Água oceânica quente penetra cavidades sob a geleira Thwaites, intensificada por ventos do oeste causados pelo aquecimento global e mudanças atmosféricas na Antártida. O derretimento da Thwaites representaria aumento de 65 cm no nível do mar global, ameaçando 900 milhões de pessoas em áreas costeiras baixas segundo a ONU.
Geleira do Juízo Final corre risco maior de derretimento que o previsto
Comunidades inteiras poderiam desaparecer em escala bíblica
Por que essa geleira em particular é tão importante? Há outras geleiras que não estão derretendo?
A Thwaites é especial porque é gigantesca e está em um ponto de inflexão. Se ela desaparecer, sobe 65 centímetros — é quase um quarto do aumento total que esperamos do derretimento de gelo. Outras geleiras derretem também, mas essa é a que mais preocupa os cientistas agora.
Mas espera — o estudo diz que a geleira recua 0,5 quilômetro por ano. Isso é mais rápido ou mais lento do que era antes?
Na verdade, é mais lento do que era entre 1992 e 2011, quando recuava 1 quilômetro por ano. Mas é consistente com o que viram entre 2011 e 2020.
Então a taxa de derretimento desacelerou? Isso não é bom?
Não é tão simples. O novo achado é sobre a água salgada quente penetrando por baixo. Isso pode mudar tudo — pode tornar o derretimento irreversível. Mas os cientistas não sabem se isso vai levar décadas ou séculos.
E como eles descobriram essa água salgada se está tudo embaixo do gelo?
Usaram satélites comerciais finlandeses que conseguem ver através do gelo e detectar mudanças na superfície. Antes disso, tinham apenas dados esporádicos. Agora conseguem monitorar continuamente.
Mas eles ainda não sabem se é irreversível ou quanto tempo leva. Então estamos falando de um risco potencial, não de algo que já está acontecendo?
Está acontecendo agora — a água está lá, os satélites confirmam. O que não sabem é se vai chegar a um ponto de não retorno, e quando.
E essas 900 milhões de pessoas que vivem em áreas costeiras baixas — eles sabem disso?
A ONU alertou. Mas saber e agir são coisas diferentes. Muitos desses países são pequenos e pobres. Não têm recursos para se adaptar.
A ONU disse que países inteiros poderiam desaparecer. Isso é baseado só nessa geleira ou em todas as mudanças climáticas juntas?
É o quadro todo. A Thwaites é uma parte importante, mas há outras fontes de aumento do nível do mar — derretimento da Groenlândia, expansão térmica da água. A Thwaites é só uma peça.
Então qual é o próximo passo para os cientistas?
Melhorar os modelos. Se conseguirem incluir esse processo de água salgada nos seus cálculos, conseguem prever melhor o que vai acontecer. Mas isso leva tempo.
O Pulso
- Geleira Thwaites na Antártida corre risco maior de derretimento devido à intrusão de água salgada quente
- Seu colapso total elevaria o nível do mar em 65 centímetros
- Quase 900 milhões de pessoas vivem em áreas costeiras baixas que seriam afetadas
- Pesquisa de universidades da Califórnia e Waterloo publicada em 20 de maio de 2024
- Geleira recua 0,5 quilômetro por ano, confirmado por satélites finlandeses ICEYE
Água oceânica quente penetra cavidades sob a geleira Thwaites, intensificada por ventos do oeste causados pelo aquecimento global e mudanças atmosféricas na Antártida. O derretimento da Thwaites representaria aumento de 65 cm no nível do mar global, ameaçando 900 milhões de pessoas em áreas costeiras baixas segundo a ONU.
Pesquisa de universidades americanas e canadenses revela que a geleira Thwaites, na Antártida, corre maior risco de derreter devido à intrusão de água salgada quente. Seu colapso poderia elevar o nível do mar em 65 centímetros.
Na Antártida, uma das maiores geleiras do planeta está desaparecendo mais depressa do que os cientistas temiam. A Thwaites, apelidada de Geleira do Juízo Final por sua importância crítica para o equilíbrio climático global, enfrenta agora uma ameaça que pesquisadores não tinham plenamente compreendido: água salgada quente do oceano está penetrando por baixo dela, criando condições que aceleram seu colapso. Se essa geleira derreter completamente, o nível do mar subirá 65 centímetros — uma cifra que pode parecer modesta até se considerar que quase 900 milhões de pessoas vivem em áreas costeiras baixas.
A descoberta vem de um estudo conjunto de glaciologistas da Universidade da Califórnia e da Universidade de Waterloo, no Canadá, publicado segunda-feira na revista Proceedings of the National Academy of Sciences. Os pesquisadores identificaram um mecanismo que não estava sendo adequadamente capturado nos modelos climáticos anteriores: ventos intensos vindos do oeste, alimentados pelo aquecimento global rápido e pelo esfriamento da segunda camada atmosférica antártica, estão empurrando água oceânica quente para dentro das cavidades que existem sob a geleira. Essa água acumula-se em dutos e cavernas de gelo, criando pressão suficiente para elevar blocos inteiros de gelo e acelerando o derretimento.
O detalhe que torna tudo mais grave é a química simples da água salgada. Enquanto a água doce congela a zero graus Celsius, a água salgada precisa esfriar até menos dois graus para solidificar. Essa diferença de apenas dois graus, embora pareça insignificante, é suficiente para provocar derretimento em escala massiva. Os pesquisadores coletaram dados entre março e junho de 2023 usando a constelação de satélites comerciais finlandeses ICEYE, que orbita em torno do planeta em uma órbita polar. Antes dessa missão, os cientistas tinham apenas informações esporádicas sobre o que acontecia sob a geleira. Com esses novos dados contínuos, puderam confirmar que a Thwaites recua 0,5 quilômetro por ano — uma taxa consistente com observações anteriores, mas que revela um padrão preocupante.
Eric Rignot, professor da Universidade da Califórnia e cientista da Nasa que liderou o estudo, acredita que a pesquisa abrirá caminho para modelos climáticos mais precisos. "Se conseguirmos adicionar o processo que destacamos no artigo — um processo que não está incluído na maioria dos modelos atuais — as reconstruções devem concordar muito melhor com o que realmente observamos", afirmou. O problema é que os pesquisadores ainda não sabem se a intrusão de água na Thwaites se tornará irreversível em décadas ou em séculos. Estão trabalhando para aprimorar seus modelos de previsão, mas essa incerteza temporal é ela mesma perturbadora: a diferença entre décadas e séculos é a diferença entre uma crise que enfrentaremos em breve e uma que nossos descendentes diretos herdarão.
O contexto amplifica a urgência. Em 2019, a Nasa descobriu uma caverna de 300 metros de altura crescendo no interior da geleira Thwaites — um buraco grande o suficiente para conter 14 bilhões de toneladas de gelo. A maior parte desse gelo havia derretido em apenas três anos. Simultaneamente, um relatório de 2023 da Organização Meteorológica Mundial mostrou que a taxa de aumento do nível global do mar dobrou entre a década de 1993-2002 e a década encerrada em 2022, estabelecendo um novo recorde. Em 2022 sozinho, 58% da superfície oceânica experimentou pelo menos uma onda de calor marinho — outro recorde.
A Organização das Nações Unidas alertou que o aumento do nível do mar representa uma sentença de morte para os países mais vulneráveis. O secretário-geral António Guterres foi direto: "Comunidades inteiras e países poderiam desaparecer. O mundo testemunharia um êxodo em massa de populações em escala bíblica, e a competição por água doce, terra e outros recursos se tornaria cada vez mais acirrada." Essa não é retórica de alarme — é uma descrição das consequências demográficas e geopolíticas que já estão sendo calculadas por agências internacionais. O que acontece na Thwaites não é um problema da Antártida. É um problema que afeta diretamente bilhões de pessoas que vivem nas costas do mundo.
Citações Notáveis
Se conseguirmos adicionar o processo que destacamos no artigo — um processo que não está incluído na maioria dos modelos atuais — as reconstruções devem concordar muito melhor com o que realmente observamos— Eric Rignot, professor da Universidade da Califórnia e cientista da Nasa
Comunidades inteiras e países poderiam desaparecer. O mundo testemunharia um êxodo em massa de populações em escala bíblica, e a competição por água doce, terra e outros recursos se tornaria cada vez mais acirrada— António Guterres, secretário-geral da ONU