Braskem salta 8% e cai 7,7% após lucro de R$ 3,33 bi; mercado teme reestruturação

O mercado não enxerga uma luz no fim do túnel
Analista resume por que investidores ignoraram resultado positivo e focaram na incerteza sobre reestruturação de dívidas.
Mark

Por que um resultado tão forte não conseguiu sustentar a alta das ações?

Mimi

Porque o mercado não está apostando nos números trimestrais. Está apostando em como a empresa vai sair de um buraco de mais de US$ 10 bilhões em dívidas. Um trimestre bom não resolve isso.

Mark

Mas a alavancagem caiu significativamente, de 18 vezes para 6,7 vezes. Isso não é um sinal positivo?

Mimi

É, mas é enganoso. A dívida líquida ainda subiu US$ 177 milhões no trimestre. O fluxo de caixa está sendo consumido por juros, capital de giro, estoques. A empresa não está gerando caixa suficiente para respirar.

Mark

Então o novo presidente está mentindo quando diz que as negociações estão avançando bem?

Mimi

Não está mentindo, mas está sendo cuidadoso. Ele precisa manter os credores engajados. O que ele não diz é quando isso vai terminar, em que termos, ou se a empresa vai precisar de uma recuperação extrajudicial.

Mark

E se a recuperação extrajudicial acontecer? O que muda para os acionistas?

Mimi

Tudo. Os credores têm prioridade. Os acionistas podem ser diluídos drasticamente ou perder quase tudo. Por isso o papel cai quando há incerteza sobre isso.

Mark

A melhora dos spreads petroquímicos não pode salvar a empresa?

Mimi

Pode ajudar, mas não é suficiente. Os spreads já começaram a cair no final do trimestre. E mesmo que subissem, a Braskem está operando com capacidade reduzida — no México, apenas 43% de utilização. Não tem como gerar caixa suficiente com a estrutura que tem.

  • Lucro líquido de R$ 3,33 bilhões no Q2 2026, revertendo prejuízo de R$ 267 milhões
  • Dívida líquida em US$ 8,66 bilhões, com aumento de US$ 177 milhões no trimestre
  • Ação caiu 7,68% apesar de Ebitda superar consenso de mercado em 13%
  • Recuperação extrajudicial de mais de US$ 10 bilhões em discussão avançada

Lucro líquido de R$ 3,33 bi reverteu prejuízo anterior e Ebitda recorrente superou consenso de mercado em 13%. Dívida líquida permanece elevada em US$ 8,66 bi e spreads petroquímicos começam a perder força, sinalizando piora sequencial.

Braskem registrou lucro de R$ 3,33 bi no Q2 2026, superando expectativas, mas ações caíram 7,7% devido a preocupações com endividamento e incerteza sobre reestruturação financeira.

Na sexta-feira, 14 de agosto, as ações da Braskem viveram um dia de extremos. Pela manhã, o papel subiu 8%, impulsionado por um resultado trimestral que superou as expectativas do mercado. Mas conforme o pregão avançava, os ganhos desapareceram. Ao fechamento, a ação caía 7,68%, cotada a R$ 4,93, depois de ter tocado uma queda de 12% durante o dia. O movimento refletia uma tensão profunda: os números eram bons, mas o mercado não conseguia enxergar uma saída clara para os problemas estruturais da petroquímica.

No segundo trimestre de 2026, a Braskem registrou lucro líquido de R$ 3,33 bilhões, revertendo um prejuízo de R$ 267 milhões no mesmo período do ano anterior. O Ebitda recorrente atingiu US$ 1,04 bilhão, superando em 13% o consenso de mercado. A recuperação foi alimentada pela melhora dos spreads petroquímicos globais durante o trimestre, beneficiada pelas tensões geopolíticas entre Estados Unidos e Irã que elevaram os preços ao longo da cadeia. Tudo isso deveria ter sido celebrado. Mas o mercado olhava além do trimestre.

Os analistas apontavam sinais de alerta. Os spreads petroquímicos começaram a perder força no final do segundo trimestre, sugerindo que os próximos resultados poderiam ser menos robustos. O volume de vendas totalizou 2,22 milhões de toneladas, queda de 2% em relação ao trimestre anterior e de 7% comparado ao mesmo período do ano passado. No México, a situação era particularmente preocupante: a Braskem Idesa operava com taxa de utilização de apenas 43%, priorizando a preservação de liquidez.

Mas o verdadeiro incômodo estava na estrutura de capital. Embora a alavancagem tivesse recuado de 18,18 vezes para 6,74 vezes dívida líquida/Ebitda nos últimos 12 meses, a dívida líquida avançou US$ 177 milhões no trimestre, chegando a US$ 8,66 bilhões. O fluxo de caixa livre continuava pressionado pelo consumo de capital de giro, aumento de estoques, investimentos, pagamento de juros e desembolsos relacionados ao acordo de Alagoas. Para muitos investidores, esses números revelavam uma empresa que ainda não havia resolvido seus problemas fundamentais.

Otavio Faria, analista de renda fixa da Eleven Financial, explicou a reação do mercado de forma direta: o desempenho operacional foi positivo, mas o foco dos investidores estava concentrado nas discussões sobre uma possível reestruturação das dívidas. A forte volatilidade do papel mostrava que a tese de investimento estava muito mais associada a eventos corporativos do que aos fundamentos de curto prazo da petroquímica. Os investidores monitoravam diferentes cenários, desde uma negociação direta com credores até alternativas mais amplas de reestruturação. Enquanto não houvesse maior clareza, a tendência era de manutenção da elevada volatilidade.

Josias Bento, especialista em mercado de capitais e sócio da GT Capital, resumiu o sentimento: apesar de a companhia ter apresentado números superiores às expectativas e revertido o prejuízo registrado um ano antes, os investidores continuavam sem enxergar uma solução definitiva para os desafios financeiros. A Braskem ainda lutava com o cenário de possível recuperação judicial. Mesmo com resultados melhores que a expectativa, o mercado não enxergava uma luz no fim do túnel.

Em teleconferência após a divulgação dos resultados, a nova administração da Braskem, eleita em junho após a gestora IG4 adquirir a participação de controle antes detida pela Novonor, afirmou que as negociações com credores bancários e detentores de títulos estavam evoluindo positivamente. Carlos Augusto Brandão, novo diretor financeiro, disse que o processo estava avançando bem e que as conversas eram construtivas, com objetivo de negociação consensual. Helcio Tokeshi, novo presidente-executivo, enfatizou que a gestão mantinha visão de longo prazo, mas buscava equilibrar essa perspectiva com as necessidades de curto prazo para solucionar a estrutura de capital.

Por trás das falas cautelosas estava uma realidade mais urgente. Segundo informações divulgadas à Reuters, a Braskem estava em discussões avançadas para um potencial pedido de recuperação extrajudicial, que poderia ser protocolado ainda naquele mês, visando equacionar mais de US$ 10 bilhões em dívidas em suas operações no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa. Era esse cenário que explicava a queda das ações no final do pregão — não a incapacidade de gerar lucro, mas a incerteza sobre como a empresa resolveria seus passivos gigantescos.

A ação chegou a subir forte após o resultado, mas devolveu os ganhos. O mercado está tentando entender qual será o próximo passo da companhia
— Otavio Faria, analista de renda fixa da Eleven Financial
A Braskem ainda luta com o cenário de possível recuperação judicial. Mesmo com resultados melhores do que a expectativa do mercado, o mercado ainda não enxerga uma luz no fim do túnel
— Josias Bento, especialista em mercado de capitais e sócio da GT Capital
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