Fazer um festival para todos, todos os artistas e todos os públicos
Em Curitiba, entre o fim de março e o início de abril, mais de 1.800 artistas se reúnem para a 31ª edição de um dos maiores festivais de artes cênicas do país — e a escolha de abrir com um Hamlet interpretado por atores com síndrome de Down não é acidental. O festival declara, com essa curadoria, que o palco não é privilégio de poucos, mas território de todos. Numa cidade conhecida por seu conservadorismo, a programação funciona como um espelho gentil e provocador, convidando o público a reconhecer no outro aquilo que ainda não aprendeu a ver em si mesmo.
- A abertura com um Hamlet protagonizado por atores com síndrome de Down lança imediatamente o desafio central: quem tem direito de ocupar o palco — e de ser visto?
- Mais de 300 espetáculos em 60 espaços comprimem numa cidade conservadora temas como abuso psicológico, etarismo, soropositividade e opressão de gênero, criando uma tensão criativa deliberada.
- Nomes consagrados como Vera Holtz, Eliane Giardini e Marcos Caruso emprestam visibilidade comercial a produções que, sem eles, talvez não chegassem ao mesmo público.
- A curadoria convidou 28 produtores de diferentes estados e incluiu grupos estreantes de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte, apostando na circulação como forma de unir cenas regionais fragmentadas.
- O festival caminha para se consolidar não apenas como vitrine, mas como plataforma de redistribuição simbólica — levando ao centro aquilo que costuma ficar à margem.
A 31ª edição do Festival de Curitiba abre nesta terça-feira com uma escolha que resume tudo o que pretende ser: Hamlet, remontado pela companhia peruana Teatro La Plaza, com atores que têm síndrome de Down. A pergunta de Shakespeare — ser ou não ser — ressoa aqui com uma camada a mais, sobre quem tem direito de existir no palco e no mundo. Até 9 de abril, mais de 300 espetáculos em 60 espaços reunirão cerca de 1.800 artistas numa programação construída em torno de representatividade, inclusão e identidade.
A diretora Fabíula Passini define o propósito sem rodeios: fazer um festival para todos os artistas e todos os públicos. A curadoria, conduzida por Daniele Sampaio, Giovana Soar e Patrick Pessoa, trabalhou para que essa intenção atravessasse tanto as produções de nicho quanto os espetáculos de maior apelo. O thriller Gaslight explora o abuso psicológico; a comédia Intimidade Indecente enfrenta o etarismo; o Grupo Corpo investiga as cicatrizes da pandemia; Vera Holtz questiona as feridas do presente em seu solo Ficções. Verónica Valenttino — primeira atriz trans a vencer o Prêmio Shell — traz ao palco o preconceito contra soropositivos, enquanto a dramaturga Dione Carlos examina a opressão histórica contra mulheres.
Giovana Soar reconhece abertamente que Curitiba tem fama de cidade conservadora, e é exatamente por isso que a programação foi pensada como provocação respeitosa. A ideia não é afastar o espectador tradicional, mas ampliar o que ele está disposto a ver. Para além das fronteiras da cidade, o festival convidou 28 produtores e curadores de vários estados, integrando pela primeira vez grupos do Norte, Nordeste e Sudeste — um gesto que transforma o evento numa conversa entre cenas regionais que raramente se encontram.
A 31ª edição do Festival de Curitiba abre as portas nesta terça-feira com uma declaração de intenções clara: o teatro e a dança como espaços onde todos cabem. Entre hoje e 9 de abril, a cidade receberá mais de 300 espetáculos distribuídos em 60 locais diferentes, envolvendo aproximadamente 1.800 artistas. O tom inaugural vem de uma escolha simbólica — Hamlet, montagem da companhia peruana Teatro La Plaza dirigida por Chela De Ferrari, que reimagina a tragédia de Shakespeare com atores que têm síndrome de Down. A pergunta clássica do príncipe dinamarquês, "ser ou não ser", ganha aqui uma dimensão que ultrapassa o palco: como seria um mundo onde todos tivessem as mesmas oportunidades.
Fabíula Passini, uma das diretoras do festival, resume a aposta central: "O objetivo é fazer um festival para todos, todos os artistas e todos os públicos". Essa intenção não é retórica vazia. A curadoria, conduzida pela pesquisadora Daniele Sampaio, pela atriz e produtora Giovana Soar e pelo crítico Patrick Pessoa, trabalhou deliberadamente para valorizar a representatividade. Temáticas sociais, inclusivas e identitárias atravessam a programação — e não apenas nas produções de menor circulação. Até os espetáculos com maior apelo comercial carregam essas preocupações.
O thriller Gaslight — Uma Relação Tóxica, última direção de Jô Soares, coloca em cena um casal envolvido em abuso psicológico. A comédia Intimidade Indecente, com Marcos Caruso e Eliane Giardini, confronta dois personagens com o etarismo conforme envelhecem. O Grupo Corpo, em suas coreografias Primavera e Breu, trabalha as cicatrizes deixadas pela pandemia e a violência contemporânea. Vera Holtz apresenta o solo Ficções, questionando as feridas do mundo atual. O musical O Bem-Amado, versão do clássico político de Dias Gomes com Cassio Scapin e canções de Zeca Baleiro, também integra a seleção. A companhia holandesa Wunderbaum traz Square, que ressignifica espaços públicos e será apresentada na Praça Santos Andrade.
Outras produções amplificam vozes historicamente marginalizadas. Brenda Lee e o Palácio das Princesas, protagonizado por Verónica Valenttino — primeira atriz trans a vencer o Prêmio Shell — aborda o preconceito contra pessoas soropositivas. A dramaturga Dione Carlos, também premiada com o Shell, apresenta Cárcere ou Porque as Mulheres Viram Búfalos, que examina a opressão contra mulheres. Entre as estreias nacionais está O Tempo e a Sala, que reúne atores paranaenses como Simone Spoladore, Leandro Daniel, Rodrigo Ferrarini e Ranieri Gonzales. Nena Inoue lança o solo Sobrevivente, investigando suas próprias origens étnicas e o apagamento das mulheres em sua história familiar.
Giovana Soar reconhece que Curitiba carrega a reputação de cidade conservadora. A programação, portanto, foi pensada como um desafio genuíno a um público potencialmente menos receptivo a inovações. "Não queremos que ninguém vá embora no meio de um espetáculo, a nossa intenção é agregar, mas achamos pertinentes mostrar diferentes manifestações até como forma de provocar o público", explica. Fabíula Passini reforça que não há intenção de abandonar o espectador tradicional — pelo contrário, o objetivo é ampliar o alcance dos temas. A estratégia transcende Curitiba: o festival convidou 28 produtores e curadores de vários estados para descobrir talentos e incentivar a circulação de trabalhos. Grupos como Quatroloscinco, de Minas Gerais, Cia. Dos à Deux, do Rio de Janeiro, e Grupo Carmin, do Rio Grande do Norte, participam pela primeira vez, sinalizando um esforço deliberado de conectar diferentes cenas regionais.
Notable Quotes
O objetivo é fazer um festival para todos, todos os artistas e todos os públicos— Fabíula Passini, diretora do Festival de Curitiba
Não queremos que ninguém vá embora no meio de um espetáculo, a nossa intenção é agregar, mas achamos pertinentes mostrar diferentes manifestações até como forma de provocar o público— Giovana Soar, curadora do festival
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que começar com Hamlet adaptado com atores com síndrome de Down? Parece uma escolha muito deliberada.
É. A questão do Hamlet — "ser ou não ser" — ganha uma camada completamente diferente quando você a coloca nessa boca. Não é sobre deficiência, é sobre oportunidade, sobre quem tem voz e quem não tem.
Mas Curitiba é conservadora, segundo vocês mesmos. Como você convida um público assim para algo tão desafiador?
Você não convida pedindo permissão. Você convida mostrando que existe espaço. Giovana Soar diz que não quer que ninguém saia no meio do espetáculo — então você cria contexto, você oferece múltiplas portas de entrada.
Múltiplas portas — você quer dizer que tem Vera Holtz e Eliane Giardini junto com trabalhos menos conhecidos?
Exatamente. Nomes que o público conhece, temáticas que o público precisa conhecer. É uma estratégia de confiança.
E quanto aos grupos que vêm de fora? Quatroloscinco, Cia. Dos à Deux — qual é o papel deles?
Eles são parte de uma conversa maior. O festival não quer ser só Curitiba. Quer ser um ponto de encontro onde talentos regionais se veem, se reconhecem, circulam. É sobre criar rede.