CLT virou proposta e jovem está dizendo não — o mercado ainda não entendeu por quê

Se for para ganhar pouco, que seja num lugar que ofereça futuro
O cálculo que a nova geração faz ao comparar CLT e trabalho por plataforma.
Mark

Por que você acha que essa geração está realmente rejeitando a CLT? Não é só uma questão de salário?

Mimi

Não. Se fosse só salário, a conversa seria simples. Mas 54% desses jovens colocam crescimento à frente de dinheiro. Eles estão dizendo que preferem ganhar pouco num lugar que os desenvolva do que ganhar pouco num lugar que os estagna.

Mark

Mas a informalidade é perigosa. Sem proteção, sem aposentadoria. Como eles não veem isso?

Mimi

Veem sim. Mas veem também que a CLT que lhes oferecem é uma armadilha diferente — visível agora, invisível aos quarenta. Quando as duas opções parecem ruins, eles escolhem a que oferece liberdade imediata.

Mark

Então as empresas estão oferecendo a CLT errada?

Mimi

Exatamente. 84% dos jovens ocupados estão em funções generalistas, repetitivas, sem trilha clara. Balconista, escriturário. Sem chefe que ensine, sem ambiente saudável, sem futuro visível. Aí a pergunta deixa de ser ingrata.

Mark

E o que as empresas precisam fazer?

Mimi

Oferecer o que a informalidade nunca oferecerá: desenvolvimento real, liderança preparada, valores reconhecíveis, a sensação de que o primeiro emprego não é um beco sem saída. A CLT só ganha valor quando entrega futuro.

Mark

Você acha que isso é possível em larga escala?

Mimi

Para quem entender primeiro, sim. Mas a maioria das empresas ainda está tentando contratar como se o valor fosse só o salário. Enquanto isso, o jovem faz a conta no bloco de notas e escolhe o aplicativo.

  • Trabalhadores por aplicativo cresceram 170% entre 2015 e 2025, de 770 mil para 2,1 milhões
  • 84% dos jovens ocupados estão em funções generalistas sem exigência de qualificação
  • 54% dos jovens priorizam oportunidade de crescimento sobre salário ao escolher empresa
  • 71% dos trabalhadores de plataforma estão na informalidade, contra 44% do restante da população ocupada

Trabalhadores por aplicativo cresceram 170% em uma década, atraindo jovens que veem na informalidade liberdade e resultados imediatos que a CLT de entrada não oferece. 84% dos jovens ocupados estão em funções generalistas e repetitivas com baixa remuneração; 54% priorizam oportunidade de crescimento sobre salário ao escolher empresa.

A nova geração não rejeita trabalho formal, mas exige que a CLT ofereça desenvolvimento real e trajetória clara. Sem isso, plataformas digitais se tornam alternativa mais atrativa apesar dos riscos.

Um rapaz de dezenove anos abre o bloco de notas do celular e faz uma conta elementar. De um lado, a proposta de emprego com carteira assinada que acaba de chegar: salário inicial definido, horário fixo, um gestor desconhecido e a promessa genérica de que "há espaço para crescer". Do outro, o que ele poderia ganhar entregando comida por aplicativo, vendendo produtos no Instagram, operando em plataformas de e-commerce ou oferecendo serviços por conta própria. Os números se aproximam. E então vem a pergunta que tira o sono de quem está do lado de quem contrata: por que ele aceitaria a carteira assinada?

Esse jovem não é um caso isolado. Ele representa uma geração inteira que redefiniu os critérios pelos quais avalia o trabalho — e as empresas ainda não compreenderam o motivo. Os dados revelam a escala do fenômeno. O Banco Central acompanhou a evolução do trabalho por aplicativo entre 2015 e 2025 e registrou um crescimento de 170% nesse segmento, passando de 770 mil para 2,1 milhões de pessoas, enquanto a população ocupada do país cresceu apenas 10%. O IBGE, em um levantamento mais recente que inclui serviços gerais e profissionais, contabiliza 1,7 milhão de pessoas em plataformas, um avanço de 25% em apenas dois anos. Esses números não descrevem um fenômeno marginal. Descrevem uma porta de entrada que se tornou estrutural. E há um detalhe que muda tudo: segundo modelagem do próprio Banco Central, a maioria dessas pessoas não saiu de empregos formais. Vieram de fora do mercado de trabalho — gente que o sistema formal de entrada simplesmente não conseguia absorver, treinar ou manter.

É nesse cenário que a nova geração cresceu. Ela é a primeira que viu, em tempo real, que existe vida econômica além do contracheque formal. Não idealiza a CLT como único destino porque testemunhou o pai, a mãe ou um irmão mais velho trabalhar registrado a vida toda e chegar ao fim do mês no mesmo lugar. Viu ao lado o colega que entrega, o que vende online, o que edita vídeos para múltiplos clientes, o que abriu loja na Shopee. Essas alternativas não são necessariamente melhores. Mas existem, são visíveis e reescreveram o que o jovem considera uma proposta atrativa. Um diagnóstico recente do Ministério do Trabalho sobre inserção produtiva da juventude mostra que 84% dos jovens ocupados estão em funções generalistas, sem exigência de qualificação, ganhando até um salário e meio. As duas maiores ocupações são balconista e escriturário — juntas, mais de dois milhões de pessoas. Essa é a CLT real oferecida à maioria: baixa, repetitiva, sem trilha clara de ascensão.

Quando esse é o cenário, a pergunta deixa de ser ingrata e passa a ser óbvia. Aqui mora o ponto crítico: não se trata de romantizar a informalidade. Ela é, em grande medida, uma armadilha enorme. O IBGE mostra que 71% dos trabalhadores de plataforma estão na informalidade, contra 44% do restante da população ocupada, e apenas um terço deles contribui para a Previdência. Entre entregadores de moto, a informalidade chega a 84%. É trabalho sem rede de proteção, sem décimo terceiro, sem férias, sem aposentadoria, frequentemente com jornadas mais longas e renda por hora menor. Quem defende esse modelo como libertação está vendendo um futuro incerto embrulhado em discurso de autonomia. O jovem que aposta tudo nisso pode estar trocando a gaiola visível de uma CLT ruim por uma gaiola invisível que só sentirá aos quarenta anos.

Mas aqui está o nó que o mercado precisa desatar: a juventude percebeu algo que muita empresa ainda não percebeu. Se as duas opções parecem ruins, ela tende a escolher a ruim que pelo menos oferece alguma liberdade e um resultado imediato aparentemente melhor. Esse jovem não está fugindo do trabalho formal. Está cobrando que o trabalho formal justifique sua própria existência. Uma pesquisa realizada pelo CIEE em parceria com o Instituto Locomotiva, ouvindo quase nove mil jovens de todo o país em abril de 2026, mostrou que 54% colocam oportunidade de crescimento à frente de salário na hora de escolher uma empresa — e esse fator ganha ainda mais peso quando o jovem precisa eleger um único motivo decisivo. Não estamos diante de capricho de geração mimada. Estamos diante do cálculo de quem entendeu que, se for para ganhar pouco de qualquer jeito, que seja num lugar que ofereça o que a entrega, o bico e a venda online não oferecem: trajetória, aprendizado, um chefe que ensine, um ambiente que não adoeça e a chance concreta de estar melhor daqui a três anos.

A CLT, para essa geração, deixou de ser destino e virou proposta. E proposta se aceita ou se recusa. A carteira assinada só ganha valor quando vem acompanhada das coisas que a informalidade nunca entregará: desenvolvimento real, ambiente saudável, valores reconhecíveis, liderança preparada e a sensação de que o primeiro emprego não é um beco sem saída. Tire isso da equação e a CLT perde para o aplicativo. Não porque o aplicativo seja melhor, mas porque, pelo menos ali, o jovem não precisa fingir que enxerga futuro onde só existe sobrevivência. A mesma pesquisa mostra que 98% dos jovens sonham em trabalhar numa empresa que invista no desenvolvimento deles, e sete em cada dez dizem que não trabalhariam em um lugar cujos valores não reconhecem. Eles estão dizendo, em alto e bom som, o preço pelo qual abrem mão da flexibilidade. E o mercado continua tentando contratar como se esse valor fosse apenas o salário.

Há uma ironia que precisa ser dita. A mesma empresa que reclama que o jovem não valoriza a CLT é, muitas vezes, a que oferece a CLT em sua pior versão: vaga sem plano de carreira, gestor despreparado, jornada que consome o dia inteiro, cobrança alta, escuta baixa e salário que mal cobre transporte, alimentação e vida básica. Essa CLT não está competindo com nada glamouroso. Está competindo com aquele jovem de dezenove anos e seu aplicativo de notas — e, no curto prazo, está perdendo. O recado para quem contrata é desconfortável, mas libertador para quem entender primeiro. O jovem brasileiro não está desvalorizando o trabalho formal. Está exigindo que ele seja melhor do que a alternativa. E a alternativa, hoje, oferece liberdade. Então a CLT precisa oferecer o que a liberdade sozinha não entrega: futuro.

98% dos jovens sonham em trabalhar numa empresa que invista no desenvolvimento deles, e 7 em cada 10 dizem que não trabalhariam em um lugar cujos valores não reconhecem
— Pesquisa CIEE/Instituto Locomotiva, abril de 2026
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