Há uma tradição silenciosa de homens e mulheres que, ao alcançar o outono da vida, trocam a segurança do conhecido pela vastidão do incerto. Esmerilo Melo, ex-bancário pernambucano de 68 anos, faz parte dessa linhagem: abandonou duas décadas de metas corporativas para habitar uma Kombi batizada de Zeza, percorrendo o Brasil sem itinerário fixo, sustentado pelo macramê que produz e pelos encontros que a estrada oferece. Sua jornada levanta uma pergunta antiga — o que, afinal, constitui uma vida bem vivida?
Ex-bancário de 68 anos transforma Kombi em casa e rodeia Brasil há dois anos com energia solar e artesanato
Deixa que cada parada influencie a seguinte
Por que um homem abandona uma carreira inteira aos 68 anos? Não é tarde demais?
Talvez seja exatamente a idade certa. Ele passou décadas dentro de agências, orientado por metas. Aos 68, decidiu que liberdade valia mais que segurança. Não é uma fuga; é uma escolha consciente de prioridades.
E como ele sustenta essa vida? O artesanato paga as contas?
Não sabemos os números. Ele produz macramê, vende nas paradas, conhece pessoas. Mas a reportagem não detalha quanto ganha ou como financia tudo. O ponto é que trabalho e viagem não estão separados para ele.
Essa coisa de não ter itinerário fechado — é liberdade ou é falta de planejamento?
É filosofia. Ele prefere deixar que cada parada influencie a seguinte. Não é desorganização; é uma recusa deliberada em transformar os próximos destinos em compromissos antes de partir.
A Kombi é só um veículo ou é algo mais?
É endereço, companhia, apresentação. Ele a batizou de Zeza, a chama de Combona. Dentro dela cabe tudo que o define: a prancha de surfe, a bicicleta, o macramê, os adesivos de amigos, a caveira que representa igualdade. Não é um carro adaptado; é uma casa que se move.
Ele vai mesmo para o Paraguai, Ushuaia e Texas?
Ele cogita. Mas não há datas, trajetos ou preparativos confirmados. Esses lugares funcionam como horizontes possíveis, não como etapas garantidas. É coerente com a forma como ele conduz o caminho.
O que o mantém na estrada depois de dois anos?
Provavelmente o mesmo que o tirou dos bancos: a sensação de que experiências e amizades valem mais que acúmulo. Cada dia é diferente. Cada pessoa que encontra deixa uma marca na lataria da Kombi.
The Pulse
- Após vinte anos preso a agências bancárias, horários e números, Esmerilo rompeu com tudo de uma vez: trocou o emprego, o endereço fixo e a previsibilidade por uma Kombi e uma estrada aberta.
- A Zeza não é apenas transporte — é uma identidade em movimento, carregando placa solar, prancha de surfe, bicicleta e peças de macramê que revelam um homem que se recusa a ser uma coisa só.
- A ausência de renda estável e de destinos confirmados cria uma tensão real: o artesanato precisa sustentar a viagem, e cada parada é, ao mesmo tempo, oportunidade de venda e de sobrevivência.
- Paraguai, Ushuaia e Texas surgem no horizonte como sonhos ainda sem data, mantendo a filosofia central de Esmerilo intacta: nenhum destino vira compromisso antes de ser vivido.
- Dois anos depois de partir, ele ainda está na estrada — e isso, por si só, é a resposta mais concreta que a viagem oferece.
Há uma tradição silenciosa de homens e mulheres que, ao alcançar o outono da vida, trocam a segurança do conhecido pela vastidão do incerto. Esmerilo Melo, ex-bancário pernambucano de 68 anos, faz parte dessa linhagem: abandonou duas décadas de metas corporativas para habitar uma Kombi batizada de Zeza, percorrendo o Brasil sem itinerário fixo, sustentado pelo macramê que produz e pelos encontros que a estrada oferece. Sua jornada levanta uma pergunta antiga — o que, afinal, constitui uma vida bem vivida?
Esmerilo Melo tinha 68 anos e duas décadas de banco nas costas quando decidiu que já era suficiente. Metas, prazos e horários rígidos ficaram para trás. No lugar deles, uma Kombi encontrada em Gado Bravo, na Paraíba, batizada de Zeza — sua terceira casa sobre rodas, e aparentemente a certa.
Dentro da Kombi, cada objeto conta uma parte da história do dono. A placa solar no teto garante autonomia energética. A bicicleta e a prancha de surfe revelam o praiano que ele nunca deixou de ser. As peças de macramê em formato de cabeça de boi — muitas delas vendidas nas paradas pelo caminho — mantêm viva a ligação com a vida de cowboy que também o define. Na lataria, uma caveira simboliza a igualdade entre as pessoas; um porrete com a palavra 'respeito' lembra a postura que ele exige de si mesmo. Adesivos de amigos artesãos cobrem o metal como um mapa de encontros, não de coordenadas.
O artesanato é o que conecta movimento e sustento. Esmerilo cria enquanto viaja, vende enquanto para, e segue sem depender de um espaço fixo. Não há números que comprovem o equilíbrio financeiro — há apenas a prática contínua de fazer e de se relacionar, como se as duas coisas fossem partes do mesmo gesto.
Naturalmente de Bonito, Pernambuco — cidade de mais de trinta cachoeiras, faz questão de esclarecer —, Esmerilo carrega uma identidade nordestina que convive com a espiritualidade cristã, a música constante e a palavra 'Shalom' visível dentro da Zeza. A viagem não é missão religiosa, mas a fé ocupa seu espaço.
Quanto ao futuro, ele fala em possibilidades: Paraguai, Ushuaia, Texas. Nenhum com data marcada. Essa é a filosofia que move a Zeza — deixar que cada parada influencie a próxima, sem transformar sonhos em obrigações antes da hora. Dois anos depois de partir, Esmerilo ainda está na estrada, e isso já diz tudo que precisa ser dito.
Aos 68 anos, Esmerilo Melo deixou para trás duas décadas de vida corporativa — metas, horários rígidos, compromissos que se repetiam — e transformou uma Kombi em sua casa. Batizou o veículo de Zeza e saiu pela estrada. Dois anos depois, ainda segue rodando pelo Brasil, sem itinerário fechado, sem saber onde dormirá amanhã, e isso é exatamente o ponto.
O ex-bancário pernambucano conhece a vida de duas formas agora. Na primeira, passava os dias dentro de agências, orientado por números e prazos. Na segunda, vive dentro de um veículo que reúne placa solar no teto, uma bicicleta, uma prancha de surfe e as peças de macramê que produz enquanto viaja. Nenhuma dessas coisas é acidental. Cada uma delas representa uma parte de quem ele é: o homem que trabalhou nos bancos, o artesão que cria enquanto se move, o praiano que não abandona o mar, o vaqueiro que carrega sua história no colete dos Cowboys do Asfalto.
A Zeza é a terceira casa sobre rodas de Esmerilo. A primeira foi um Volvo a diesel que acumulava calor demais. A segunda não foi documentada. Mas essa Kombi, encontrada em Gado Bravo, na Paraíba, parece ser a certa. Ele a descreve como uma aproximação imediata, quase inevitável. Dentro dela, tudo que importa cabe: memória, trabalho, lazer, fé. Na lataria frontal, uma caveira representa para ele a igualdade entre as pessoas. Um porrete com a palavra "respeito" reforça a postura que ele espera de si mesmo na estrada. Adesivos deixados por amigos artesãos transformam o metal em um registro visual dos encontros, um mapa de relacionamentos em vez de um mapa geográfico.
O artesanato é o fio que conecta movimento e sustento. Esmerilo produz peças em macramê, muitas delas em formato de cabeça de boi, mantendo viva a ligação com a vida de cowboy que viveu antes. Não há números sobre quanto vende, quanto ganha ou se o artesanato cobre todas as despesas. O que existe é a prática: ele cria enquanto viaja, estabelece contato com pessoas nas paradas, trabalha sem depender de um espaço comercial permanente. Para ele, fazer objetos e conhecer pessoas são partes do mesmo movimento.
Sua identidade é um mosaico. Esmerilo é de Bonito, Pernambuco, uma cidade que ele associa a mais de 30 cachoeiras — não a homônima de Mato Grosso do Sul. Carrega consigo uma identidade nordestina, mas também se define como praiano. A prancha dentro da Kombi materializa essa combinação. A música o acompanha como companhia constante, embora não haja registro de instrumentos ou apresentações. A fé cristã ocupa espaço visível no veículo: a palavra "Shalom" está ali, conectada à sua espiritualidade pessoal, sem que a viagem seja apresentada como missão religiosa.
Quanto aos próximos passos, Esmerilo fala em possibilidades. O Paraguai aparecia como próximo destino possível quando foi entrevistado. Ushuaia, no extremo sul da Argentina, era uma ideia posterior. O Texas permanecia como projeto mais amplo e distante. Mas nenhum desses lugares foi confirmado como etapa garantida. Ele cogita essas viagens, mantém-se aberto, deixa que cada parada influencie a seguinte. Essa é a filosofia que o move: não transformar os próximos destinos em compromissos fixos antes de partir.
A trajetória de Esmerilo reúne uma mudança profissional radical, três experiências com casas móveis, produção artesanal e interesses que cabem na mesma Kombi. O passado nos bancos não desaparece, mas contrasta com a liberdade buscada na estrada. Zeza concentra o essencial da nova rotina sem oferecer respostas definitivas sobre quanto tempo ela continuará ou até onde conseguirá chegar. O que já existe é a decisão de seguir viajando, conhecer pessoas e permitir que a estrada decida o resto.
Notable Quotes
Prefere experiências e amizades ao acúmulo de patrimônio— Esmerilo Melo, sobre sua mudança de prioridades
Uma caveira representa a igualdade entre as pessoas— Esmerilo Melo, sobre a decoração frontal da Kombi