Fotojornalista da Folha ganha prêmio Gabo por cobertura do julgamento de Bolsonaro

A composição das fotos é irretocável
Avaliação dos jurados do prêmio Gabo sobre o ensaio de Gabriela Biló sobre o julgamento de Bolsonaro.
Mark

Por que uma série de fotografias sobre um julgamento consegue dizer algo que um texto não diz?

Mimi

Porque há coisas que só existem quando você as vê. A expressão de um ministro no momento da votação, a forma como as pessoas se movem nos corredores, o peso do silêncio — isso não cabe bem em palavras.

Mark

Mas democracia é um conceito. Como você fotografa um conceito?

Mimi

Você não fotografa a democracia. Você fotografa as pessoas que a sustentam, os momentos em que ela está sendo testada. O julgamento é o conceito em ação.

Mark

Os jurados disseram que a composição é "irretocável". O que isso significa na prática?

Mimi

Significa que cada foto foi pensada. Não é acaso. É a escolha de onde ficar, quando apertar o botão, o que deixar dentro do quadro e o que deixar fora.

Mark

Você trabalha em Brasília há alguns anos. Como é documentar o poder de tão perto?

Mimi

É estar sempre atento. O poder não anuncia quando vai fazer algo interessante. Você tem que estar lá, presente, esperando o momento que revela a verdade.

Mark

E quando você vê a foto pronta, sabe que funcionou?

Mimi

Sim. Quando você consegue olhar para uma imagem e sentir que algo importante foi capturado, que ela vai fazer alguém entender melhor o que aconteceu — aí você sabe.

  • Um julgamento que dividiu o Brasil encontrou na lente de Biló não o barulho do palanque, mas os gestos e silêncios que definem um momento histórico.
  • A composição fotográfica foi tão precisa que os jurados do Gabo a descreveram como irretocável — rara distinção num campo onde estar presente não é suficiente.
  • O ensaio premiado integra um projeto maior, com dois livros e um podcast, revelando um jornalismo que recusa o isolamento e busca o diálogo entre linguagens.
  • O Brasil chegou à edição com força incomum: 16 trabalhos entre os 50 selecionados de 1.915 inscrições, sinalizando uma geração disposta ao jornalismo lento e cuidadoso.
  • O reconhecimento internacional chega num momento em que documentar a democracia brasileira deixou de ser exercício retórico e passou a ser ato de resistência visual.

Em Bogotá, a Fundação Gabo anunciou que a fotojornalista brasileira Gabriela Biló, da Folha de S.Paulo, venceu o prêmio Gabo de Jornalismo na categoria fotografia — um reconhecimento que chega pelo ensaio 'Como sobrevivem as democracias', construído nos corredores do STF durante o julgamento histórico de Bolsonaro em 2025. O prêmio, criado em honra a García Márquez, celebra a crença de que o jornalismo é uma forma de guardar a memória do que importa. Biló fez o que poucos conseguem: transformou uma ideia abstrata — a democracia — em imagem concreta, silenciosa e irretocável.

Gabriela Biló estava em Brasília quando soube que havia vencido o prêmio Gabo de Jornalismo na categoria fotografia. O anúncio veio de Bogotá, na Colômbia, onde a Fundação Gabo reúne anualmente os melhores trabalhos jornalísticos das Américas.

O ensaio premiado, 'Como sobrevivem as democracias', acompanha os corredores do Supremo Tribunal Federal durante o julgamento que, em 2025, condenou Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. Não há comícios nem discursos — há gestos, silêncios e rostos que compõem um dos momentos mais simbólicos da democracia brasileira recente. Os jurados elogiaram a capacidade do trabalho de tornar visível o que é abstrato: 'A composição das fotos é irretocável', escreveram.

Biló não chegou ao prêmio por acaso. Desde 2022 na Folha, dedicou-se a documentar os bastidores do poder em Brasília. O ensaio premiado se conecta a dois livros feitos em parceria com Pedro Inoue e a equipe do podcast 'Medo e Delírio em Brasília', ampliando o alcance do que pode ser dito sobre o que aconteceu no país.

O Brasil marcou presença forte nesta edição: 16 trabalhos entre os 50 selecionados de 1.915 inscrições. Mais do que um número, é um sinal de que há jornalistas dispostos a fazer o trabalho paciente de documentar o presente — na crença, compartilhada por García Márquez, de que o jornalismo importa.

Gabriela Biló estava em Brasília quando a notícia chegou. A fotojornalista da Folha, que desde 2022 documenta os bastidores do poder na capital federal, havia vencido o prêmio Gabo de Jornalismo na categoria fotografia. O anúncio saiu na sexta-feira, 24 de julho, direto de Bogotá, na Colômbia, onde a Fundação Gabo reúne anualmente os melhores trabalhos de jornalismo das Américas.

O reconhecimento veio pelo ensaio "Como sobrevivem as democracias", uma série de fotografias que acompanha os corredores do Supremo Tribunal Federal durante o julgamento que, em 2025, condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. Não é um trabalho sobre política no sentido convencional — não há discursos de palanque, não há comícios. É um retrato visual dos bastidores, das pessoas que circulam dentro e fora do plenário, dos gestos e dos silêncios que compõem um dos momentos mais simbólicos da democracia brasileira recente.

Os jurados da Fundação Gabo reconheceram algo que não é fácil de fazer: transformar uma ideia abstrata em imagem. "Ainda que a democracia seja uma ideia abstrata e difícil de representar", escreveram, "o trabalho torna isso possível. A composição das fotos é irretocável." Essa precisão na composição — cada elemento no lugar certo, cada luz capturando o que importa — é o que distingue fotojornalismo de simplesmente estar lá com uma câmera.

Biló não é nova nessa conversa. Desde que chegou à Folha, tem se dedicado a documentar os momentos que definem o país. Além do ensaio premiado, ela colaborou em dois livros: "Juízo Final: Tentativa e Fracasso do Golpe no Brasil", que reconstrói toda a trama golpista até o julgamento, e "A Verdade vos Libertará", ambos feitos em parceria com Pedro Inoue e a equipe do podcast "Medo e Delírio em Brasília". Seu trabalho não fica isolado em uma foto — ele dialoga com outras formas de narrativa, ampliando o que pode ser dito sobre o que aconteceu.

O prêmio Gabo existe porque Gabriel García Márquez, o escritor colombiano que ganhou o Nobel de Literatura, acreditava que o jornalismo importava. A Fundação que leva seu nome premia trabalhos que refletem essa crença. Nesta edição, o Brasil chegou forte: 16 trabalhos brasileiros entre os 50 selecionados de um total de 1.915 inscrições vindas de toda a região. Não é apenas um número — é um sinal de que há fotojornalistas, repórteres e editores no país dispostos a fazer o trabalho lento, cuidadoso, de documentar o que está acontecendo.

Ainda que a democracia seja uma ideia abstrata e difícil de representar, o trabalho torna isso possível. A composição das fotos é irretocável.
— Jurados do prêmio Gabo de Jornalismo
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