Associações empresariais apresentam propostas para OE2026 com foco em redução fiscal

Sem solução aeroportuária em Lisboa, Portugal arrisca perder competitividade
Alerta do presidente da APAVT sobre o risco estrutural que o país enfrenta no setor do turismo.
Mark

Porque é que tantos setores pedem redução de impostos ao mesmo tempo? Não há um padrão?

Mimi

Há, e é preocupante. Todos sentem que os custos operacionais subiram enquanto a procura interna estagnou. O turismo quer estimular viagens internas porque os portugueses viajam menos. A hotelaria quer deduções de IVA porque as margens caíram. O automóvel quer incentivos ao abate porque o parque está velho e ninguém compra carro novo.

Mark

Mas se todos pedem menos impostos, quem paga pelos serviços públicos?

Mimi

Essa é a pergunta que o Governo está a fazer agora. Alguns setores argumentam que menos impostos significa mais investimento, mais emprego, mais receita fiscal no final. Outros, como as grandes empresas, dizem simplesmente que Portugal tem demasiados escalões de IRS comparado com a média europeia.

Mark

O turismo pediu 146 milhões em medidas. Isso é muito dinheiro.

Mimi

É, mas está distribuído. Cinquenta milhões em subsídios para viagens internas, vinte em benefícios fiscais para software, quinze em redução de taxas de intermediação. O que impressiona é que nenhuma destas medidas é nova. São pedidos que vêm sendo feitos há anos.

Mark

E o que é que diferencia este orçamento?

Mimi

A urgência. O parque automóvel português tem 14 anos de idade média. O défice de camas no ensino superior é de 50.000. A idade das infraestruturas aeroportuárias em Lisboa é um risco competitivo. Não é mais um ciclo económico — é estrutural.

Mark

As grandes empresas pedem eliminação de escalões de IRS. Isso não beneficia principalmente os ricos?

Mimi

Tecnicamente, sim. Os cinco primeiros escalões abrangem rendimentos até 28.400 euros anuais, portanto afeta principalmente a classe média. Mas o argumento deles é que Portugal tem menos grandes empresas do que deveria, e que impostos altos as afastam.

Mark

Qual é o pedido mais realista de implementar?

Mimi

Provavelmente os subsídios ao turismo interno. Custam dinheiro, mas têm efeito imediato e visível. Os incentivos ao abate automóvel também são viáveis. O que é mais difícil é a reforma fiscal estrutural que as grandes empresas pedem — isso exigiria repensar todo o sistema.

  • Dezenas de associações empresariais apresentaram propostas ao OE2026 com uma urgência comum: Portugal está a perder terreno face aos seus concorrentes europeus e o próximo orçamento pode ser a última janela para inverter essa tendência.
  • Os pedidos acumulam-se em camadas — 50 milhões em subsídios ao turismo interno, isenções de IVA na hotelaria, incentivos ao abate de automóveis velhos, fim do congelamento de rendas — revelando um tecido empresarial pressionado em múltiplas frentes simultaneamente.
  • As grandes empresas vão mais longe e exigem a eliminação dos primeiros cinco escalões do IRS e o fim da derrama no IRC, argumentando que a fiscalidade atual explica por que Portugal tem 41% menos grandes empresas do que a média da União Europeia.
  • O setor automóvel alerta para um parque com idade média de 14 anos — um dos mais envelhecidos da Europa — e propõe uma transição fiscal progressiva que extinga o imposto de aquisição até 2030.
  • O Governo apresenta o OE2026 na sexta-feira, tendo de equilibrar estas reivindicações multissetoriais com outras prioridades de despesa pública, numa equação em que nem todos os pedidos poderão caber.

Na véspera da apresentação do Orçamento de Estado para 2026, dezenas de associações empresariais portuguesas ergueram a voz num coro raro de convergência: menos carga fiscal, mais apoio setorial, infraestruturas à altura dos tempos. Do turismo à habitação, da indústria automóvel às grandes empresas, o diagnóstico partilhado é o de um país que sente escorregar entre os dedos a sua competitividade. A sexta-feira será o momento em que o Governo responde — ou não — a este apelo coletivo.

Quando o Governo apresentar o Orçamento de Estado para 2026 na sexta-feira, terá sobre a mesa um dossiê denso: dezenas de associações empresariais convergiram numa estratégia comum de menos impostos, mais subsídios e investimento em infraestruturas. O tom é de urgência contida — o de quem sente que o próximo orçamento é uma oportunidade que não pode ser desperdiçada.

No turismo, as agências de viagens pedem 50 milhões anuais para estimular deslocações internas, com um pacote total de 146 milhões que inclui benefícios fiscais para software e inteligência artificial, redução do IVA sobre comissões e vouchers de 150 euros para jovens. A Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo propõe ainda um fundo de proteção para reembolsar passageiros em caso de falência de companhias aéreas, alertando que a falta de solução aeroportuária em Lisboa ameaça a posição competitiva do país no Mediterrâneo.

O setor das bebidas, hotelaria e restauração acumula pressões próprias: manutenção da isenção fiscal ao vinho, dedução de 50% do IVA em alojamento e refeições, e exclusão de contribuições sobre embalagens nos serviços de entrega ao domicílio. A mesma associação propõe ainda medidas habitacionais, como a redução da tributação sobre rendimentos prediais e isenção de impostos no apoio às rendas para trabalhadores.

A indústria automóvel apresenta um diagnóstico preocupante: com uma idade média de 14 anos, o parque português é um dos mais envelhecidos da Europa. A proposta passa por extinguir progressivamente o imposto de aquisição até 2030 e criar incentivos ao abate que podem chegar aos 5.000 euros para veículos elétricos. Na habitação, os proprietários pedem o fim imediato do congelamento de rendas e apoios diretos aos inquilinos carenciados, incluindo isenção de IRS no arrendamento a estudantes — resposta a um défice estimado de 50.000 camas no ensino superior.

As grandes empresas, representadas por 142 signatários, foram mais ambiciosas: defendem a eliminação dos primeiros cinco escalões do IRS e o fim da derrama no IRC, argumentando que a fiscalidade atual condena Portugal a ter menos 41% de grandes empresas do que a média europeia. O que emerge deste conjunto de vozes é o retrato de um tecido empresarial pressionado por impostos elevados, infraestruturas insuficientes e competição internacional crescente. A sexta-feira dirá se estas reivindicações foram ouvidas.

Quando o Governo apresentar o Orçamento de Estado para 2026 na sexta-feira, terá sobre a mesa um dossiê volumoso de pedidos vindos de praticamente todos os setores da economia portuguesa. Dezenas de associações empresariais convergiram numa estratégia comum: menos impostos, mais subsídios, investimento em infraestruturas críticas. O tom é de urgência contida, o de quem sente que o país está a perder competitividade e que o próximo orçamento é a última oportunidade para corrigir o rumo.

No turismo, as agências de viagens querem 50 milhões de euros anuais em subsídios para estimular deslocações internas dos portugueses. A Associação Nacional de Agências de Viagens apresentou dez propostas avaliadas em cerca de 146 milhões de euros no total, incluindo benefícios fiscais para investimento em software e inteligência artificial, redução da taxa de IVA sobre comissões de intermediação de 23% para 13%, e um programa de vouchers de 150 euros para jovens entre os 18 e 23 anos. A Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo, por sua vez, propõe um fundo de proteção que reembolsaria bilhetes não utilizados e garantiria o repatriamento de passageiros em caso de falência de companhias aéreas, financiado por contribuições obrigatórias das transportadoras. O seu presidente, Pedro Costa Ferreira, alertou para um risco estrutural: sem uma solução aeroportuária em Lisboa, Portugal arrisca perder competitividade face aos destinos concorrentes no Mediterrâneo.

O setor das bebidas, restauração e alojamento apresenta um leque de pedidos que reflete pressões acumuladas. A Associação de Vinhos e Espirituosas de Portugal defende que a isenção fiscal aplicada ao vinho se mantenha, enquanto a venda de espumantes continua sujeita a uma taxa de IVA de 23%. A Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal pediu 30 medidas distintas, destacando-se a dedução de 50% do IVA em despesas de alojamento e refeições, e a exclusão da contribuição sobre embalagens de utilização única nos regimes de entrega ao domicílio e compra sem sair do carro. A mesma associação propõe ainda medidas para combater a crise habitacional, incluindo a redução da tributação sobre rendimentos prediais de 25% para um patamar inferior e isenção de impostos no apoio às rendas para habitação de trabalhadores.

Na distribuição, a prioridade é simplificação fiscal e administrativa. A Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição quer discutir o destino dos milhões de euros arrecadados pela Taxa de Segurança Alimentar Mais, cobrada às retalhistas, defendendo que esses montantes sejam reinvestidos na capacitação destes agentes. A indústria metalúrgica e metalomecânica apela ao aproveitamento de verbas não executadas do Plano de Recuperação e Resiliência, enquanto a Associação Portuguesa do Alumínio reclama incentivos à reciclagem e um plano energético integrado.

O setor automóvel apresenta um diagnóstico claro: o parque automóvel português tem uma idade média de 14 anos, um dos mais envelhecidos da Europa. A Associação Automóvel de Portugal propõe uma transferência progressiva do imposto sobre aquisição para o imposto de circulação, com extinção total do primeiro até 2030, e um programa de incentivos ao abate que chegaria aos 5.000 euros para veículos 100% elétricos. A Associação Nacional das Empresas do Comércio e da Reparação Automóvel alertou para um problema de liquidez: a concentração do pagamento do imposto de circulação em um ou dois meses específicos obrigará os revendedores a um esforço financeiro adicional.

Na habitação, a Associação Lisbonense de Proprietários apresentou um pacote de dez medidas, pedindo a extinção imediata do Adicional ao Imposto Municipal sobre Imóveis e o fim do congelamento das rendas. A associação propõe ainda apoios diretos aos inquilinos carenciados, mas não através dos senhorios, e isenção de IRS no arrendamento a estudantes, apresentada como resposta urgente ao défice de 50.000 camas no ensino superior.

As grandes empresas, representadas pela Associação Business Roundtable Portugal com 142 signatários, fizeram pedidos ainda mais ambiciosos. Defendem a eliminação dos primeiros cinco escalões do IRS, que abrangem rendimentos até 28.400 euros anuais, e o fim da derrama no IRC sobre grandes empresas. O argumento é que o sistema progressivo atual condena Portugal a ter menos 41% de grandes empresas do que a média da União Europeia. A mesma associação pediu ainda que se aplique ao contencioso administrativo e fiscal o mesmo modelo de agilização que foi implementado na justiça cível e comercial na última década, reduzindo drasticamente os prazos de resolução.

O que emerge deste conjunto de propostas é um retrato de um tecido empresarial que se sente pressionado por múltiplos lados: impostos elevados, infraestruturas insuficientes, competição internacional acirrada, e uma população envelhecida que limita o consumo interno. O Governo terá de escolher quais destas prioridades consegue acomodar num orçamento que também precisa de responder a outras pressões, desde a saúde à educação. A sexta-feira dirá se estas vozes foram ouvidas.

Garantir o reembolso de bilhetes não utilizados e assegurar o repatriamento de passageiros, reforçando a confiança no setor
— Pedro Costa Ferreira, presidente da APAVT, sobre o fundo de proteção proposto
O sistema progressivo atual condena o país a ter menos 41% de grandes empresas do que a média da União Europeia
— Associação Business Roundtable Portugal, sobre a reforma fiscal necessária
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