Embraer reafirma guidance apesar de problemas na cadeia; ações caem 4%

Estoques crescem US$ 235 milhões em um trimestre, sinalizando força no quarto trimestre
O Bradesco BBI identificou no aumento de inventário a razão pela qual a Embraer elevou sua projeção de fluxo de caixa livre.

A Embraer encerrou o terceiro trimestre de 2022 com perdas menores e um backlog robusto, mas a cadeia de suprimentos global continua a comprimir suas margens e atrasar entregas. O mercado reagiu com queda acentuada das ações, enquanto analistas enxergaram nos mesmos números sinais de recuperação iminente. É o paradoxo recorrente das empresas em transição: os dados do passado assustam, mas os fundamentos do futuro acenham.

  • As ações da Embraer despencaram até 9,12% na segunda-feira, revelando o nervosismo do mercado diante de margens pressionadas e fluxo de caixa negativo.
  • A cadeia de suprimentos segue como o nó central do problema, tendo reduzido o Ebitda em 25% e comprimido a margem bruta em quase 4 pontos percentuais no trimestre.
  • A empresa reagiu com firmeza: reafirmou a meta de 160 entregas anuais e elevou a projeção de fluxo de caixa livre de US$ 50 milhões para US$ 150 milhões.
  • O crescimento dos estoques — de US$ 869 milhões para US$ 1,1 bilhão — é lido por analistas como sinal de que um quarto trimestre forte está sendo preparado nos bastidores.
  • Goldman Sachs, JPMorgan e Bradesco BBI mantêm recomendação de compra, com alvos que sugerem entre 54% e 112% de valorização potencial para os ADRs da companhia.

A segunda-feira de 14 de novembro foi de contradições para a Embraer. As ações recuaram 4,16%, chegando a cair 9,12% no pior momento do dia, mas os resultados do terceiro trimestre contavam uma história mais nuançada do que a reação inicial sugeria.

O prejuízo líquido ajustado encolheu 47,8%, para R$ 93,8 milhões, e o prejuízo atribuído aos acionistas caiu 31,5%. Ainda assim, o Ebitda recuou 25% por conta dos problemas na cadeia de suprimentos, que pressionaram margens e mantiveram o fluxo de caixa livre ajustado negativo em R$ 586,7 milhões.

A liderança da companhia respondeu com confiança. O CFO Antonio Garcia reafirmou o guidance de 160 entregas no ano, e o CEO Francisco Gomes destacou programas de eficiência para o fim do ano. Mais revelador ainda foi o backlog de US$ 17,8 bilhões — um dos maiores desde o início da pandemia — com pedidos para 2023 e 2024 preenchendo quase toda a capacidade produtiva.

Os analistas foram mais otimistas que o mercado. O Bradesco BBI apontou que o crescimento dos estoques, de US$ 869 milhões para US$ 1,1 bilhão, sinalizava preparação para um quarto trimestre robusto. Goldman Sachs e JPMorgan, apesar de registrarem resultados abaixo do consenso, reconheceram que margens brutas superaram projeções e que a elevação do guidance de fluxo de caixa livre demonstrava confiança gerencial.

Os três bancos mantiveram recomendação de compra para os ADRs negociados sob o ticker ERJ, com alvos entre US$ 16 e US$ 22 — sugerindo potencial de valorização de até 112%. A pergunta que ficou no ar: se a Embraer atravessar o quarto trimestre sem novos tropeços na cadeia de suprimentos, o mercado terá reagido cedo demais na segunda-feira.

A Embraer enfrentou uma segunda-feira de contradições nos mercados. Suas ações caíram 4,16% para R$ 13,35 na sessão de segunda-feira, 14 de novembro, chegando a recuar 9,12% em seu pior momento do dia. Mas os números que provocaram essa queda contavam uma história mais matizada do que a reação inicial sugeria.

O terceiro trimestre de 2022 mostrou a companhia em recuperação, ainda que sob pressão. O prejuízo líquido ajustado encolheu para R$ 93,8 milhões, uma melhora de 47,8% em relação aos R$ 179,7 milhões perdidos no mesmo período de 2021. O prejuízo líquido atribuído aos acionistas caiu de R$ 234,2 milhões para R$ 160,4 milhões — uma redução de 31,5%. Esses ganhos operacionais, porém, vieram mascarados por problemas estruturais na cadeia de suprimentos que continuam a apertar as margens. O Ebitda recuou 25%, para R$ 282,1 milhões, com a margem caindo de 7,6% para 5,8%. Quando ajustado, o Ebitda mostrou força — R$ 485,4 milhões, 18% acima do ano anterior — mas o fluxo de caixa livre ajustado ficou negativo em R$ 586,7 milhões, pressionado pelas necessidades de capital de giro.

A companhia respondeu aos resultados reafirmando seu guidance para 2022 com uma dose de confiança que o mercado ainda não havia digerido. Antonio Garcia, diretor financeiro, foi direto: apesar do cenário desafiador, a Embraer permaneceria na parte inferior de suas metas — 60 aeronaves para aviação comercial e 100 para aviação executiva, totalizando 160 entregas. Francisco Gomes, CEO, complementou que a empresa concentraria seus esforços nas entregas dos últimos meses do ano, com programas de eficiência desenhados para contornar as restrições de fornecimento que já eram conhecidas. Olhando para frente, Gomes apontou um backlog de pedidos firmes de US$ 17,8 bilhões — um dos maiores desde o início da pandemia — com encomendas para 2023 e 2024 que já preenchem quase toda a capacidade produtiva da companhia.

Os analistas leram os números com mais otimismo do que o mercado de ações. O Goldman Sachs ressaltou que, apesar de receita, Ebitda e fluxo de caixa livre terem ficado abaixo do consenso, a reafirmação do guidance de entregas e o aumento da projeção de fluxo de caixa livre — de US$ 50 milhões ou mais para US$ 150 milhões ou mais — sinalizavam confiança gerencial. O JPMorgan notou que o Ebitda ficou 29% abaixo de suas estimativas e a receita 33% abaixo do esperado, mas reconheceu que as margens bruta e Ebitda superaram as projeções. A reafirmação do guidance implicava em 33 entregas de aeronaves comerciais no quarto trimestre, gerando receita agregada de US$ 1,9 bilhão — acima da estimativa de US$ 1,79 bilhão do banco.

O Bradesco BBI ofereceu a leitura mais reveladora dos números. A interrupção da cadeia de suprimentos havia limitado a produção, pressionando a margem bruta em 3,8 pontos percentuais no trimestre. Mas havia um sinal escondido nos estoques: eles cresceram de US$ 869 milhões no trimestre anterior para US$ 1,104 bilhão no terceiro trimestre. Para o BBI, esse aumento significativo sugeria que a Embraer deveria ver resultados fortes no quarto trimestre, caso não enfrentasse novos problemas de suprimentos. Essa lógica explicava por que a companhia havia elevado seu guidance de fluxo de caixa livre — ela estava preparada para um quarto trimestre robusto.

Os três principais bancos que acompanham a companhia mantiveram recomendações de compra para os ADRs (American Depositary Receipts) negociados na Bolsa americana sob o ticker ERJ. O Goldman Sachs projetava preço-alvo de US$ 16, sugerindo potencial de valorização de 54%. O Bradesco BBI era ainda mais otimista, com alvo de US$ 22, implicando em upside de 112%. A questão que permanecia em aberto era se a Embraer conseguiria navegar os últimos meses do ano sem novos obstáculos na cadeia de suprimentos — e se conseguisse, o mercado de ações teria reagido prematuramente à queda de segunda-feira.

Apesar do cenário desafiador, devemos permanecer na parte inferior do guidance de mercado. Ou seja, 60 aviões para aviação comercial e 100 aviões para aviação executiva.
— Antonio Garcia, CFO da Embraer
O foco da empresa tem sido mitigar esse problema na cadeia de suprimentos e entregar resultados sólidos. Para os próximos anos vislumbramos uma perspectiva melhor em termos de receita e do crescimento da rentabilidade.
— Francisco Gomes, CEO da Embraer
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que as ações caíram tanto se os números mostram melhora?

Model

O mercado reagiu aos números absolutos do trimestre — receita, Ebitda e fluxo de caixa abaixo do esperado — sem processar imediatamente o que a companhia estava sinalizando com a reafirmação do guidance e o aumento da projeção de caixa.

Inventor

E o que a Embraer estava sinalizando?

Model

Que os estoques cresceram significativamente, sugerindo que a companhia está preparada para um quarto trimestre muito mais forte. Os analistas captaram isso; o mercado de ações, não.

Inventor

A cadeia de suprimentos continua sendo um risco real?

Model

Absolutamente. A interrupção já comprimiu as margens em 3,8 pontos percentuais. A companhia está apostando que conseguirá entregar 160 aeronaves no ano apesar disso. Se houver novos problemas, o guidance cai.

Inventor

Mas o backlog é robusto?

Model

Muito. US$ 17,8 bilhões em pedidos firmes, com encomendas para 2023 e 2024 que já preenchem quase toda a capacidade. Se conseguir resolver os problemas de suprimentos, tem anos de crescimento à frente.

Inventor

Os analistas acreditam que conseguirá?

Model

Três grandes bancos mantêm recomendação de compra. Mas estão precificando um cenário onde os problemas de suprimentos não pioram. Se piorarem, as projeções caem.

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