vacinados; na semana seguinte, a campanha alargaria a cerca de cem centros em todo o país.
O objetivo era ambicioso: imunizar os 126 milhões de habitantes do país num ano. Mas o Japão chegou a esta etapa com um atraso notório — o Reino Unido tinha começado mais de dois meses antes. A aprovação tardia da Pfizer refletia um processo rigoroso que exige ensaios clínicos com participantes japoneses, aliado a uma desconfiança histórica em relação a medicamentos desenvolvidos no estrangeiro, alimentada por efeitos secundários graves em campanhas anteriores.
Houve também desafios logísticos imediatos. O stock de doses disponível era suficiente para vacinar cerca de 193 mil pessoas com as duas injeções necessárias — mas apenas se fossem usadas agulhas especiais capazes de extrair seis doses por ampola, ao contrário das seringas convencionais japonesas, que só conseguem cinco. O ministro responsável pela vacinação, Taro Kono, garantiu agulhas suficientes para os 40 mil profissionais de saúde da primeira fase, reconhecendo que seria necessário obter mais para o resto da população.
O plano avançava por fases: primeiro os profissionais de saúde da linha da frente, depois 3,7 milhões de trabalhadores do setor e 36 milhões de pessoas com mais de 65 anos a partir de março. A população geral só começaria a ser vacinada no final de junho ou julho — precisamente quando os Jogos Olímpicos, marcados para 23 de julho, estariam a arrancar. Kono foi direto: "Não estou a ter em conta os Jogos Olímpicos." O Governo e o comité organizador reafirmaram que o evento se realizaria conforme planeado, apesar das dúvidas persistentes sobre a sua viabilidade numa altura em que o país registava entre 1.300 e 1.400 novos casos diários.
Na quarta-feira de fevereiro, o Japão deu início à sua campanha de vacinação contra a covid-19, com as primeiras injeções administradas no Centro Médico de Tóquio, no distrito de Meguro. O país estabeleceu um objetivo ambicioso: imunizar toda a sua população de 126 milhões de pessoas no prazo de um ano. O timing era apertado. Faltavam menos de seis meses para a abertura dos Jogos Olímpicos, marcada para 23 de julho, um evento cuja realização tinha sido questionada repetidamente devido à pandemia.
A vacina aprovada era a da Pfizer, a única que o Japão tinha autorizado até esse momento. O primeiro a receber a injeção foi Kazuhiro Araki, diretor do centro médico, que se ofereceu voluntariamente para servir de exemplo e encorajar outros a seguir o seu caminho. Nesse primeiro dia, doze médicos e enfermeiros foram vacinados. A expansão estava planeada para a semana seguinte, com a vacinação a alastrar-se a cerca de cem centros de saúde em todo o país.
O atraso do Japão em relação a outras grandes potências era notório. O Reino Unido tinha começado a sua campanha mais de dois meses antes. A aprovação tardia da vacina da Pfizer refletia um processo rigoroso que exigia ensaios clínicos com participantes japoneses, mas também revelava uma desconfiança histórica em relação a medicamentos desenvolvidos no estrangeiro. Campanhas de vacinação anteriores tinham causado efeitos secundários graves, deixando marcas profundas na confiança pública.
Houve também questões práticas imediatas. O Japão tinha recebido doses suficientes para vacinar 193.050 pessoas com as duas injeções necessárias, mas apenas se utilizasse agulhas especiais que conseguiam extrair seis doses de cada ampola. As seringas convencionais usadas no país conseguiam apenas cinco. Taro Kono, o ministro responsável pela vacinação, garantiu que havia agulhas suficientes para os 40 mil profissionais de saúde que seriam os primeiros a receber a vacina, mas reconheceu que era necessário obter mais para cobrir toda a população.
O plano de vacinação foi estruturado em fases. Os 40 mil médicos e enfermeiros da linha da frente constituíram o primeiro grupo, servindo também como monitores dos efeitos das duas doses. Em março, seria a vez de cerca de 3,7 milhões de pessoas ligadas ao setor de saúde e aproximadamente 36 milhões de pessoas com mais de 65 anos. A população geral com mais de 16 anos só começaria a ser vacinada no final de junho ou julho, precisamente quando os Jogos Olímpicos estavam a começar.
Kono foi claro numa conferência de imprensa na véspera do lançamento: "Não estou a ter em conta os Jogos Olímpicos." A prioridade do Governo, sublinhou, era completar a imunização sem pressas ou sobressaltos. Tanto o Governo como o comité organizador dos Jogos tinham reafirmado publicamente que o evento se realizaria conforme planeado, apesar das dúvidas que pairavam sobre a sua viabilidade.
O Japão tinha negociado acordos com três empresas farmacêuticas: Pfizer, Moderna e AstraZeneca, garantindo doses suficientes para toda a população e mantendo reservas. Por enquanto, tinha excluído a aquisição de vacinas de outras empresas. Durante o inverno, o país tinha enfrentado a terceira vaga da pandemia, mas os números permaneciam significativamente mais baixos do que os de outras grandes economias. Nos dias anteriores ao início da vacinação, o Japão registava entre 1.300 a 1.400 novos casos diários. No total, desde o início da pandemia, contabilizava cerca de 418 mil infeções e 7.139 mortes, de acordo com a contagem independente da Universidade Johns Hopkins.
Bemerkenswerte Zitate
Não estou a ter em conta os Jogos Olímpicos. A prioridade do Governo é completar a imunização sem sobressaltos.— Taro Kono, ministro responsável pela vacinação
Temos agulhas suficientes para vacinar todos os 40 mil trabalhadores de saúde, mas estou determinado a obter agulhas suficientes para toda a vacinação.— Taro Kono