Geleira do Juízo Final corre risco maior de derretimento que o previsto

Quase 900 milhões de pessoas vivem em áreas costeiras baixas que seriam afetadas pelo aumento do nível do mar, com risco de desaparecimento de comunidades inteiras e êxodo em massa.
Comunidades inteiras poderiam desaparecer em escala bíblica
Alerta da ONU sobre as consequências do aumento do nível do mar para populações costeiras vulneráveis.
Mark

Por que essa geleira em particular é tão importante? Há outras geleiras que não estão derretendo?

Mimi

A Thwaites é especial porque é gigantesca e está em um ponto de inflexão. Se ela desaparecer, sobe 65 centímetros — é quase um quarto do aumento total que esperamos do derretimento de gelo. Outras geleiras derretem também, mas essa é a que mais preocupa os cientistas agora.

Luke

Mas espera — o estudo diz que a geleira recua 0,5 quilômetro por ano. Isso é mais rápido ou mais lento do que era antes?

Mimi

Na verdade, é mais lento do que era entre 1992 e 2011, quando recuava 1 quilômetro por ano. Mas é consistente com o que viram entre 2011 e 2020.

Luke

Então a taxa de derretimento desacelerou? Isso não é bom?

Mimi

Não é tão simples. O novo achado é sobre a água salgada quente penetrando por baixo. Isso pode mudar tudo — pode tornar o derretimento irreversível. Mas os cientistas não sabem se isso vai levar décadas ou séculos.

Mark

E como eles descobriram essa água salgada se está tudo embaixo do gelo?

Mimi

Usaram satélites comerciais finlandeses que conseguem ver através do gelo e detectar mudanças na superfície. Antes disso, tinham apenas dados esporádicos. Agora conseguem monitorar continuamente.

Luke

Mas eles ainda não sabem se é irreversível ou quanto tempo leva. Então estamos falando de um risco potencial, não de algo que já está acontecendo?

Mimi

Está acontecendo agora — a água está lá, os satélites confirmam. O que não sabem é se vai chegar a um ponto de não retorno, e quando.

Mark

E essas 900 milhões de pessoas que vivem em áreas costeiras baixas — eles sabem disso?

Mimi

A ONU alertou. Mas saber e agir são coisas diferentes. Muitos desses países são pequenos e pobres. Não têm recursos para se adaptar.

Luke

A ONU disse que países inteiros poderiam desaparecer. Isso é baseado só nessa geleira ou em todas as mudanças climáticas juntas?

Mimi

É o quadro todo. A Thwaites é uma parte importante, mas há outras fontes de aumento do nível do mar — derretimento da Groenlândia, expansão térmica da água. A Thwaites é só uma peça.

Mark

Então qual é o próximo passo para os cientistas?

Mimi

Melhorar os modelos. Se conseguirem incluir esse processo de água salgada nos seus cálculos, conseguem prever melhor o que vai acontecer. Mas isso leva tempo.

  • Geleira Thwaites na Antártida corre risco maior de derretimento devido à intrusão de água salgada quente
  • Seu colapso total elevaria o nível do mar em 65 centímetros
  • Quase 900 milhões de pessoas vivem em áreas costeiras baixas que seriam afetadas
  • Pesquisa de universidades da Califórnia e Waterloo publicada em 20 de maio de 2024
  • Geleira recua 0,5 quilômetro por ano, confirmado por satélites finlandeses ICEYE

Água oceânica quente penetra cavidades sob a geleira Thwaites, intensificada por ventos do oeste causados pelo aquecimento global e mudanças atmosféricas na Antártida. O derretimento da Thwaites representaria aumento de 65 cm no nível do mar global, ameaçando 900 milhões de pessoas em áreas costeiras baixas segundo a ONU.

Pesquisa de universidades americanas e canadenses revela que a geleira Thwaites, na Antártida, corre maior risco de derreter devido à intrusão de água salgada quente. Seu colapso poderia elevar o nível do mar em 65 centímetros.

Na Antártida, uma das maiores geleiras do planeta está desaparecendo mais depressa do que os cientistas temiam. A Thwaites, apelidada de Geleira do Juízo Final por sua importância crítica para o equilíbrio climático global, enfrenta agora uma ameaça que pesquisadores não tinham plenamente compreendido: água salgada quente do oceano está penetrando por baixo dela, criando condições que aceleram seu colapso. Se essa geleira derreter completamente, o nível do mar subirá 65 centímetros — uma cifra que pode parecer modesta até se considerar que quase 900 milhões de pessoas vivem em áreas costeiras baixas.

A descoberta vem de um estudo conjunto de glaciologistas da Universidade da Califórnia e da Universidade de Waterloo, no Canadá, publicado segunda-feira na revista Proceedings of the National Academy of Sciences. Os pesquisadores identificaram um mecanismo que não estava sendo adequadamente capturado nos modelos climáticos anteriores: ventos intensos vindos do oeste, alimentados pelo aquecimento global rápido e pelo esfriamento da segunda camada atmosférica antártica, estão empurrando água oceânica quente para dentro das cavidades que existem sob a geleira. Essa água acumula-se em dutos e cavernas de gelo, criando pressão suficiente para elevar blocos inteiros de gelo e acelerando o derretimento.

O detalhe que torna tudo mais grave é a química simples da água salgada. Enquanto a água doce congela a zero graus Celsius, a água salgada precisa esfriar até menos dois graus para solidificar. Essa diferença de apenas dois graus, embora pareça insignificante, é suficiente para provocar derretimento em escala massiva. Os pesquisadores coletaram dados entre março e junho de 2023 usando a constelação de satélites comerciais finlandeses ICEYE, que orbita em torno do planeta em uma órbita polar. Antes dessa missão, os cientistas tinham apenas informações esporádicas sobre o que acontecia sob a geleira. Com esses novos dados contínuos, puderam confirmar que a Thwaites recua 0,5 quilômetro por ano — uma taxa consistente com observações anteriores, mas que revela um padrão preocupante.

Eric Rignot, professor da Universidade da Califórnia e cientista da Nasa que liderou o estudo, acredita que a pesquisa abrirá caminho para modelos climáticos mais precisos. "Se conseguirmos adicionar o processo que destacamos no artigo — um processo que não está incluído na maioria dos modelos atuais — as reconstruções devem concordar muito melhor com o que realmente observamos", afirmou. O problema é que os pesquisadores ainda não sabem se a intrusão de água na Thwaites se tornará irreversível em décadas ou em séculos. Estão trabalhando para aprimorar seus modelos de previsão, mas essa incerteza temporal é ela mesma perturbadora: a diferença entre décadas e séculos é a diferença entre uma crise que enfrentaremos em breve e uma que nossos descendentes diretos herdarão.

O contexto amplifica a urgência. Em 2019, a Nasa descobriu uma caverna de 300 metros de altura crescendo no interior da geleira Thwaites — um buraco grande o suficiente para conter 14 bilhões de toneladas de gelo. A maior parte desse gelo havia derretido em apenas três anos. Simultaneamente, um relatório de 2023 da Organização Meteorológica Mundial mostrou que a taxa de aumento do nível global do mar dobrou entre a década de 1993-2002 e a década encerrada em 2022, estabelecendo um novo recorde. Em 2022 sozinho, 58% da superfície oceânica experimentou pelo menos uma onda de calor marinho — outro recorde.

A Organização das Nações Unidas alertou que o aumento do nível do mar representa uma sentença de morte para os países mais vulneráveis. O secretário-geral António Guterres foi direto: "Comunidades inteiras e países poderiam desaparecer. O mundo testemunharia um êxodo em massa de populações em escala bíblica, e a competição por água doce, terra e outros recursos se tornaria cada vez mais acirrada." Essa não é retórica de alarme — é uma descrição das consequências demográficas e geopolíticas que já estão sendo calculadas por agências internacionais. O que acontece na Thwaites não é um problema da Antártida. É um problema que afeta diretamente bilhões de pessoas que vivem nas costas do mundo.

Se conseguirmos adicionar o processo que destacamos no artigo — um processo que não está incluído na maioria dos modelos atuais — as reconstruções devem concordar muito melhor com o que realmente observamos
— Eric Rignot, professor da Universidade da Califórnia e cientista da Nasa
Comunidades inteiras e países poderiam desaparecer. O mundo testemunharia um êxodo em massa de populações em escala bíblica, e a competição por água doce, terra e outros recursos se tornaria cada vez mais acirrada
— António Guterres, secretário-geral da ONU
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