Isabel Mesquita: da ilha pequena ao palco internacional, entre engenharia e música

Tenho o meu trabalho, sou mãe e sou cantora. Não tenho que ser uma coisa só.
Isabel Mesquita sobre equilibrar engenharia, maternidade e música nos Açores.
Mark

Como é que uma rapariga de uma ilha pequena, sem escolas de música, consegue chegar a palcos internacionais?

Mimi

Não foi direto. Começou com guitarra, depois workshops locais, depois Lisboa, depois viagens. Cada passo abriu uma porta.

Luke

Mas há um salto entre os workshops de Santa Maria e estar em Nova Iorque ou Cuba. Como é que isso aconteceu? Ela estava a estudar engenharia, não era bolseira de música.

Mimi

Verdade. Ela mesma diz que o trabalho como controladora de tráfego aéreo lhe dá o conforto para fazer música. Portanto, a engenharia não foi um desvio — foi o que a sustentou.

Mark

E o disco Ilhéu? Funcionou?

Mimi

Teve divulgação, passou nas rádios, mas ela esperava mais concertos. Aprendeu que trabalhar sozinha era mais eficaz do que com uma agência.

Luke

Mas não sabemos quanto vendeu, quantas pessoas ouviram, qual foi o impacto real. Sabemos que passou nas rádios, mas isso é vago.

Mark

E agora, com Línguas de Fogo?

Mimi

É um projeto de quatro mulheres de ilhas diferentes, homenageando Natália Correia. Apresentaram o disco em março e abril.

Luke

Mas ela diz que está a reencontrar o seu lugar na vida artística. Isso soa a que o momentum parou um pouco.

Mimi

A maternidade mudou as prioridades. Ela tem vontade de fazer música, mas também sente vontade de se recatar. Não é incompetência — é conflito real.

Mark

Isso é honesto.

Mimi

É. E ela não quer que a música seja obrigação. Quer que seja criativa.

  • Crescer em Santa Maria sem escola de música obrigou Isabel a inventar o seu próprio caminho, começando com uma guitarra escondida debaixo da cama.
  • A tensão entre uma carreira exigente em engenharia e aviação e a paixão pelo jazz e blues nunca desapareceu — ela aprendeu a viver com as duas em simultâneo.
  • O disco 'Ilhéu' chegou a todas as ilhas dos Açores, mas a experiência com uma agência revelou que a autonomia artística vale mais do que a estrutura comercial.
  • O grupo 'Línguas de Fogo', formado por quatro mulheres separadas por ilhas e oceano, transformou a poesia de Natália Correia em concertos que percorreram o arquipélago.
  • A maternidade trouxe um novo silêncio interior — um desejo de recato que colide com a exposição que a vida artística exige, e Isabel ainda procura onde se situar nessa tensão.

Numa ilha pequena onde a música tinha de ser encontrada antes de poder ser aprendida, Isabel Mesquita construiu uma vida que recusa a escolha entre o útil e o belo. Controladora de tráfego aéreo, mãe e cantora açoriana, ela percorreu Cabo Verde, Nova Iorque e Cuba não como turista, mas como aprendiz do mundo — regressando sempre ao arquipélago com mais harmonia para oferecer. O seu percurso é o de quem entende que a arte não precisa de ser profissão para ser vocação, e que o equilíbrio não é um destino, mas uma prática contínua.

Isabel Mesquita cresceu em Santa Maria numa época em que a ilha não tinha escola de música. A arte chegou-lhe de forma discreta — uma guitarra debaixo da cama, atividades nos escuteiros, workshops de teatro e voz. Foi um workshop de blues organizado pela Associação Escravos da Cadeinha que abriu a porta ao seu primeiro grupo, o IziBlues, e a um universo de jazz e improvisação que nunca mais largou.

Aos dezassete anos partiu para Lisboa estudar Engenharia Aeroespacial no IST, optando por não frequentar uma escola de música em simultâneo — uma decisão que mais tarde lamentaria. Ainda assim, continuou com aulas particulares e acabou por ingressar numa escola de jazz que transformou a sua compreensão da música: mais do que um estilo, o jazz era uma gramática de harmonia e liberdade criativa.

As viagens que se seguiram — Cabo Verde, Nova Iorque, Cuba, Panamá, Espanha — foram deliberadas e formativas. Foi em Cabo Verde que conheceu o produtor Yami Aloelela, com quem gravou 'Ilhéu' em 2019, um disco de dez canções que chegou às lojas FNAC, às rádios e a todas as ilhas dos Açores. A experiência com uma agência de agenciamento ensinou-lhe que a autonomia na divulgação valia mais do que qualquer estrutura externa.

Dois anos atrás, numa residência artística no Pico Zen Festival, Isabel conheceu três músicas com quem formou 'Línguas de Fogo', um projeto feminino de homenagem à poesia de Natália Correia. Apesar de cada uma viver numa ilha diferente, o grupo gravou e apresentou o disco 'Celebrar Natália Correia' em São Miguel, Santa Maria e Pico, com uma nova data marcada para Angra do Heroísmo a 25 de outubro.

Hoje, Isabel é controladora de tráfego aéreo, mãe e cantora — e não quer abdicar de nenhuma dessas identidades. O trabalho dá-lhe estabilidade para fazer a música que quer, sem que esta se torne obrigação. A maternidade trouxe menos tempo e um impulso de recato que contraria a exposição exigida pela vida artística. Entre o palco da Maré de Agosto em Santa Maria e os espaços intimistas do Corvo ou de São Jorge, Isabel continua a procurar o seu ponto de equilíbrio — sabendo que encontrá-lo é, em si mesmo, uma forma de arte.

Isabel Mesquita cresceu em Santa Maria, uma ilha pequena onde as oportunidades de formação artística eram escassas. Durante toda a sua escolaridade, desde o quinto ano até ao décimo segundo, frequentou a mesma escola. Não havia escolas de música na ilha quando ela era jovem, embora tivessem surgido depois. A música chegou a ela através de uma guitarra que guardava debaixo da cama, tocando quando havia atividades nos escuteiros ou quando a vontade a impelia. Com o tempo, participou em workshops de teatro e voz, incluindo uma formação com a professora Paula Oliveira e um workshop de blues organizado pela Associação Escravos da Cadeinha. Foram estas iniciativas locais que abriram o caminho para projetos mais ambiciosos. Do workshop de blues nasceu o seu primeiro grupo, IziBlues, um projeto que explorava jazz e blues em formações de ensemble.

Aos dezassete anos, deixou Santa Maria para estudar Engenharia Aeroespacial no Instituto Superior Técnico, em Lisboa. Tinha considerado frequentar uma escola de música, mas decidiu que um curso tão exigente não podia ser acompanhado por outra formação igualmente intensiva. Ainda assim, continuou com aulas particulares de canto. Mais tarde, ingressou numa escola de jazz que a marcou profundamente. Compreendeu então que o jazz oferecia muito mais do que um estilo musical: era uma escola de harmonia e improvisação aplicável a qualquer género, e permitia participar em jam sessions com músicos desconhecidos, criando música em conjunto naquele momento único. Arrependeu-se de não ter começado mais cedo.

Durante os seus anos em Lisboa e depois, viajou por Cabo Verde, Nova Iorque, Cuba, Panamá e Espanha, participando em workshops, palestras, concertos e jam sessions. Estas viagens não eram apenas turismo: ela procurava ativamente formação para enriquecer o seu trajeto artístico. Absorveu culturas diferentes, conheceu músicos com identidades próprias, e foi numa viagem a Cabo Verde que encontrou o seu produtor, Yami Aloelela. Estas experiências internacionais alimentaram o desejo de criar algo seu na música.

Em 2019, lançou o seu primeiro disco, Ilhéu, com dez canções. O projeto foi realizado enquanto trabalhava com uma agência de agenciamento. O disco obteve divulgação nas lojas FNAC e passou nas rádios, mas em termos de concertos, as expectativas não foram plenamente satisfeitas. Mesquita percebeu que, trabalhando sozinha e em contacto direto com promotores de concertos, conseguia divulgar melhor o seu trabalho e ter maior flexibilidade de equipa. Apesar disso, conseguiu levar Ilhéu a todas as ilhas dos Açores, umas vezes a solo, outras com a sua banda.

Há dois anos, durante uma residência artística no Pico Zen Festival, conheceu Sara Miguel, Giana de Toni e Antonella Barletta. A vontade de formar um grupo exclusivamente feminino sobrepôs-se ao desafio de estarem separadas por um mar imenso, cada uma vivendo numa ilha diferente. Nasceu assim Línguas de Fogo, um projeto de homenagem à poesia de Natália Correia. Em março e abril deste ano, o grupo apresentou o seu disco de estreia, Celebrar Natália Correia, nas ilhas de São Miguel, Santa Maria e Pico. No concerto em Santa Maria, Mesquita sentiu-se muito feliz por ter concretizado um trabalho que foi intenso. O grupo voltaria a reunir-se na ilha Terceira a 25 de outubro para apresentar o disco no Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo.

Atualmente, Mesquita trabalha como controladora de tráfego aéreo, é mãe e é cantora. Não quer ser apenas uma coisa. O seu trabalho oferece-lhe o conforto financeiro necessário para desenvolver a música que deseja, sem que esta se torne uma obrigação. A maternidade trouxe novos desafios, menos tempo e outras prioridades. Ainda está a reencontrar o seu lugar na vida artística, pois sente simultaneamente uma vontade imensa de fazer música e um impulso para se recatar, algo que não é compatível com a exposição que a divulgação artística exige. Procura um ponto de equilíbrio. De todos os palcos que pisou, o da Maré de Agosto em Santa Maria foi um sonho tornado realidade. Mas também guarda carinho especial pelos espaços intimistas onde se apresentou a solo, como o largo do Outeiro na ilha do Corvo e a Casa Grão de Café em São Jorge. Estas experiências foram importantes para o seu crescimento pessoal e artístico.

O jazz é uma escola fantástica. São escolas de harmonia e improvisação que depois podemos aplicar a qualquer estilo, a qualquer música.
— Isabel Mesquita
O meu trabalho traz-me todo o conforto necessário para poder desenvolver a música que quero.
— Isabel Mesquita
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