Ibovespa tem nova semana “sangrenta”: mercado passou a precificar eleições de vez?

O mercado começou a precificar, mas está longe de ter terminado
André Matos, CEO da MA7 Capital, sobre o estágio inicial da precificação eleitoral no mercado brasileiro.
Mark

Por que o mercado começou a precificar as eleições agora, se faltam ainda dois meses para outubro?

Mimi

Porque a proximidade muda a natureza do risco. No primeiro semestre, havia muita coisa acontecendo globalmente — IA, fluxos de capital. Agora, com eleições tão perto, o mercado precisa tomar decisões sobre alocação. Não dá mais para ignorar.

Mark

Mas as pesquisas apontam para uma vitória clara de Lula. Por que isso não tranquiliza os investidores?

Mimi

Porque não é só sobre quem vence. É sobre o que o vencedor fará com as contas públicas. O mercado quer ouvir compromissos claros sobre o fiscal, e em período eleitoral ninguém faz promessas que assustem a base.

Mark

A fuga de capital estrangeiro é permanente ou tática?

Mimi

Tática. O fluxo do ano ainda está positivo em R$ 22,8 bilhões. O que está acontecendo agora é que o dinheiro está escolhendo outros lugares — tecnologia americana, por exemplo — porque lá a história é mais clara.

Mark

E a guerra comercial com os EUA? Isso é blefe ou risco real?

Mimi

O risco real está na escalada. A reciprocidade em si é negociação. Mas se virar uma guerra de tarifas, produtos americanos ficam mais caros aqui, insumos importados encarecem, margens caem. Aí o mercado reage de verdade.

Mark

Quando o mercado vai parar de precificar risco e voltar a comprar?

Mimi

Provavelmente em setembro, quando as pesquisas consolidarem tendências. Se Lula mantiver a liderança e não houver escalada comercial, o mercado respira. Se houver surpresa, aí a volatilidade continua.

  • A saída de R$ 13,5 bilhões em capital estrangeiro apenas em agosto revela que investidores internacionais estão reduzindo exposição ao Brasil de forma coordenada e acelerada.
  • A disputa comercial com os EUA abriu duas frentes simultâneas — bilateral e na OMC — e cada nova manchete se traduz imediatamente em pressão sobre o câmbio e os juros longos.
  • O ciclo de euforia com inteligência artificial nos mercados americanos drena liquidez do Brasil: quando o S&P e o Nasdaq sobem, o Ibovespa tende a ficar para trás.
  • Grandes bancos sinalizaram aumento de inadimplência e o JPMorgan rebaixou o Brasil para neutro, argumentando que o ciclo de corte da Selic está próximo do fim.
  • Analistas alertam que a precificação eleitoral ainda está no início — setembro, com pesquisas mais consolidadas, deve intensificar a volatilidade nos ativos brasileiros.

Em meio à aproximação das eleições de outubro, o Ibovespa acumula queda de 7% na primeira quinzena de agosto, refletindo a confluência de três forças que raramente se alinham ao mesmo tempo: a precificação do risco político doméstico, a rotação global de capital em direção à tecnologia americana e a tensão diplomática com os Estados Unidos. O mercado não está em pânico, mas está em espera — e essa espera tem um preço que os investidores pagam a cada pregão.

A Bolsa brasileira encerrou mais uma semana no vermelho. O Ibovespa acumulou queda de 4% nos últimos cinco pregões e de 7% na primeira quinzena de agosto, pressionado por uma combinação de fatores que raramente se apresentam juntos com tanta intensidade.

O movimento mais visível é a saída de capital estrangeiro. Só em agosto, investidores internacionais retiraram mais de R$ 13,5 bilhões da B3, incluindo R$ 1,632 bilhão em um único dia. O fluxo acumulado do ano ainda é positivo em R$ 22,8 bilhões, o que sugere uma retirada tática, não uma ruptura definitiva — mas o ritmo recente preocupa.

Três forças explicam o momento. A primeira é o calendário eleitoral: faltam menos de dois meses para outubro, e o mercado quer saber qual será o desenho fiscal do próximo governo. Kevin Oliveira, da Blue3, resume o dilema: há pouca clareza em pleno período eleitoral, e as principais gestoras optaram por atravessar esse intervalo com o mínimo de risco em ativos brasileiros. A segunda força é a inteligência artificial. Quando a confiança no ciclo de IA cresce, o capital migra para tecnologia americana — e agosto tem sido um mês forte para S&P e Nasdaq, o que penaliza mercados emergentes como o Brasil.

A terceira força é a tensão comercial com os Estados Unidos. O governo brasileiro abriu processo para aplicar a Lei da Reciprocidade em resposta à tarifa americana de 25% sobre produtos brasileiros, atuando simultaneamente na via bilateral e na OMC. Especialistas alertam que tarifas sobre importações americanas podem pressionar insumos, margens e inflação — e que cada nova manchete nessa frente aparece primeiro no câmbio e depois nos juros longos.

André Matos, da MA7 Capital, sintetiza o quadro: o mercado começou a precificar as eleições, mas está longe de terminar. No último mês, a bolsa brasileira caiu cerca de 5% enquanto as americanas subiram. Separar o prêmio eleitoral do prêmio diplomático é quase impossível, porque os dois atingem os mesmos ativos ao mesmo tempo. A expectativa é de que setembro, com pesquisas eleitorais mais definidas, intensifique ainda mais essa dinâmica.

A temporada de balanços trouxe sinais adicionais de fraqueza: grandes bancos reportaram aumento de inadimplência em algumas linhas, e o JPMorgan rebaixou o Brasil de overweight para neutro, citando o fim próximo do ciclo de corte da Selic e a desaceleração da atividade. O mercado está em espera — e essa incerteza é o que mais pesa sobre os investidores.

A Bolsa brasileira vive mais uma semana de perdas significativas. O Ibovespa caiu cerca de 4% apenas nesta semana, acumulando uma queda de 7% na primeira quinzena de agosto. Os números refletem um mercado sob pressão de múltiplas frentes, mas há um fio condutor que começa a ganhar clareza: o Brasil está precificando suas eleições.

Na quarta-feira anterior à publicação desta análise, investidores estrangeiros retiraram R$ 1,632 bilhão da B3. O movimento faz parte de um êxodo maior. Apenas em agosto, a saída de capital externo já ultrapassa R$ 13,5 bilhões. Apesar disso, o fluxo acumulado do ano permanece positivo em R$ 22,8 bilhões, o que sugere que a debandada recente é um desvio tático, não uma reversão estrutural.

Para os analistas que acompanham o mercado, três fatores se entrelaçam neste momento. O primeiro é o calendário eleitoral. Faltam menos de dois meses para outubro, quando o país escolherá seu próximo presidente. A proximidade do pleito elevou a sensibilidade dos mercados a tudo que diz respeito às contas públicas e à direção da política econômica nos próximos anos. Kevin Oliveira, sócio da Blue3, resume a preocupação: o mercado quer saber se haverá um novo desenho fiscal para o Brasil, mas encontra pouca clareza em pleno período eleitoral. Entre as principais gestoras locais, prevalece a expectativa de que Lula será reconduzido à presidência, e também a decisão de atravessar este período com o mínimo de risco possível em ativos brasileiros.

O segundo fator é a inteligência artificial. Desde o início do ano, a disputa global por recursos tem girado em torno da tecnologia. Quando a confiança no ciclo de IA enfraquece, o capital busca ativos mais tradicionais e físicos, o que beneficia o Brasil. Quando essa confiança volta a crescer, como ocorre agora, o dinheiro sai daqui e retorna para a tecnologia americana. Agosto está sendo positivo nos mercados internacionais, especialmente para S&P e Nasdaq, graças aos bons resultados das empresas americanas e às expectativas renovadas no setor de tecnologia. Esses momentos tendem a ser piores para o Brasil.

O terceiro fator é a tensão comercial com os Estados Unidos. O governo brasileiro abriu processo para aplicar a Lei da Reciprocidade em resposta à tarifa de 25% imposta pelos americanos sobre produtos brasileiros. Embora o movimento seja visto inicialmente como instrumento de negociação, especialistas alertam para o risco de escalada. Tarifas sobre produtos americanos podem encarecer insumos, máquinas, tecnologia e componentes importados, pressionando margens e inflação. O governo não adotou medidas retaliatórias imediatas, mas abriu duas frentes simultâneas, uma bilateral e outra junto à Organização Mundial do Comércio. Cada frente gera manchete, e manchete de risco político costuma aparecer primeiro no câmbio e depois na ponta longa da curva de juros.

André Matos, CEO da MA7 Capital, oferece uma perspectiva útil: o mercado começou a precificar as eleições, mas está longe de ter terminado. O sinal está no descolamento. No último mês, a bolsa brasileira caiu perto de 5% enquanto as americanas subiram. Separar hoje o prêmio eleitoral do prêmio diplomático é quase impossível, porque os dois batem no mesmo ativo ao mesmo tempo. A precificação eleitoral tende a ganhar ainda mais intensidade a partir de setembro, quando as pesquisas começarem a consolidar tendências mais claras.

Outros sinais de fraqueza vieram da temporada de balanços. Os resultados dos grandes bancos trouxeram sinais de aumento de inadimplência em algumas linhas e reforçaram dúvidas sobre a trajetória da economia em um ambiente de juros ainda elevados. O JPMorgan reduziu sua recomendação para o Brasil de overweight para neutra, argumentando que o ciclo de queda da Selic está perto do fim, a atividade econômica desacelera e a volatilidade eleitoral tende a aumentar até outubro.

Para os analistas, todos esses ingredientes acabam por pesar negativamente no mercado, mas os fatores domésticos passaram a ter peso crescente. O risco fiscal segue sendo o principal fator estrutural para os ativos brasileiros, enquanto a disputa comercial adiciona volatilidade e pode ampliar os prêmios de risco. O mercado está em espera, tentando ler sinais que ainda não estão claros, e essa incerteza é o que mais custa aos investidores.

O mercado está cada vez mais preocupado com o fiscal, com o discurso dos candidatos à Presidência. Está na dúvida se realmente haverá um novo desenho fiscal para o Brasil
— Kevin Oliveira, sócio e advisor da Blue3
Diria que o mercado começou a precificar, mas está longe de ter terminado. O sinal está no descolamento, porque no último mês a bolsa brasileira caiu perto de 5% enquanto as americanas subiram
— André Matos, CEO da MA7 Capital
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