781 corpos recuperados no Nepal, 16 no Tibete; operações de resgate interrompidas por mau tempo e risco de novas inundações. Nepal emite menos de 0,01% dos gases de efeito estufa, mas sofre impactos desproporcionais das mudanças climáticas no Himalaia.
Deslizamento no Nepal e China deixa quase 800 mortos; especialistas alertam sobre mudanças climáticas
O Nepal emite menos de 0,01% dos gases, mas sofre entre os piores impactos
Como exatamente as mudanças climáticas contribuem para um deslizamento de terra desse tamanho?
O aquecimento reduz a sustentação que o gelo fornece às rochas e aumenta a água de degelo. Altera também os padrões de congelamento e descongelamento, tornando grandes desabamentos mais prováveis.
Mas espera — os cientistas disseram que não se deve descrever a mudança climática como a única causa imediata. Então o que exatamente causou este colapso específico?
Boa pergunta. A causa exata ainda não está clara. O que sabemos é que as condições criadas pelo aquecimento global provavelmente contribuíram.
E por que o Nepal sofre tanto se emite tão pouco carbono?
Porque o Nepal está no Himalaia, uma região montanhosa extremamente sensível ao aquecimento. Emite menos de 0,01% dos gases de efeito estufa globais, mas está entre as principais vítimas das mudanças climáticas.
Então é uma questão de geografia e injustiça climática — os que menos poluem sofrem mais.
Exatamente. E agora temos 797 mortos e mais de 3 mil desaparecidos para provar isso.
Qual é o risco agora, enquanto as buscas continuam?
Um lago se formou no local do desastre e começou a transbordar para os rios. Há risco de novas inundações. Além disso, cerca de 100 trabalhadores podem estar presos em um túnel de uma usina hidrelétrica.
E as autoridades estão enterrando centenas de corpos em sepulturas coletivas porque não conseguem lidar com a decomposição. Isso é uma consequência prática do desastre que não aparece nos números de mortos.
Le Pouls
- 797 mortos confirmados: 781 no Nepal, 16 no Tibete
- Mais de 3 mil desaparecidos: 2.502 no Nepal, 546 no Tibete
- Deslizamento ocorreu em 26 de agosto; cerca de 100 trabalhadores presos em túnel de usina hidrelétrica
- Nepal emite menos de 0,01% dos gases de efeito estufa globais
781 corpos recuperados no Nepal, 16 no Tibete; operações de resgate interrompidas por mau tempo e risco de novas inundações. Nepal emite menos de 0,01% dos gases de efeito estufa, mas sofre impactos desproporcionais das mudanças climáticas no Himalaia.
Deslizamento de terra na fronteira Nepal-China deixa 797 mortos e mais de 3 mil desaparecidos. Especialistas alertam que mudanças climáticas aumentaram a probabilidade de desastres em regiões montanhosas.
No domingo, 30 de agosto, o número de mortos no deslizamento de terra que atingiu a fronteira entre o Nepal e a China chegou a 797. Quatro dias após a tragédia ocorrida em 26 de agosto, equipes de emergência continuavam buscando vítimas entre os escombros de edifícios, estradas e pontes destruídas pelas enchentes. Mas o trabalho avançava lentamente: mais de 3 mil pessoas permaneciam desaparecidas, e as operações de resgate enfrentavam interrupções constantes por causa do mau tempo e de um novo perigo que se formava no local.
No Nepal, 781 corpos haviam sido recuperados, com 2.502 pessoas ainda desaparecidas. No Tibete, do lado chinês, 16 corpos foram encontrados e 546 pessoas continuavam desaparecidas. As vítimas jaziam sob uma espessa camada de lama ou entre os destroços das estruturas arrasadas. As operações de resgate foram suspensas várias vezes desde a sexta-feira por causa de um lago que se formou no local do desastre e começou a transbordar para os rios Lhende Khola e Trishuli. A polícia local informou que moradores e equipes de resgate tiveram de se deslocar para áreas mais elevadas após o nível do rio Trishuli subir entre sábado e domingo. As autoridades nepalesas pediram novamente neste domingo que os socorristas atuassem com prudência, diante do aumento do nível do rio Bhotekoshi, no distrito de Rasuwa.
Entre os desafios enfrentados pelas equipes estava a busca por cerca de cem trabalhadores que se acreditava estarem presos desde a catástrofe em um túnel das obras da usina hidrelétrica de Trishuli-3. No domingo, socorristas utilizando equipamentos de perfuração conseguiram avançar até a entrada do túnel. Simultaneamente, as autoridades nepalesas começaram a enterrar centenas de corpos recuperados. Ganesh Arya, chefe da administração distrital de Bharatpur, em Chitwan, explicou a decisão: "Ficamos sem outra opção e tivemos que tomar essa medida. Nossa preocupação era o risco à saúde pública causado pela rápida decomposição dos corpos." Pelo menos 96 corpos não identificados foram enterrados na floresta de Devghat, em Chitwan, no sábado, com planos de sepultar mais de 100 no domingo. Antes do sepultamento, equipes médicas coletaram amostras de DNA de cada corpo e registraram sua localização para que as famílias pudessem identificá-los e exumá-los posteriormente para realizar os ritos funerários tradicionais.
Embora a causa exata do colapso ainda não estivesse clara, autoridades e cientistas apontavam para as mudanças climáticas como fator determinante. O ministro das Relações Exteriores do Nepal, Shisir Khanal, alertou no sábado para a ameaça crescente representada pelas mudanças climáticas no Himalaia. "O Nepal emite menos de 0,01% dos gases de efeito estufa, mas o povo nepalês está entre as principais vítimas das mudanças climáticas", lamentou. Cientistas alertaram que não se deveria descrever a mudança climática como a única causa imediata do colapso da geleira, mas disseram que o aumento das temperaturas e o derretimento do gelo provavelmente contribuíram para o desastre.
Simon Cox, cientista-chefe do programa Mountains to Sea, do Earth Sciences New Zealand, explicou o mecanismo: o aquecimento pode reduzir a sustentação fornecida pelo gelo, aumentar a quantidade de água de degelo e alterar os padrões de congelamento, descongelamento e chuva, tornando grandes desabamentos mais prováveis em alguns locais. "As mudanças climáticas estão criando condições capazes de desestabilizar rochas e gelo em regiões de alta montanha", afirmou Cox. Simon Stiell, chefe da ONU para o clima, descreveu o colapso glacial como "um lembrete devastador de como esses ambientes montanhosos podem ser frágeis" e alertou que "o aquecimento global provocado pela queima em massa de carvão, petróleo e gás torna tragédias como esta, e tantas outras em todo o mundo, muito mais prováveis, frequentes e graves."
A mídia estatal chinesa corroborou essa análise, descrevendo a enchente como "causada pela instabilidade das geleiras sob os efeitos de longo prazo do aquecimento global" e caracterizando-a como uma "nova e relevante característica dos desastres da criosfera" no planalto tibetano. Segundo a CCTV, cientistas chineses constataram que o deslizamento de lama vindo do lado nepalês levou de seis a sete minutos para chegar ao posto de fronteira de Gyirong. Inicialmente, havia especulação de que um terremoto de magnitude 4,4 tivesse provocado o fenômeno, mas o Serviço Geológico dos Estados Unidos determinou que o tremor foi resultado da energia sísmica gerada pelo desmoronamento em si, não sua causa.
O desastre deixou em evidência a vulnerabilidade das regiões montanhosas frente às mudanças climáticas globais e a desproporcionalidade entre as emissões de um país e seus impactos. Enquanto as operações de resgate continuavam no terreno, a questão de como prevenir tragédias semelhantes em um planeta em aquecimento permanecia em aberto.
Citations marquantes
O Nepal emite menos de 0,01% dos gases de efeito estufa, mas o povo nepalês está entre as principais vítimas das mudanças climáticas— Shisir Khanal, ministro das Relações Exteriores do Nepal
O aquecimento global provocado pela queima em massa de carvão, petróleo e gás torna tragédias como esta, e tantas outras em todo o mundo, muito mais prováveis, frequentes e graves— Simon Stiell, chefe da ONU para o clima