No extremo sul do planeta, uma geleira apelidada de 'Geleira do Juízo Final' revela, por meio de um modelo computacional inédito, que o oceano penetra muito mais fundo sob o gelo do que se imaginava — e que as consequências para as costas habitadas do mundo podem ser o dobro do que a ciência projetava. Publicado na Nature Communications, o estudo sobre a geleira Thwaites não é apenas uma atualização de números: é um lembrete de que a natureza frequentemente supera nossa capacidade de mensurá-la, e que o atraso na compreensão tem um custo humano real.
Derretimento da Geleira do Juízo Final pode elevar mar em até 3 cm, o dobro do previsto
A água quente do oceano alcança regiões profundas sob o gelo
Por que essa geleira em particular recebe tanta atenção? Existem outras geleiras derretendo também.
A Thwaites é especial porque é enorme e está em um ponto de inflexão. Se ela começar a recuar rapidamente, pode desencadear um colapso em cascata de outras geleiras na Antártida Ocidental.
Mas precisamos ser claros: o estudo não diz que isso vai acontecer. Diz que há 60% de probabilidade em um cenário específico com uma zona de aterramento de quatro a seis quilômetros. Não sabemos exatamente qual é a largura real.
Então quanto dessa elevação de três centímetros é certo?
Nenhuma parte é absolutamente certa. O modelo é mais realista que os anteriores, mas ainda tem limitações. Os pesquisadores admitem que não conseguem simular completamente a circulação da água sob o gelo.
E há outro ponto: esses cálculos assumem que o clima fica como estava entre 1996 e 2023. Se o aquecimento continuar — o que é esperado — a contribuição pode ser ainda maior.
Então três centímetros é na verdade um piso, não um teto?
Exatamente. É uma estimativa de limite inferior. O cenário real provavelmente será pior.
Mas novamente, isso depende de como a zona de aterramento se comporta, de como o oceano circula sob o gelo, de coisas que ainda não conseguimos medir diretamente.
O que precisaria acontecer para reduzir essa incerteza?
Medições diretas sob o gelo. Temperatura, salinidade, como a água se move. Sem isso, estamos trabalhando com modelos, não com observações reais.
El Pulso
- A geleira Thwaites pode elevar o nível do mar em até 3 centímetros até 2100 — o dobro das estimativas anteriores —, colocando em risco milhões de pessoas em zonas costeiras ao redor do mundo.
- O ponto crítico está invisível: água quente do oceano penetra quilômetros sob o gelo e derrete a geleira por baixo, em uma zona muito mais larga do que os modelos antigos reconheciam.
- A geleira já recuou 25 quilômetros desde os anos 1990 e pode perder seu último ponto de apoio natural — a Crista Mouginot — com 60% de probabilidade de colapso até 2100, e possivelmente já em 2038.
- As projeções ainda carregam incertezas significativas, pois o modelo não simula todos os processos glaciológicos e manteve as condições climáticas fixas, representando apenas um limite inferior do risco real.
- Pesquisadores pedem medições diretas sob o gelo — temperatura, salinidade, circulação — para reduzir as lacunas e tornar as projeções futuras mais confiáveis antes que o tempo para agir se esgote.
No extremo sul do planeta, uma geleira apelidada de 'Geleira do Juízo Final' revela, por meio de um modelo computacional inédito, que o oceano penetra muito mais fundo sob o gelo do que se imaginava — e que as consequências para as costas habitadas do mundo podem ser o dobro do que a ciência projetava. Publicado na Nature Communications, o estudo sobre a geleira Thwaites não é apenas uma atualização de números: é um lembrete de que a natureza frequentemente supera nossa capacidade de mensurá-la, e que o atraso na compreensão tem um custo humano real.
A geleira Thwaites, na Antártida Ocidental, carrega o apelido sombrio de 'Geleira do Juízo Final' — e um novo estudo publicado na Nature Communications sugere que esse nome pode ser mais profético do que se esperava. Um modelo computacional desenvolvido por pesquisadores da Universidade da Califórnia, liderados por Mattia Poinelli, indica que a contribuição da Thwaites para a elevação do nível do mar até 2100 pode chegar a 3 centímetros, aproximadamente o dobro das projeções anteriores.
A chave da descoberta está sob o gelo. Estudos anteriores tratavam a zona de aterramento — onde o gelo deixa de tocar o fundo do mar — como uma linha estreita. Observações de satélite, porém, mostram que essa zona tem entre dois e cinco quilômetros de largura, e que a água quente do oceano penetra profundamente por ela, derretendo a geleira de baixo para cima com uma intensidade que os modelos antigos não conseguiam capturar. Quando o novo modelo incorporou essa realidade e foi comparado com quase três décadas de dados, reproduziu com precisão o recuo de cerca de 25 quilômetros registrado desde meados dos anos 1990.
O estudo também identificou um risco adicional: a Thwaites ainda se apoia parcialmente na Crista Mouginot, uma elevação submarina que funciona como âncora. Conforme o derretimento avança, essa sustentação pode desaparecer. Nas simulações com zonas de aterramento mais largas, a probabilidade de desprendimento da crista chega a 60% até 2100 — e em alguns cenários, esse colapso poderia ocorrer já em 2038.
Os autores são cuidadosos quanto às limitações: o modelo não simula todos os processos glaciológicos, e as condições climáticas foram mantidas fixas, tornando os resultados uma estimativa de limite inferior. Para avançar, defendem medições diretas sob o gelo. O que já está claro, como observa o coautor Eric Rignot, é que a compreensão crescente do que ocorre na base dessas geleiras só aprofunda a preocupação — porque três centímetros, em um planeta com centenas de milhões de pessoas vivendo à beira do mar, não são um número pequeno.
Uma geleira na Antártida Ocidental conhecida como a "Geleira do Juízo Final" pode elevar o nível do mar em até três centímetros até o final deste século — aproximadamente o dobro do que os cientistas estimavam antes. A descoberta, publicada na revista Nature Communications, vem de um modelo computacional mais preciso que finalmente consegue explicar por que a geleira Thwaites está recuando tão rapidamente.
O segredo estava embaixo do gelo. Pesquisadores da Universidade da Califórnia, liderados por Mattia Poinelli, desenvolveram um modelo que representa adequadamente como a água do oceano penetra quilômetros sob a geleira, derretendo-a de baixo para cima. Estudos anteriores tratavam a zona onde o gelo deixa de estar apoiado no fundo do mar — chamada zona de aterramento — como uma linha estreita. Na realidade, observações de satélite mostram que essa zona tem entre dois e cinco quilômetros de largura, e a água quente do oceano alcança regiões profundas sob o manto de gelo, causando um derretimento intenso que os modelos antigos simplesmente não capturavam.
Quando os pesquisadores incorporaram essa representação mais completa ao modelo e o compararam com quase três décadas de observações, conseguiram reproduzir com precisão as mudanças registradas na velocidade, espessura e posição da geleira entre 1996 e 2023. A geleira Thwaites recuou cerca de 25 quilômetros desde meados dos anos 1990, principalmente na sua porção ocidental onde o gelo escoa mais rapidamente. Eric Rignot, coautor do estudo e professor de Ciências do Sistema Terrestre na Universidade da Califórnia em Irvine, observa que essa percepção crescente do que está acontecendo na base de geleiras como a Thwaites provoca uma preocupação ainda maior entre os cientistas que documentam há décadas os impactos das mudanças climáticas.
O novo modelo também revelou algo mais alarmante: a geleira permanece parcialmente estabilizada por uma elevação do fundo do mar chamada Crista Mouginot, que funciona como um ponto de apoio. Conforme o derretimento avança, a Thwaites pode perder esse apoio e recuar em direção a outra elevação submarina. Nas simulações, quando o modelo considerou zonas de aterramento de quatro a seis quilômetros — dimensões compatíveis com observações recentes por satélite — a probabilidade de a geleira se desprender da Crista Mouginot até 2100 chegou a aproximadamente 60%. Em alguns cenários, esse desprendimento poderia ocorrer já em 2038.
As projeções variam conforme a largura da zona de aterramento considerada. Sem representar adequadamente essa zona, a contribuição estimada é de apenas 8,3 milímetros. Com uma zona de um quilômetro, sobe para 1,43 centímetros. Com três quilômetros, chega a 1,94 centímetros. Com cinco quilômetros, atinge 3,01 centímetros — aproximadamente o dobro da contribuição média de 1,52 centímetros que os modelos internacionais usados como referência estimavam. É importante notar que esses cálculos foram feitos mantendo as condições climáticas médias do período de 1996 a 2023 constantes ao longo das simulações, funcionando como uma estimativa de limite inferior que isola o efeito do derretimento na zona de aterramento sem incorporar aquecimento climático adicional.
Os autores reconhecem as limitações do estudo. O modelo não representa todos os processos que podem influenciar a evolução da geleira, como mudanças na posição da frente de gelo provocadas pelo desprendimento de blocos. A representação do derretimento causado pelo oceano é simplificada, não uma simulação completa da circulação da água sob a plataforma de gelo. Além disso, a extensão da zona de aterramento foi mantida fixa nas simulações, embora possa variar conforme as características do fundo marinho, a inclinação do gelo, as marés e a pressão da água sob a geleira.
Os pesquisadores defendem que novas medições diretas de temperatura, salinidade e circulação da água sob o gelo são necessárias para reduzir essas incertezas e aperfeiçoar as projeções futuras. O que está claro é que a Thwaites, uma das geleiras mais instáveis do planeta, representa um risco significativo para comunidades costeiras globais. Três centímetros pode parecer pouco, mas em um planeta onde centenas de milhões de pessoas vivem em áreas litorâneas, até pequenas elevações do nível do mar têm consequências profundas.
Citas Notables
A percepção crescente do que está acontecendo na parte inferior de geleiras como a Thwaites está provocando uma sensação ainda maior de preocupação— Eric Rignot, coautor do estudo e professor de Ciências do Sistema Terrestre na Universidade da Califórnia em Irvine
Observações por satélite demonstram a existência de uma zona de aterramento que às vezes tem vários quilômetros de largura, onde a água quente do oceano alcança regiões profundas sob os mantos de gelo e provoca um derretimento intenso— Mattia Poinelli, autor principal do estudo