No rastro de um dos maiores esquemas de fraude com criptomoedas do Brasil, a esposa do chamado 'Faraó dos Bitcoins' emerge de seu exílio voluntário apenas para declarar que não há nada a restituir — isso, apesar de ter sacado cerca de um bilhão de reais em bitcoins no dia seguinte à prisão do marido. Mirelis Zerpa, foragida e com dois mandados de prisão, encarna uma tensão antiga entre a aparência de insolvência e a suspeita de enriquecimento deliberado. Enquanto 120 mil pessoas aguardam reparação, o dinheiro, segundo ela, simplesmente desapareceu.
Esposa do 'Faraó dos Bitcoins' diz não ter recursos para indenizar clientes
O dinheiro ficou parado tantos dias, mas ela continuou sacando mesmo após a suspensão
Como é possível que ela tenha sacado um bilhão de reais e agora diga que não tem nada?
Segundo seus advogados, aquele volume correspondia ao fluxo mensal de pagamentos da empresa e foi usado para honrar compromissos com investidores nos dias seguintes à prisão do marido. A questão é se isso é verdade.
Mas há um problema de cronologia aqui. Os registros públicos mostram que ela começou a movimentar os bitcoins apenas em 13 de setembro, dias depois da prisão. Se o dinheiro foi sacado para pagar clientes imediatamente, por que ficou parado?
Exatamente. E ela continuou sacando nos dias 16 e 17, mesmo depois que os pagamentos foram suspensos no dia 15. Isso levanta questões sobre o que realmente aconteceu com aquele dinheiro.
Qual é a posição legal dela neste momento?
Ela tem dois mandados de prisão preventiva por lavagem de dinheiro e crimes contra o sistema financeiro. Está foragida nos Estados Unidos. Mas há um recurso no STJ que pode revogar essas prisões.
E mesmo que as prisões sejam revogadas, ela diz que teme retornar ao Brasil por ameaças à sua integridade física. Então pode permanecer nos EUA de qualquer forma.
Os clientes lesados têm alguma esperança de recuperar o dinheiro?
Não muita. Se ela realmente gastou aquele bilhão, e se não há outros ativos identificáveis, a recuperação judicial da empresa é o caminho, mas as perspectivas parecem limitadas.
O que torna tudo mais frustrante é que ela assina todos os contratos da GAS como avalista. Legalmente, ela não pode simplesmente se eximir de responsabilidade.
Então a defesa dela de que era apenas uma trader com participação minoritária não a protege?
Não, se ela é avalista. Isso é uma obrigação legal clara. A questão é se conseguem executar essa responsabilidade contra alguém que está foragida e alega não ter recursos.
Der Puls
- Mirelis Zerpa sacou aproximadamente R$ 1 bilhão em bitcoins logo após a prisão de Glaidson, mas agora afirma não ter recursos para indenizar as vítimas da GAS Consultoria.
- A venezuelana está foragida desde agosto de 2021, possivelmente em Miami, com dois mandados de prisão por lavagem de dinheiro e crimes contra o sistema financeiro.
- Registros públicos contradizem a versão dela: os saques continuaram dias após a suspensão dos pagamentos aos clientes, levantando dúvidas sobre o destino real do dinheiro.
- Advogados de vítimas apontam que Mirelis assinou todos os contratos da GAS como avalista, o que a impede legalmente de se esquivar de responsabilidades civis e penais.
- Um recurso no STJ pode revogar seus mandados de prisão preventiva, mas mesmo uma decisão favorável não garante seu retorno ao Brasil, onde ela diz temer por sua segurança.
No rastro de um dos maiores esquemas de fraude com criptomoedas do Brasil, a esposa do chamado 'Faraó dos Bitcoins' emerge de seu exílio voluntário apenas para declarar que não há nada a restituir — isso, apesar de ter sacado cerca de um bilhão de reais em bitcoins no dia seguinte à prisão do marido. Mirelis Zerpa, foragida e com dois mandados de prisão, encarna uma tensão antiga entre a aparência de insolvência e a suspeita de enriquecimento deliberado. Enquanto 120 mil pessoas aguardam reparação, o dinheiro, segundo ela, simplesmente desapareceu.
Mirelis Zerpa sacou cerca de R$ 1 bilhão em bitcoins no dia seguinte à prisão de seu marido, Glaidson Acácio dos Santos, em agosto de 2021. Agora, por meio de advogados e vídeos nas redes sociais, ela afirma não ter como indenizar as vítimas da GAS Consultoria. A justificativa é direta: o dinheiro já foi gasto. Seu advogado, Ciro Chagas, explica que o valor correspondia ao fluxo mensal de pagamentos da empresa e foi usado para honrar compromissos com investidores nos dias seguintes à prisão de Glaidson.
Mirelis desapareceu no mesmo período em que o marido foi detido. Câmeras de segurança a flagraram embarcando no Aeroporto de Cabo Frio antes da Operação Kryptos, que desmantelou a GAS. Ela teria seguido para Miami, de onde continua se comunicando publicamente, apesar de dois mandados de prisão preventiva expedidos contra ela por lavagem de dinheiro e crimes contra o sistema financeiro.
Sua versão, porém, é contestada. O advogado Artêmio Picanço, que representa um grande volume de clientes lesados, aponta que os saques de Mirelis começaram apenas em 13 de setembro — semanas após a prisão do marido — e continuaram nos dias 16 e 17, quando os pagamentos aos clientes já haviam sido suspensos desde o dia 15. A sequência temporal levanta perguntas sem resposta: por que o dinheiro ficou parado por tanto tempo? Por que os saques prosseguiram após a suspensão? Picanço também ressalta que Mirelis assinou todos os contratos da GAS como avalista, o que a impede de se eximir de responsabilidades civis e penais.
Em um dos vídeos, ela fez uma declaração enigmática sobre 'abrir a Caixa de Pandora', sugerindo que poderia revelar mais sobre sua trajetória. Enquanto isso, um recurso seu tramita no STJ com a esperança de revogar os mandados de prisão. Mesmo que seja bem-sucedida, seu advogado admite que ela teme retornar ao Brasil por ameaças à sua integridade física. Ao fundo, 120 mil pessoas aguardam reparação por um esquema que prometia lucros mensais de 10% e funcionou como uma pirâmide financeira — enquanto a mulher que esteve ao centro dele insiste que não sobrou nada.
Mirelis Zerpa sacou aproximadamente um bilhão de reais em bitcoins no dia seguinte à prisão do marido, Glaidson Acácio dos Santos, em 26 de agosto de 2021. Agora, através de seus advogados e de mensagens publicadas nas redes sociais, ela afirma não possuir recursos para indenizar os clientes lesados pela GAS Consultoria e Tecnologia. A explicação oferecida é simples: o dinheiro já foi gasto. Segundo Ciro Chagas, seu advogado, aquele volume de bitcoins correspondia ao fluxo mensal de pagamentos da empresa e foi utilizado para honrar compromissos com investidores nos dias imediatamente posteriores à prisão de Glaidson.
Mirelis desapareceu no mesmo período em que o marido foi detido. Imagens de câmeras de segurança a mostram embarcando no Aeroporto de Cabo Frio dias antes da Operação Kryptos, que desmantelou a estrutura da GAS. Ela teria se dirigido a Miami, nos Estados Unidos, onde permaneceria até o momento da reportagem. Dois mandados de prisão preventiva foram expedidos contra a venezuelana por lavagem de dinheiro e crimes contra o sistema financeiro nacional. Apesar disso, ela tem se comunicado publicamente através de vídeos divulgados nas redes sociais, tentando minimizar seu papel na operação fraudulenta que prejudicou pelo menos 120 mil clientes já cadastrados no Escritório Zveiter, responsável pela recuperação judicial da empresa.
Em suas declarações, Mirelis nega ter sido sócia administradora das empresas que operavam diretamente com criptomoedas. Seu advogado argumenta que ela atuava como trader, com conhecimento técnico, mas com participação minoritária apenas por ser esposa de Glaidson. Chagas afirma que o próprio Glaidson assinou uma declaração formal atestando essa divisão de funções. O advogado também sustenta que, embora o valor sacado pareça relevante, as operações da GAS eram significativamente maiores, e que Mirelis utilizou e esgotou completamente aquele saldo, sem deixar recursos remanescentes.
Essa narrativa é contestada por Artêmio Picanço, chefe de um dos escritórios que representa o maior volume de clientes prejudicados. Analisando registros públicos, Picanço observa que Mirelis começou a movimentar os bitcoins apenas em 13 de setembro, realizando saques adicionais nos dias 16 e 17, quando os pagamentos já haviam sido suspensos desde o dia 15. A sequência temporal levanta questões: por que o dinheiro permaneceu imóvel por tantos dias? Por que continuou sacando após a suspensão dos pagamentos? Picanço argumenta que não existe evidência que comprove o uso daqueles fundos para compensar clientes. Além disso, ele ressalta que Mirelis é signatária de todos os contratos da GAS na qualidade de avalista, o que a impede legalmente de se eximir de suas responsabilidades civis e penais.
Em um dos vídeos gravados, Mirelis fez uma declaração enigmática sobre "abrir a Caixa de Pandora", dizendo que isso a deixava nervosa, mas que nunca era tarde para começar a documentar sua vida e desabafar. Essas comunicações ocorrem enquanto um recurso seu tramita no Superior Tribunal de Justiça sob relatoria do ministro João Otavio de Noronha. O recurso busca revogar os dois mandados de prisão preventiva contra ela. Há esperança nos círculos de seus advogados de que o STJ siga o mesmo entendimento que Noronha já demonstrou ao divergir e abrir caminho para a revogação de uma das prisões preventivas de Glaidson. O julgamento estava previsto para agosto de 2022.
Mesmo que o recurso seja acolhido e as prisões revogadas, não há garantias de que Mirelis retorne ao Brasil. Seu advogado relata que ela alega sofrer ameaças contra sua integridade física, razão pela qual teme voltar ao país onde ajudou o marido a construir o que se tornou um pequeno império financeiro baseado em promessas de lucros mensais de dez por cento supostamente originários de investimentos em criptomoedas. O esquema, que funcionou como uma pirâmide financeira, deixou um rastro de 120 mil pessoas com perdas financeiras significativas, enquanto a mulher que estava ao lado de quem o dirigia permanece foragida e insiste que não há dinheiro para reparar o dano.
Bemerkenswerte Zitate
Os ativos foram sacados para manter o pagamento dos clientes. Mirelis tinha esperança de que o caso fosse resolvido rápido. Ela alega que utilizou e já esgotou o saldo.— Ciro Chagas, advogado de Mirelis Zerpa
Por que o dinheiro ficou parado tantos dias? Por que Mirelis continuou sacando mesmo após a suspensão dos pagamentos? Não há nada que prove o uso do dinheiro para pagar clientes.— Artêmio Picanço, advogado de clientes lesados