Cavalheiro da velha escola, Walter Ceneviva morre aos 97 anos

Um cavalheiro da velha escola que nunca vendeu a pena
Como era descrito por colegas e alunos que o conheceram ao longo de sua carreira de quase um século.
Mark

Por que a morte de Walter Ceneviva importa agora, em 2025? Ele não estava mais escrevendo há mais de uma década.

Mimi

Porque ele foi um dos últimos juristas que conseguiu ser simultaneamente especialista profundo e comunicador público. Sua coluna na Folha durou 30 anos — isso não é acidental. Ele criou um modelo.

Luke

Mas precisamos ser precisos: ele escreveu até 2013. Isso são 12 anos atrás. A questão é se esse modelo ainda funciona hoje, se ainda há espaço para esse tipo de jornalismo jurídico que ele praticava.

Mimi

Sim, mas o ponto é que ele formou gerações. Ministros do STF, desembargadores — todos passaram por ele. Isso tem peso institucional real.

Mark

Qual era exatamente a diferença entre o que Ceneviva fazia e o que outros juristas fazem quando escrevem para jornal?

Mimi

Ele nunca vendeu a pena, segundo o ministro Herman Benjamin. Isso significa que não havia conflito de interesse, não havia agenda oculta. Ele escrevia com independência genuína.

Luke

Mas isso é uma caracterização de uma pessoa que o conhecia bem. Não temos como verificar se era universalmente verdade ou se era a percepção de quem o admirava. O que sabemos é que ele escreveu por 30 anos sem aparentemente perder credibilidade.

Mark

E quanto ao seu trabalho acadêmico? Os comentários sobre leis — isso ainda é usado?

Mimi

Segundo Celso de Mello, sim. Ele consultou os comentários de Ceneviva sobre Registros Públicos durante sua carreira inteira, tanto no MP quanto no STF. Isso sugere que a obra tem durabilidade.

Luke

Durabilidade, sim. Mas não sabemos se é porque é a melhor obra sobre o tema ou porque foi a primeira que ganhou autoridade. Há uma diferença.

Mark

Qual é o legado concreto que fica? O que as pessoas vão continuar usando?

Mimi

As obras comentadas sobre Direito Civil e Registros Públicos. A coluna — que está arquivada. O modelo de educação que praticava. E a influência que teve em pessoas que agora ocupam posições de poder no judiciário.

Luke

Tudo isso é verdadeiro, mas também é verdade que ninguém está escrevendo novas edições de seus comentários, aparentemente. Não sabemos se essas obras continuam sendo reeditadas ou se viraram referência histórica.

Mark

Ele parece ter sido alguém que não fez concessões. Isso é raro?

Mimi

Muito. A maioria dos juristas de alto nível tem que fazer escolhas entre carreira acadêmica, prática profissional lucrativa e ativismo público. Ceneviva fez tudo simultaneamente sem parecer estar dividido.

  • Formado pela Faculdade de Direito da USP em 1954, mestre em Direito Civil pela PUC-SP
  • Escreveu coluna 'Letras Jurídicas' na Folha de S. Paulo por 30 anos, até 2013
  • Consultor-geral da República em 1961, vice-presidente da Aasp em 1980
  • Autor de comentários sobre Lei dos Registros Públicos e Lei dos Notários e Registradores, obras de referência duradoura

Ceneviva foi formado pela Faculdade de Direito da USP (1954) e mestre em Direito Civil pela PUC-SP, com coluna 'Letras Jurídicas' na Folha de S. Paulo por 30 anos até 2013. Ministros do STF, STJ e TST manifestaram pesar, destacando sua integridade, modéstia, conhecimento enciclopédico e contribuição inestimável ao Direito brasileiro e ao jornalismo jurídico.

Faleceu nesta terça-feira o advogado, jurista e professor Walter Ceneviva, aos 97 anos, deixando legado importante nas áreas de Direito Civil, Comercial, Processual Civil, Administrativo e Constitucional, além de pioneirismo no jornalismo jurídico brasileiro.

Walter Ceneviva morreu na terça-feira, 22 de julho, aos 97 anos, deixando para trás uma trajetória que atravessou sete décadas de prática jurídica, ensino e jornalismo. Formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo em 1954 e mestre em Direito Civil pela PUC-SP, Ceneviva construiu uma carreira que tocou praticamente todas as grandes áreas do direito brasileiro — Civil, Comercial, Processual Civil, Administrativo e Constitucional — mas foi sua capacidade de traduzir essas complexidades para o leitor comum que o tornou figura singular na cultura jurídica do país.

Por três décadas, entre 1983 e 2013, Ceneviva escreveu a coluna "Letras Jurídicas" no jornal Folha de S. Paulo, um espaço onde o direito deixava de ser privilégio de especialistas e se tornava matéria de reflexão pública. Seus comentários sobre decisões judiciais, mudanças na legislação e questões constitucionais marcaram presença constante nas páginas do jornal, estabelecendo um modelo de jornalismo jurídico que priorizava a clareza sem sacrificar a profundidade. Quando a revista eletrônica Consultor Jurídico foi fundada em 1997, Ceneviva estava entre os guias que ajudaram a definir os rumos da publicação, oferecendo sua experiência e conhecimento para uma empreitada que se tornaria referência na cobertura do direito brasileiro.

Sua atuação como professor na PUC-SP deixou marcas profundas em gerações de estudantes. Ministros do Supremo Tribunal Federal, desembargadores e advogados que passaram por suas aulas recordam não apenas o conhecimento enciclopédico que Ceneviva possuía, mas a generosidade com que o compartilhava. O ministro Herman Benjamin, presidente do Superior Tribunal de Justiça, descreveu Ceneviva como alguém que nunca vendeu sua pena nem suas convicções, um homem que se apaixonou cedo pelo direito e manteve essa paixão intacta até o final. Sua modéstia era tão notória quanto sua erudição — qualidade rara em profissionais de seu calibre.

Ceneviva também deixou obra escrita de referência duradoura. Seus comentários sobre a Lei dos Registros Públicos e a Lei dos Notários e Registradores tornaram-se ferramentas de trabalho para juristas em toda a carreira, consultados repetidamente por magistrados e advogados. O ministro aposentado Celso de Mello, colega das Arcadas, mencionou ter utilizado essas obras com grande proveito ao longo de sua trajetória no Ministério Público paulista e no Supremo Tribunal Federal. Essa capacidade de produzir textos que permaneciam úteis e relevantes décadas após sua publicação refletia a profundidade de seu pensamento jurídico.

Sua presença nas instituições jurídicas foi marcante. Ceneviva foi conselheiro da Associação dos Advogados de São Paulo em dois triênios distintos (1975-1977 e 1978-1980), ocupando a vice-presidência em 1980 sob a presidência de Miguel Reale Júnior. Serviu como consultor-geral da República em 1961 e presidiu a Comissão Especial de Liberdade de Imprensa da OAB-SP, demonstrando preocupação constante com a defesa da liberdade de expressão e do direito à informação — temas que atravessaram toda sua obra jornalística.

As manifestações de pesar que chegaram após seu falecimento revelam a estatura que Ceneviva havia alcançado. O ministro Gilmar Mendes, decano do Supremo Tribunal Federal, destacou seu brilhantismo raro e a legião de juristas que formou. Dias Toffoli ressaltou que Ceneviva nunca caiu na tentação do elogio fácil nem da crítica vazia, ajudando a escrever algumas das melhores páginas do direito brasileiro. Otavio Luiz Rodrigues, professor da Faculdade de Direito da USP, o descreveu como "um cavalheiro da velha escola", frase que captura algo essencial sobre sua forma de estar no mundo — elegância, integridade e profundidade combinadas com cortesia genuína.

O velório ocorreu no Cemitério Gethsêmani em São Paulo, com sepultamento marcado para as 16 horas do mesmo dia. A Associação dos Advogados de São Paulo divulgou nota oficial expressando seus sentimentos aos familiares e alunos de Ceneviva, reconhecendo sua contribuição inestimável à classe e à sociedade brasileira. Sua morte marca o encerramento de uma era — a de um jurista que acreditava que o direito deveria ser compreendido por todos, que a clareza era virtude e que a integridade profissional não era negociável. O legado que deixa segue presente nas obras que escreveu, nas gerações de advogados que formou e no modelo de prática jurídica que exemplificou durante quase um século de vida.

Nunca caiu na tentação do elogio fácil nem da crítica vazia. Ajudou a escrever algumas das melhores páginas do direito brasileiro.
— Ministro Dias Toffoli, Supremo Tribunal Federal
Nunca vendeu a sua pena, nem as suas convicções. No fundo era só isso: um homem íntegro e bom, que cedo se apaixonou pelo Direito.
— Ministro Herman Benjamin, presidente do Superior Tribunal de Justiça
Contact Us FAQ