Estado recompra 13,7% da REN a Amancio Ortega por 325 milhões de euros

O Estado português está a recuperar presença em setores que considera estratégicos
Depois de 12 anos fora do capital da REN, Portugal regressa com uma participação de 13,7% através da Parpública.
Mark

Porque é que o Estado português decide agora voltar a investir na REN, depois de 12 anos completamente fora?

Mimi

Porque a energia é infraestrutura crítica. Quando o Estado saiu em 2012, havia uma lógica de privatização. Agora há uma lógica diferente — a ideia de que certos setores são demasiado importantes para deixar completamente nas mãos privadas ou estrangeiras.

Mark

Mas o Estado não está sozinho. A China tem 25%. Isso não é um problema?

Mimi

É uma realidade com a qual o Estado terá de lidar. Portugal não está a tentar recuperar o controlo total — está a recuperar uma presença significativa. Com 13,7%, tem voz, mas não domina. É um equilíbrio.

Mark

E Amancio Ortega? Porque é que ele vende agora?

Mimi

Não sabemos os detalhes das negociações. Mas Ortega é um investidor pragmático. Se o Estado português quer comprar, e o preço é justo, vende. Ele tem outros investimentos. A REN não é o seu foco.

Mark

O fundo soberano que Montenegro anunciou — é isto o começo de uma estratégia maior?

Mimi

Sim. A REN é o primeiro movimento, mas Montenegro foi claro: o fundo quer participações em energia, banca, comunicações, infraestruturas. Isto é um reposicionamento do Estado na economia.

Mark

Qual é o risco aqui?

Mimi

O risco é que o Estado entre em setores estratégicos sem competência de gestão, ou que use estas participações para fins políticos em vez de económicos. Mas o argumento do Governo é que a autonomia estratégica vale a pena.

Mark

E os acionistas privados da REN — como reagem?

Mimi

A REN é uma empresa cotada. Os acionistas privados veem o Estado como um acionista como outro qualquer. O que importa é se a empresa gera retorno. Se gerar, ninguém se queixa.

  • O Estado português estava completamente ausente do capital da REN desde 2012, quando o Governo Passos Coelho vendeu as últimas ações durante a vaga de privatizações da troika.
  • A Parpública assinou contrato com o fundo de Amancio Ortega para adquirir quase 92 milhões de ações avaliadas em 324,7 milhões de euros, numa operação que ainda aguarda o visto do Tribunal de Contas.
  • A aquisição insere-se numa estratégia mais ampla anunciada pelo primeiro-ministro Montenegro: a criação de um fundo soberano para o Estado investir em setores críticos como energia, banca e infraestruturas.
  • Com a saída de Ortega, a composição acionista da REN reconfigurou-se geopoliticamente — a China mantém 25% e Portugal regressa com 13,7%, sinalizando uma nova era de intervenção estatal estratégica.

Depois de mais de uma década afastado, o Estado português regressa como acionista da REN, a empresa que gere as redes energéticas do país, adquirindo 13,7% do seu capital à Pontegadea Inversiones de Amancio Ortega por cerca de 325 milhões de euros. Este movimento, protagonizado pela Parpública, não é apenas uma transação financeira — é a expressão de uma nova filosofia de governação, em que o Estado procura recuperar voz e presença em infraestruturas que considera essenciais à soberania e à resiliência nacional. Onde outrora se privatizava, agora se recompra.

Portugal anunciou esta sexta-feira o regresso ao capital da REN, a empresa responsável pela gestão das redes energéticas nacionais. A Parpública, entidade que administra as participações públicas do Estado, assinou um contrato com a Pontegadea Inversiones — o fundo de investimento de Amancio Ortega, fundador da Inditex e dono da Zara — para adquirir 13,7% da companhia por cerca de 325 milhões de euros, correspondentes a quase 92 milhões de ações ao preço de 3,54 euros cada.

Esta operação representa uma inversão histórica. O Estado tinha saído completamente do capital da REN em 2012, durante o Governo de Passos Coelho, no contexto das privatizações impostas pelo programa de ajustamento. Desde então, não detinha qualquer participação na empresa. A transação ainda depende do visto do Tribunal de Contas para ser formalmente concluída, mas o contrato já foi assinado e a Pontegadea confirmou que a venda está em curso. A maior acionista da REN continua a ser a State Grid Corporation of China, com 25% do capital.

A compra não é um gesto isolado. Em junho, o primeiro-ministro Luís Montenegro anunciou a criação de um fundo soberano português, a ser gerido junto do IGCP, com o objetivo de garantir presença estatal em setores estratégicos — energia, banca, comunicações e infraestruturas aeroportuárias. O propósito declarado vai além do retorno financeiro: trata-se de assegurar que o Estado tenha voz em áreas consideradas essenciais para a segurança e independência nacionais.

A entrada na REN é, assim, o primeiro movimento concreto desta nova filosofia. Depois de uma década e meia de afastamento, o Estado português reposiciona-se numa das infraestruturas mais críticas do país — e a nova composição acionista da empresa reflete uma reconfiguração que é tanto política como geopolítica.

Portugal está a regressar ao negócio da energia. Esta sexta-feira, o Estado anunciou que vai recomprar uma fatia significativa da REN — a empresa que gere as redes energéticas do país — aos espanhóis. A Parpública, a entidade que administra as participações públicas, assinou um contrato com a Pontegadea Inversiones, o fundo de investimento de Amancio Ortega, fundador da Inditex e dono da Zara, para adquirir 13,7% da companhia. A operação envolve quase 92 milhões de ações e está avaliada em cerca de 325 milhões de euros, com base no preço de fecho das ações na sexta-feira, 3,54 euros cada.

Esta é uma volta atrás de mais de uma década. O Estado português saiu completamente do capital da REN em 2012, durante o Governo de Passos Coelho, quando vendeu as últimas ações que ainda detinha. A empresa tinha sido privatizada gradualmente desde 2007, com a maior alienação a ocorrer nesse ano de 2012. Desde então, o Estado não tinha qualquer presença acionista na companhia. Agora, com esta compra, regressa como acionista significativo.

A transação ainda precisa de um aval formal — o Tribunal de Contas terá de dar o seu visto para que a operação seja concluída. Mas o comunicado da REN ao mercado é claro: o contrato foi assinado, e a Pontegadea Inversiones informou que a venda está em marcha. A Pontegadea era a segunda maior acionista da REN, posição que tinha conquistado quando comprou a participação de 12% que a Oman Oil detinha. A maior acionista continua a ser a State Grid Corporation of China, com 25% do capital.

Esta aquisição não é um movimento isolado. Alinha-se com uma estratégia mais ampla do Governo. Em junho, durante o congresso do PSD, o primeiro-ministro Luís Montenegro anunciou a criação de um fundo soberano português — um instrumento para o Estado investir em empresas estratégicas. O objetivo é claro: ter participações relevantes em setores críticos para a resiliência do país. A energia é a prioridade, mas Montenegro deixou em aberto a possibilidade de o fundo também atuar na banca, nas comunicações, ou até na gestão de infraestruturas aeroportuárias se os concessionários não cumprirem as suas obrigações.

O primeiro-ministro foi explícito sobre o propósito. O fundo soberano, que será gerido junto do IGCP, funcionará como um instrumento de autonomia e intervenção estatal em setores estratégicos. Não se trata apenas de retorno financeiro — embora Montenegro tenha mencionado que o fundo também considerará participações com potencial de rentabilidade. Trata-se de garantir que o Estado tenha voz e controlo em áreas que considera essenciais para a segurança e a independência nacional.

A compra da participação na REN é, portanto, o primeiro movimento concreto desta nova abordagem. Depois de mais de uma década fora, o Estado português está a reposicionar-se numa das infraestruturas mais críticas do país — a rede que distribui energia a toda a população e às empresas. A operação marca uma mudança de filosofia: se durante os anos 2000 e 2010 a tendência era privatizar, agora o Estado está a recuperar presença em setores que considera estratégicos. A REN, com a sua nova composição acionista — China com 25%, Portugal com 13,7%, e Ortega fora da equação — reflete uma reconfiguração geopolítica e política que vai muito além de uma simples transação imobiliária.

Vamos criar um fundo soberano de Portugal junto do IGCP que será um instrumento de autonomia e intervenção do Estado em setores estratégicos
— Luís Montenegro, primeiro-ministro
A intenção é termos participações acionistas relevantes em empresas estratégicas do país e para a sua resiliência
— Luís Montenegro
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