No coração de São Paulo, o festival SP2B transformou o parque Ibirapuera num espaço de celebração e interrogação simultâneas: enquanto Criolo enchia o palco de música e memória coletiva, artistas, influenciadores e executivos debatiam nos painéis o que significa prosperar numa era em que o sucesso é contado em cliques e a fama cobra um preço que raramente aparece nas métricas. A conversa revelou tensões antigas em roupagens novas — sobre quem recebe o crédito pelo talento feminino, sobre o que se perde quando se ganha visibilidade, e sobre a linha tênue entre preparação e sorte num mundo gover
Criolo e painéis sobre sucesso digital marcam SP2B no Ibirapuera
Nunca é por causa da competência
O que você acha que diferencia alguém que fica famoso de alguém que não fica, se não é mais só o talento?
Acho que é a preparação encontrando o momento certo. Fausto Carvalho estava pronto, mas ninguém sabia. Quando o personagem dele começou a circular, ele já tinha anos de experiência. A sorte é real, mas ela só funciona se você estiver preparado.
Mas Maisa Silva falou sobre alinhamento estratégico com marcas. Isso não é um tipo de cálculo que estraga a coisa?
Talvez. Mas ela também disse que a pessoa precisa se apaixonar pela mensagem. Não é só vender qualquer coisa. É encontrar algo que você realmente acredita e falar disso de um jeito que pareça verdadeiro.
E o que Luciana Gimenez disse sobre o sucesso feminino ser atribuído aos homens — isso é só uma reclamação ou aponta algo estrutural?
É estrutural. Ela trabalhou desde criança, construiu carreira, mas a narrativa sempre foi sobre os homens ao seu redor. Isso não é paranoia. É como a história é contada.
Então o festival estava dizendo que o sucesso digital é melhor ou pior que antes?
Acho que estava dizendo que é diferente. Mais democrático em alguns aspectos — qualquer um pode viralizar. Mas também mais precário, mais vigiado, mais exigente em termos de consistência e credibilidade.
Criolo tocando para uma plateia lotada enquanto isso tudo era debatido — qual era a conexão?
Criolo é um artista que construiu carreira fora do algoritmo, basicamente. Ele tem credibilidade porque faz o que acredita. Talvez fosse um contraste silencioso com toda a conversa sobre marcas e influência.
Le Pouls
- A publicidade migrou definitivamente para os criadores de conteúdo, e o mercado já não consegue operar sem eles — essa dependência mútua foi o fio condutor dos painéis do SP2B.
- Maisa Silva expôs a lógica que as marcas ainda não dominam: autenticidade não é estratégia de marketing, é pré-requisito — sem crença genuína na mensagem, a audiência percebe e abandona.
- Luciana Gimenez trouxe o desconforto que ninguém queria nomear: décadas de carreira construída por competência própria, e o crédito sempre atribuído ao homem mais próximo — Mick Jagger, Marcelo de Carvalho.
- Fausto Carvalho virou símbolo de uma geração que viralizou da noite para o dia, mas sua história revela que por trás do acaso havia anos de preparo acumulado em silêncio.
- O festival encerrou seu sábado não com respostas, mas com fraturas expostas: a liberdade que a fama consome, o crédito que as mulheres não recebem e o timing imprevisível que decide quem o algoritmo escolhe.
No coração de São Paulo, o festival SP2B transformou o parque Ibirapuera num espaço de celebração e interrogação simultâneas: enquanto Criolo enchia o palco de música e memória coletiva, artistas, influenciadores e executivos debatiam nos painéis o que significa prosperar numa era em que o sucesso é contado em cliques e a fama cobra um preço que raramente aparece nas métricas. A conversa revelou tensões antigas em roupagens novas — sobre quem recebe o crédito pelo talento feminino, sobre o que se perde quando se ganha visibilidade, e sobre a linha tênue entre preparação e sorte num mundo governado por algoritmos.
No sábado à noite no parque Ibirapuera, o festival SP2B — realizado em parceria com a Folha e com programação até domingo — dividiu sua alma entre dois mundos: o palco onde Criolo e Ajulliacosta tocaram para uma plateia lotada, e os painéis onde a indústria digital tentou se entender a si mesma.
Criolo percorreu suas duas identidades com a naturalidade de quem não precisa escolher entre elas, alternando samba e rap num setlist que ia de 'Não existe Amor em SP' a covers de Bob Marley, Clara Nunes e Cazuza. Ajulliacosta, em passagem mais breve, aproveitou o microfone para criticar Donald Trump antes de encerrar sua apresentação.
Nos painéis, Maisa Silva foi direta sobre o que o mercado publicitário ainda aprende a custo: uma marca só funciona quando o criador que a representa acredita genuinamente naquilo que diz. Silva falou também sobre a disciplina de manter consistência e a seletividade necessária para preservar credibilidade ao longo do tempo.
A conversa mais incômoda coube a Luciana Gimenez, que sentou ao lado do comediante Victor Jorge e dos jornalistas Hugo Gloss e Joyce Pascowitch para falar sobre o avesso da fama. Gimenez descreveu o assédio constante, a perda de liberdade e, sobretudo, o padrão que a perseguiu por décadas: cada conquista sua sendo atribuída ao homem que estava por perto — Mick Jagger, depois Marcelo de Carvalho. 'Nunca é por causa da competência', disse ela.
A última mesa trouxe Fausto Carvalho, o comediante que virou celebridade com o personagem 'faria limer' Jorginho. Dias antes de viralizar, ele trabalhava em navios de cruzeiro. Para ele, o momento não foi sorte pura — foi preparação que finalmente encontrou sua janela. O SP2B terminou seu sábado não como celebração simples da cultura digital, mas como espelho das suas contradições: o crédito que se nega às mulheres, a liberdade que a visibilidade consome e o papel opaco do algoritmo em decidir quem chega e quem fica.
No sábado à noite no parque Ibirapuera, enquanto Criolo tomava o palco para um show gratuito, a conversa que de verdade importava acontecia em outro lugar: nos painéis espalhados pelo festival SP2B, onde produtores de conteúdo, executivos e celebridades debatiam uma questão cada vez mais central na vida pública — o que significa sucesso quando tudo é medido em números que aparecem na tela.
O festival, que segue até domingo em parceria com a Folha, reuniu uma programação densa de discussões sobre influência digital e publicidade. Mas foi o show de Criolo e Ajulliacosta que encheu o espaço de gente. Diante de uma plateia lotada, Criolo transitou entre suas duas identidades artísticas com naturalidade, alternando entre o sambista e o rapper. Seu setlist incluiu clássicos como "Convoque seu Buda", "Sistema Obtuso" e "Não existe Amor em SP", além de covers que iam de Bob Marley a Clara Nunes e Cazuza. Ajulliacosta, com presença mais breve, apresentou suas próprias músicas e aproveitou para criticar Donald Trump durante a performance.
Nos painéis, a conversa girou em torno de uma realidade que ninguém consegue ignorar: a publicidade e o mercado agora dependem fundamentalmente dos criadores de conteúdo. No palco Bespoke, Maisa Silva conversou com a criadora de conteúdo Luana Benfica, a executiva da Natura Tatiana Ponce e Maiara Garbin, sócia da Mudah. Silva, que trabalha com publicidade desde criança, foi clara sobre o que as marcas precisam: alguém que realmente acredite na mensagem que vai passar. "Quando contratar alguém para representar sua marca, essa pessoa precisa se apaixonar pela mensagem que você quer passar. É para ela falar do jeito mais natural possível", disse. Ela também falou sobre seu próprio esforço em manter consistência nas postagens e credibilidade ao escolher com quais empresas se associar.
Mas nem tudo é lucro e crescimento. No mesmo espaço, Luciana Gimenez sentou ao lado do comediante Victor Jorge e dos jornalistas Hugo Gloss e Joyce Pascowitch para uma conversa mais incômoda sobre o preço da fama. Gimenez não escondeu a ambiguidade de sua posição: gosta do status que conquistou, mas sofre com assédios constantes, críticas excessivas e a perda de liberdade que vem junto. Ela também apontou algo que parecia simples mas que ninguém havia dito em voz alta até então — o sucesso feminino é frequentemente atribuído aos homens. "Tive um filho com o Mick Jagger. Diziam: 'ela só ficou famosa por causa dele'. Depois, quando vim ao Brasil, diziam que eu fiquei famosa porque eu casei com o Marcelo. Nunca é por causa da competência", afirmou.
A última mesa reuniu Felipe Machado Maia, editor-adjunto de economia da Folha, e Fausto Carvalho, o comediante que virou celebridade com o personagem "faria limer" Jorginho. Carvalho contou uma história de transformação: dias antes de viralizar nas redes sociais, ele estava "no fundo do poço", trabalhando em navios de cruzeiro. Para ele, o sucesso súbito não foi sorte — foi preparação encontrando oportunidade no momento certo. O festival, portanto, não apenas celebrou a cultura digital e a influência que ela gera, mas também expôs as fraturas e contradições que vêm junto: o quanto de liberdade se perde, o quanto de crédito as mulheres deixam de receber, e o quanto de sorte e timing importam quando tudo depende de um algoritmo.
Citations marquantes
Quando contratar alguém para representar sua marca, essa pessoa precisa se apaixonar pela mensagem que você quer passar. É para ela falar do jeito mais natural possível.— Maisa Silva
Tive um filho com o Mick Jagger. Diziam: 'ela só ficou famosa por causa dele'. Depois, quando vim ao Brasil, diziam que eu fiquei famosa porque eu casei com o Marcelo. Nunca é por causa da competência.— Luciana Gimenez