Em março de 2023, o ex-ministro Bento Albuquerque prestou depoimento à Polícia Federal sobre joias trazidas da Arábia Saudita sem declaração alfandegária — um episódio que ilumina as zonas cinzentas entre o protocolo diplomático e a responsabilidade pública. O caso, que envolve presentes de alto valor recebidos em missão oficial em 2021, levanta questões perenes sobre a fronteira entre o patrimônio do Estado e o interesse privado de quem governa. Como tantas vezes na história, são os objetos silenciosos — guardados em cofres, transportados em malas seladas — que acabam por revelar o que as pal
Ex-ministro diz à PF ter apenas presumido que joias seriam para Michelle
Apenas supôs serem presentes, depois mudou para presentes ao governo
Por que um ex-ministro levaria joias de valor tão alto sem declarar, se sabia que era obrigado?
Segundo ele, não sabia o que estava carregando. As caixas chegaram seladas, e ele presumiu que não ultrapassavam o limite de mil dólares permitido sem declaração.
Mas ele mudou de versão várias vezes — primeiro disse que a caixa estava na mala de outro pessoa, depois assumiu que era dele.
Exatamente. Isso é o que torna o depoimento frágil. Quando confrontado com documentos que ele próprio assinou, teve de recuar e mudar sua história.
E quanto ao destino das joias? Eram para Bolsonaro, para Michelle, ou para o governo?
Ele começou dizendo que "apenas supôs" serem para o casal presidencial. Depois afirmou que eram presentes ao governo brasileiro. O documento que assinou na alfândega sustenta essa segunda versão, mas a mudança levanta dúvidas sobre o que ele realmente acreditava na época.
Qual é a gravidade legal disso?
O Tribunal de Contas já proibiu Bolsonaro de usar ou vender as joias. O governo Lula classifica como contrabando ilegal. E a Receita Federal disse que não foi notificada e vai tomar providências legais. Não é um detalhe administrativo — é investigação criminal.
O que vem agora?
A PF continua investigando. O TCU pediu diligências complementares. A questão central é se houve ocultação deliberada de bens de alto valor ou se foi realmente negligência de alguém que não sabia o que carregava.
O Pulso
- Joias avaliadas em R$ 16,5 milhões foram trazidas ao Brasil sem declaração após viagem oficial à Arábia Saudita, e apenas a apreensão na alfândega de Guarulhos expôs o episódio.
- Albuquerque contradisse sua própria versão: primeiro atribuiu o transporte a outro servidor, depois admitiu ser ele mesmo quem carregava a caixa não fiscalizada.
- O ex-ministro manteve o estojo em cofre ministerial por sete meses sem notificar a Receita Federal, que afirmou desconhecer completamente a existência do objeto.
- O TCU proibiu Bolsonaro de usar ou vender as joias e descreveu os fatos como 'de elevada gravidade', enquanto o governo Lula classifica o caso como contrabando ilegal.
- A Polícia Federal segue investigando, com determinações para diligências complementares tanto da PF quanto da Receita Federal.
Em março de 2023, o ex-ministro Bento Albuquerque prestou depoimento à Polícia Federal sobre joias trazidas da Arábia Saudita sem declaração alfandegária — um episódio que ilumina as zonas cinzentas entre o protocolo diplomático e a responsabilidade pública. O caso, que envolve presentes de alto valor recebidos em missão oficial em 2021, levanta questões perenes sobre a fronteira entre o patrimônio do Estado e o interesse privado de quem governa. Como tantas vezes na história, são os objetos silenciosos — guardados em cofres, transportados em malas seladas — que acabam por revelar o que as palavras tentam encobrir.
Bento Albuquerque, ex-ministro de Minas e Energia no governo Bolsonaro, compareceu à Polícia Federal em 14 de março para depor sobre joias trazidas da Arábia Saudita sem declaração alfandegária. Ele admitiu ter entrado no país em 2021 com um estojo contendo um relógio e peças de joalharia masculina na bagagem, sem comunicar às autoridades aduaneiras. O objeto ficou guardado no cofre do ministério por sete meses, até sua saída do cargo em maio de 2022.
Albuquerque integrava uma comitiva oficial que retornou de Riade entre 20 e 26 de outubro de 2021. Segundo seu relato, recebeu presentes do governo saudita no momento da partida, e as caixas chegaram seladas — razão pela qual afirmou desconhecer o conteúdo de valor que transportava. Uma segunda caixa, levada pelo assessor Marcos Soeiro, foi apreendida na alfândega de Guarulhos e continha joias da marca Chopard avaliadas em R$ 16,5 milhões.
O que tornou o depoimento ainda mais delicado foram as contradições do ex-ministro. Inicialmente, ele havia declarado à imprensa que a caixa não inspecionada estava na mala de um servidor do Itamaraty. Diante da PF, admitiu ser ele próprio o portador. Sobre o destino das joias apreendidas, primeiro disse ter 'apenas suposto' que seriam para Bolsonaro e Michelle; depois sustentou que todos os objetos eram presentes ao governo brasileiro, versão amparada por um documento que ele mesmo assinou na ocasião da apreensão.
O caso veio a público em 3 de março, quando O Estado de S. Paulo revelou o episódio. Pouco antes do fim do mandato de Bolsonaro, o estojo que nunca passou pela Receita Federal foi entregue ao Palácio do Planalto por um assessor ministerial. O TCU já proibiu Bolsonaro de usar ou vender as joias, e o ministro Augusto Nardes classificou os fatos como 'de elevada gravidade'. O governo Lula chama o caso de contrabando ilegal, e as investigações da Polícia Federal seguem em andamento.
Bento Albuquerque, que comandou o Ministério de Minas e Energia durante o governo Bolsonaro, compareceu à Polícia Federal na terça-feira, 14 de março, para prestar depoimento sobre um episódio que envolveu joias trazidas da Arábia Saudita sem declaração alfandegária. O ex-ministro admitiu ter entrado no país em 2021 com um estojo contendo um relógio e outras peças de joalharia masculina em sua bagagem, sem informar às autoridades aduaneiras. Manteve o objeto guardado no cofre do ministério durante sete meses, até deixar o cargo em maio de 2022.
Albuquerque integrava uma comitiva oficial que retornava de Riade entre 20 e 26 de outubro de 2021. Segundo seu relato à PF, recebeu diversos presentes do governo saudita no momento da partida do hotel. Afirmou que as duas caixas — a que levou pessoalmente e outra que estava na mala de seu assessor Marcos Soeiro — chegaram seladas, e ele não abriu a sua até chegar em Brasília. Por essa razão, disse não ter conhecimento do conteúdo de valor que carregava. A segunda caixa, apreendida na alfândega de Guarulhos, continha um conjunto de joias da marca suíça Chopard avaliado em R$ 16,5 milhões.
O que complica a narrativa do ex-ministro é a mudança de versão sobre o destino dos presentes. Inicialmente, ele havia declarado à Folha de S.Paulo que o estojo que entrou sem inspeção estava na mala de Cristian Vargas, servidor do Ministério das Relações Exteriores. Diante da PF, assumiu que era ele próprio quem carregava a caixa. Quanto às joias apreendidas na alfândega, Albuquerque primeiro afirmou que "apenas supôs" serem presentes para o ex-presidente Jair Bolsonaro e a primeira-dama Michelle, já que ambos tinham sido convidados para a viagem. Depois, mudou sua posição e disse aos delegados que todos os objetos eram presentes destinados ao governo brasileiro, não a pessoas específicas. Essa versão foi sustentada por um documento que ele próprio assinou no momento da apreensão das joias.
O ex-ministro justificou a falta de declaração alegando que acreditava os itens não ultrapassarem o limite de US$ 1 mil, teto máximo permitido pela legislação para entrada livre de declaração. Afirmou que durante o evento em Riade vários presentes foram trocados pela comitiva — recebeu azeites, tâmaras e bebidas — e por isso manteve as caixas seladas sem suspeitar que continham objetos de valor.
O caso ganhou repercussão pública quando o jornal O Estado de S. Paulo revelou o episódio em 3 de março. Pouco antes do término do mandato de Bolsonaro, em 29 de novembro de 2021, um assessor especial do ministério entregou o estojo que não havia sido fiscalizado pela Receita Federal ao Palácio do Planalto. Naquele momento, o ministério já era comandado por Adolfo Sachsida, amigo de Bolsonaro. A Receita Federal informou posteriormente que não havia sido notificada sobre a existência desse estojo e que tomaria as providências legais cabíveis.
O Tribunal de Contas da União já proibiu Bolsonaro de usar ou vender o conjunto de joias que não foi apreendido. O ministro Augusto Nardes, do TCU, descreveu os fatos como "de elevada gravidade, seja pelo valor dos objetos questionados, seja pela relevância dos cargos ocupados pelos eventuais autores das irregularidades". Integrantes do governo Lula têm criticado duramente o episódio. O ministro Alexandre Padilha, das Relações Institucionais, classificou o caso como "contrabando ilegal". A investigação da Polícia Federal segue em andamento, com determinações do TCU para que tanto a PF quanto a Receita Federal realizem diligências complementares.
Citações Notáveis
Apenas supôs que as joias seriam presentes para o ex-presidente e a primeira-dama, já que ambos tinham sido convidados para a viagem— Bento Albuquerque, em depoimento à PF
Os fatos revelam-se de elevada gravidade, seja pelo valor dos objetos questionados, seja pela relevância dos cargos ocupados pelos eventuais autores das irregularidades— Ministro Augusto Nardes, do Tribunal de Contas da União