Hipotireoidismo aumenta risco de apneia do sono, aponta pesquisa brasileira

Pacientes com hipotireoidismo sofrem fragmentação do sono, despertares noturnos frequentes e apneia obstrutiva, comprometendo qualidade de vida e aumentando riscos cardiovasculares.
Duas condições distintas que podem potencializar riscos cardiovasculares
Pesquisadora explica por que tratar hipotireoidismo não dispensa avaliação específica da apneia do sono.
Mark

Por que essa descoberta importa agora? Hipotireoidismo e apneia já não eram conhecidos?

Mimi

Conheciam-se separadamente. O que é novo é a força da conexão — encontraram apneia em 50% dos pacientes com hipotireoidismo, não 30 ou 40% como a literatura sugeria. E mais importante: descobriram que a relação funciona nos dois sentidos.

Mark

Nos dois sentidos? Quer dizer que apneia causa hipotireoidismo?

Mimi

Exatamente. Ou pelo menos contribui para ele. A qualidade ruim do sono e a apneia grave estavam associadas a uma probabilidade maior de hipotireoidismo. Ninguém sabe ainda qual vem primeiro, mas elas se alimentam mutuamente.

Mark

E se um paciente trata apenas o hipotireoidismo com reposição hormonal, a apneia desaparece?

Mimi

Melhora, sim. O sono fica melhor, mais profundo. Mas não desaparece. Os pesquisadores foram claros: tratar uma condição não substitui tratar a outra. São distintas, mesmo que se influenciem.

Mark

Então o médico precisa estar atento a ambas ao mesmo tempo?

Mimi

Precisa. E aí está o problema real. Hoje, quando alguém chega reclamando de cansaço, o médico raramente investiga o sono de forma aprofundada. Pode ser hipotireoidismo, pode ser apneia, pode ser as duas. Sem investigar, fica impossível saber.

Mark

Isso significa que muitas pessoas estão sendo tratadas pela metade?

Mimi

Muito provavelmente. Alguém recebe reposição hormonal, sente-se um pouco melhor, mas continua acordando à noite e cansado. O médico pode achar que o tratamento não está funcionando bem, quando na verdade há um segundo problema não diagnosticado.

Mark

Qual é o risco real de deixar as duas condições sem tratamento?

Mimi

Cardiovascular, principalmente. Apneia aumenta pressão arterial, afeta o coração. Hipotireoidismo desacelera o metabolismo e afeta o sistema cardiovascular também. Juntas, potencializam esses riscos. É por isso que investigar a interação entre elas é tão importante.

  • Cerca de metade dos pacientes com hipotireoidismo avaliados pela Unifesp também apresentava apneia do sono, taxa que supera os 30–40% descritos na literatura internacional e surpreendeu os próprios pesquisadores.
  • Quanto mais alto o TSH — indicador de tireoide em colapso —, mais grave a apneia: a disfunção hormonal e a fragmentação do sono parecem escalar juntas, amplificando riscos cardiovasculares e metabólicos.
  • A relação identificada é bidirecional: não só o hipotireoidismo agrava a apneia, como características de sono ruim também aumentam a probabilidade de hipotireoidismo, criando um ciclo que nenhum tratamento isolado consegue romper completamente.
  • A reposição hormonal melhora a duração e a profundidade do sono, mas os pesquisadores alertam que isso não substitui a investigação e o tratamento específico da apneia — são duas condições distintas que exigem atenção simultânea.
  • O estudo expõe uma lacuna persistente na prática clínica: o sono raramente é investigado de forma aprofundada nas consultas, mesmo quando o paciente chega com queixas de cansaço e sonolência que podem ter origem em ambas as condições.

No cruzamento entre a endocrinologia e a medicina do sono, uma pesquisa brasileira lança luz sobre uma conexão há muito subestimada: pessoas com hipotireoidismo enfrentam apneia obstrutiva do sono com frequência e gravidade acima do esperado, e as duas condições parecem alimentar-se mutuamente. O estudo da Unifesp, publicado na revista Sleep, convida a medicina a abandonar o olhar fragmentado sobre o corpo e a reconhecer que o sono — tão fundamental quanto qualquer órgão — raramente adoece sozinho.

Uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo revelou que a ligação entre hipotireoidismo e apneia obstrutiva do sono é mais intensa do que a medicina supunha. Publicado na revista Sleep, o estudo acompanhou pacientes com disfunção da tireoide e descobriu que aproximadamente metade deles também sofria de apneia — distúrbio em que as vias respiratórias colapsam repetidamente durante a noite, causando despertares involuntários e sono fragmentado.

O número surpreendeu a própria equipe. Ellen Maria Sampaio Xerfan, primeira autora do trabalho, explicou que a literatura internacional aponta prevalência de 30% a 40% de apneia em hipotireoideos. Encontrar quase 50% foi inesperado. O hipotireoidismo, que afeta entre 4% e 8% da população, ocorre quando a tireoide produz hormônios insuficientes para regular metabolismo, temperatura e energia — gerando sintomas como cansaço, sonolência, ganho de peso e dificuldade de concentração.

Os dados revelaram um padrão consistente: quanto mais elevados os níveis de TSH, maior a gravidade da apneia. Mais revelador ainda foi o caráter bidirecional da relação — características de sono ruim também estavam associadas a maior probabilidade de hipotireoidismo, sugerindo que as duas condições se influenciam mutuamente e podem potencializar riscos cardiovasculares.

Monica Levy Andersen, orientadora do estudo, destacou que essa interação raramente é investigada na prática clínica. Pacientes chegam aos consultórios com queixas de cansaço e sonolência, mas o sono quase nunca é avaliado com profundidade. O estudo mostrou ainda que a reposição hormonal melhora a duração e a qualidade do sono — mas não dispensa o tratamento específico da apneia. Para os pesquisadores, a principal lição é a necessidade de um olhar integrado: tratar uma condição sem investigar a outra pode deixar o paciente preso em um ciclo que nenhuma intervenção isolada consegue romper.

Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de São Paulo revelou uma conexão mais forte do que se esperava entre hipotireoidismo e apneia obstrutiva do sono. O estudo, publicado em maio na revista Sleep, acompanhou pacientes com disfunção da tireoide e descobriu que aproximadamente metade deles também apresentava apneia — um distúrbio em que as vias respiratórias colapsam repetidamente durante a noite, interrompendo a respiração e causando pequenos despertares involuntários.

Esse número surpreendeu os próprios pesquisadores. Ellen Maria Sampaio Xerfan, pós-doutoranda no Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina e primeira autora do trabalho, explicou que a literatura internacional costuma apontar uma prevalência entre 30% e 40% de apneia em pessoas com hipotireoidismo. "Esperávamos um resultado considerável, mas encontramos praticamente metade dos participantes com as duas condições", disse ela. O hipotireoidismo em si afeta entre 4% e 8% da população geral e ocorre quando a tireoide, glândula localizada no pescoço, não produz hormônios suficientes para regular funções essenciais como metabolismo, temperatura corporal e gasto energético. Os sintomas incluem cansaço persistente, sonolência diurna, ganho de peso, queda de cabelo, pele seca e dificuldade de concentração.

Os dados do estudo mostraram um padrão claro: pessoas com hipotireoidismo dormiam de forma mais fragmentada, acordavam mais vezes durante a noite e apresentavam apneia mais grave. Quanto mais elevados estavam os níveis de TSH — o hormônio usado para avaliar o funcionamento da tireoide — maior era a probabilidade de a pessoa sofrer formas mais severas de apneia. Além disso, o trabalho identificou algo particularmente relevante: a relação parecia funcionar nos dois sentidos. Características associadas a sono de pior qualidade e apneia mais grave também estavam ligadas a uma probabilidade maior de hipotireoidismo, sugerindo que as duas condições podem influenciar-se mutuamente.

Monica Levy Andersen, professora da EPM-Unifesp e orientadora do estudo, enfatizou que esses achados revelam uma lacuna importante na prática clínica atual. "Quando um paciente procura atendimento, raramente o sono é investigado de forma aprofundada", observou. Muitos pacientes relatam cansaço, alterações metabólicas ou outros sintomas sem que os médicos considerem a possibilidade de um distúrbio do sono estar contribuindo para o quadro geral. Essa situação reflete uma mudança relativamente recente na medicina: há poucas décadas, os distúrbios do sono recebiam pouca atenção durante a formação dos profissionais de saúde. Hoje, porém, cresce o reconhecimento de que problemas relacionados ao sono podem influenciar desde doenças cardiovasculares e metabólicas até alterações hormonais, imunológicas e cognitivas.

O estudo também mostrou que pacientes que fazem reposição hormonal para tratar o hipotireoidismo conseguem dormir mais e alcançam períodos mais longos de sono profundo. Isso levanta uma questão importante: se tratar o hipotireoidismo melhora alguns aspectos do sono, seria necessário tratar também a apneia? Segundo Monica, a resposta é sim. As evidências sugerem que o tratamento do hipotireoidismo pode contribuir para a melhora de alguns parâmetros do sono, mas isso não dispensa a avaliação e o tratamento específico da apneia do sono. "São duas condições distintas, que podem interagir e potencializar riscos cardiovasculares", afirmou.

Para os pesquisadores, a principal mensagem é a importância de investigar essa interação de forma integrada. Muitas vezes o profissional está atento a um problema, mas não considera a possibilidade de o outro estar presente ao mesmo tempo. Esse olhar mais amplo poderia mudar significativamente o manejo clínico de pacientes que chegam aos consultórios com queixas de cansaço e sonolência — sintomas que podem ter origem em uma, em ambas, ou em nenhuma dessas condições isoladamente. A pesquisa aponta para um futuro em que a avaliação do sono se torne parte rotineira da investigação clínica, especialmente em pacientes com doenças metabólicas ou endócrinas.

Esperávamos que a prevalência de apneia do sono fosse considerável entre pessoas com hipotireoidismo, mas o resultado foi mais elevado do que imaginávamos
— Ellen Maria Sampaio Xerfan, pesquisadora da Unifesp
Quando um paciente procura atendimento, raramente o sono é investigado de forma aprofundada
— Monica Levy Andersen, professora da EPM-Unifesp
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