Alcolumbre não pode despachar o que tem de mais valor
No centro do poder legislativo brasileiro, uma proposta que poderia transformar a vida de milhões de trabalhadores permanece suspensa — não por falta de apoio popular, mas por excesso de ambição política. Davi Alcolumbre, presidente do Senado, retém a PEC do fim da escala 6x1 como quem guarda um trunfo em um jogo de cartas marcadas, trocando o bem coletivo pela segurança de sua própria posição. É uma cena antiga na história das democracias: o interesse público como moeda, e o poder como fim em si mesmo.
- Uma PEC aprovada com votação histórica na Câmara — 461 votos a favor — está parada há um mês no Senado, sem previsão de votação.
- Alcolumbre sinalizou a aliados que não haverá votação antes das eleições de outubro, usando a proposta como escudo e barganha simultâneos.
- O presidente do Senado precisa garantir sua reeleição à presidência da Casa e proteção no caso Master, investigação que o envolve e tramita no STF.
- Empresários contrários à mudança celebram o congelamento, enquanto o governo Lula acumula munição retórica: o Senado como inimigo dos trabalhadores.
- Alcolumbre recusou tanto a indicação petista para a relatoria quanto a PEC 7x0 da oposição, mantendo-se deliberadamente no centro — e no controle.
Davi Alcolumbre tem nas mãos um ativo político raro. A PEC que acabaria com a escala 6x1 passou pela Câmara com votação esmagadora — 461 a 19 no segundo turno — respaldada por pesquisas de opinião e amplo apoio popular. Tudo indicava que o Senado agiria com rapidez. Um mês depois, a proposta desapareceu da pauta.
Alcolumbre a trancou. Mandou recado aos aliados: nada antes de outubro. E chegou a sinalizar que poderia apoiar o fim do período de transição para implementação da escala — uma ameaça que deixaria o governo em posição delicada, embora ninguém confirme isso abertamente.
Os empresários dos setores contrários à mudança sempre contaram com Alcolumbre como escudo. Ele cumpre o papel, mas não por generosidade. O presidente do Senado precisa garantir sua reeleição à presidência da Casa antes das eleições e, ao mesmo tempo, busca proteção no caso Master — investigação que o envolve e está nas mãos do ministro do STF André Mendonça. Despachar seu ativo mais valioso sem garantias em troca seria um erro que ele não pretende cometer.
O equilíbrio é instável. Otto Alencar tentou emplacar um petista na relatoria da PEC para conter o debate; Alcolumbre recusou. Também não embarcou na PEC 7x0, proposta da oposição bolsonarista. Mantém as mãos livres — o que agrada aos empresários, mas não resolve o dilema.
Votar antes de outubro entrega um ativo sem contrapartida garantida. Não votar alimenta a narrativa de Lula de que o Senado é inimigo do povo. A decisão, quando vier, terá menos a ver com o mérito da proposta e muito mais com os cálculos de sobrevivência política de um homem que aprendeu a transformar o interesse público em moeda de troca.
Davi Alcolumbre tem nas mãos uma moeda de troca que vale ouro político. A PEC que extinguiria a escala 6x1 de trabalho passou pela Câmara dos Deputados com votação esmagadora — 461 votos a favor, apenas 19 contra — em segundo turno, depois de 472 a 22 no primeiro. O apoio popular era evidente. As pesquisas de opinião respaldavam a proposta. Tudo indicava que o Senado votaria rápido e a jornada de trabalho brasileira mudaria de forma significativa.
Mas um mês se passou e a PEC desapareceu. Alcolumbre, presidente do Senado, a trancou na geladeira. Mandou recado aos aliados: não há votação antes das eleições de outubro. E mais: sinalizou que poderia até apoiar o fim da transição para implementação da escala 6x1 — uma ameaça que deixaria o governo desconfortável, embora ninguém confirme isso em público.
Os empresários dos principais setores econômicos contrários à mudança sempre souberam que Alcolumbre seria seu escudo. Ele é. Mas não por altruísmo. O presidente do Senado está usando a PEC como moeda de troca para sua própria sobrevivência política. Precisa garantir sua reeleição à presidência da Casa antes que as eleições aconteçam. E precisa de proteção. O caso Master — investigação que o envolve — está sob a batuta do ministro do STF André Mendonça. Alcolumbre não pode desperdiçar seu ativo mais valioso negociando com o governo sem garantias em troca.
O equilíbrio é frágil. Otto Alencar, presidente da Comissão de Constituição e Justiça, aliado do governo Lula na Bahia, tentou emplacar um petista na relatoria da PEC — uma forma de evitar o debate alongado que a oposição cobra. Alcolumbre recusou. Também não embarcou na PEC 7x0, que flexibiliza a jornada de trabalho, proposta do senador Rogério Marinho, coordenador de campanha de Flávio Bolsonaro. Ele mantém as mãos livres, o que anima os empresários. Mas a verdade é que Alcolumbre está preso em um dilema sem saída fácil.
A oposição prefere que a votação aconteça depois das eleições. Lula tem o discurso pronto para a campanha: o Senado é inimigo do povo. Não votar a PEC agora alimenta essa narrativa. Mas antecipar a votação antes de outubro significa entregar um ativo político sem ter garantido sua reeleição. Alcolumbre não pode despachar o que tem de mais valor em cima do governo sem saber o que receberá em troca. A decisão sobre quando — ou se — a PEC será votada dependerá menos de mérito e mais de cálculos eleitorais e negociações que ainda estão por vir.
Notable Quotes
O Senado é inimigo do povo— Discurso de campanha de Lula sobre a retenção da PEC
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que Alcolumbre não simplesmente vota a PEC e resolve o assunto?
Porque para ele não se trata de resolver o assunto. Trata-se de sobreviver. Ele precisa da reeleição antes de outubro e de proteção contra o caso Master. A PEC é seu único trunfo.
Mas os empresários estão satisfeitos com ele segurando a votação, certo?
Estão, por enquanto. Mas Alcolumbre não pode parecer que está apenas servindo aos empresários. Precisa manter a ilusão de que está negociando com todos os lados.
E o governo? Lula quer que a PEC seja votada?
Lula quer que seja votada depois das eleições, quando puder dizer que o Senado bloqueou a vontade do povo. Mas Alcolumbre não pode dar isso de graça.
Então ninguém quer votar agora?
A oposição não quer. Os empresários não querem. Lula não quer antes das eleições. Só que Alcolumbre precisa parecer que está controlando a situação, não sendo controlado por ninguém.
Qual é o risco real para Alcolumbre se ele não conseguir a reeleição?
O caso Master fica exposto. Sem proteção institucional, sem poder de barganha, ele fica vulnerável. Por isso a PEC não é sobre trabalho. É sobre poder e proteção.