Há décadas, o psicólogo Joseph Renzulli ensina que o talento humano não cabe em um número. Aos 90 anos, ele observa o Brasil criar um cadastro nacional de superdotados e levanta uma questão antiga com urgência renovada: quando uma sociedade decide quem merece atenção especial com base em testes, quantas mentes extraordinárias ficam invisíveis? A superdotação, em sua visão, é uma confluência de habilidade, criatividade e comprometimento — e nenhum desses elementos se deixa capturar completamente por uma prova.
Especialista questiona cadastro nacional de superdotados e defende modelo de enriquecimento
Interesses fortes são tudo. Se uma criança tem um interesse forte, ela vai trabalhar muito mais.
Então o Renzulli está dizendo que um cadastro nacional não funciona. Mas como um país identifica quem precisa de ajuda sem algum tipo de lista?
Ele não está contra identificação. Está contra identificação que se baseia apenas em um número. A ideia dele é começar com experiências para todos — palestras, museus, projetos — e deixar que o interesse genuíno apareça naturalmente.
Mas isso é mais caro e mais complexo de implementar em escala nacional. Ele fala de um modelo que funciona bem em Connecticut, onde há recursos. O Brasil tem 200 milhões de pessoas e desigualdade educacional severa. É realista?
Talvez não seja tudo ou nada. Você pode ter um cadastro, mas alimentá-lo com múltiplas formas de identificação, não apenas QI. Professores treinados para ver criatividade, comprometimento, interesse.
E quanto às crianças que já estão sofrendo porque não foram reconhecidas? Renzulli mencionou frustração.
Sim, ele disse que pode ser muito frustrante para crianças com interesses fortes e curiosidade quando ninguém as vê. Por isso a formação de professores é tão central na proposta dele.
Mas a lei brasileira já foi aprovada em junho. Ela cria o cadastro. Renzulli está criticando uma decisão que já foi tomada. Qual é o espaço real para mudar isso agora?
Talvez o espaço seja em como implementam a lei. Se conseguirem treinar professores para usar múltiplas ferramentas de identificação, não apenas testes.
Verdade. Mas isso depende de vontade política e orçamento. Renzulli oferece uma visão, mas não oferece um caminho claro para um país em desenvolvimento com essas limitações.
The Pulse
- O Brasil aprovou uma lei criando um cadastro nacional de alunos superdotados, mas especialistas alertam que critérios rígidos de QI podem excluir justamente as crianças mais criativas e apaixonadas.
- Renzulli argumenta que um limite arbitrário — como QI 130 — deixa de fora a criança com QI 129, ou aquela fascinada pela migração de piranhas na Amazônia, mas sem pontuação suficiente para entrar na lista.
- São as pessoas com interesses fortes, criatividade e comprometimento que movem economias e sociedades — e muitas delas jamais teriam passado em um teste convencional de superdotação.
- A formação de professores surge como caminho central: educadores precisam aprender a reconhecer talentos por múltiplas vias, não apenas por resultados de provas.
- O desafio para o Brasil permanece aberto: como construir um sistema que identifique e nutra o potencial humano em toda a sua diversidade, sem deixar ninguém para trás?
Há décadas, o psicólogo Joseph Renzulli ensina que o talento humano não cabe em um número. Aos 90 anos, ele observa o Brasil criar um cadastro nacional de superdotados e levanta uma questão antiga com urgência renovada: quando uma sociedade decide quem merece atenção especial com base em testes, quantas mentes extraordinárias ficam invisíveis? A superdotação, em sua visão, é uma confluência de habilidade, criatividade e comprometimento — e nenhum desses elementos se deixa capturar completamente por uma prova.
"Por que eu penso tão rápido?" A pergunta veio de uma criança brasileira superdotada, convidada a dialogar com Joseph Renzulli — psicólogo norte-americano de 90 anos que há mais de cinco décadas redefine o que significa ser superdotado. Renzulli, professor emérito da Universidade de Connecticut, ainda orienta pesquisadores e forma professores de sua casa. Sua contribuição mais conhecida foi desafiar a ideia de que superdotação se resume a um QI: nos anos 1970, ele propôs que ela emerge da intersecção entre habilidade acima da média, criatividade e forte comprometimento com as tarefas.
Quando soube que o Brasil aprovou uma lei criando um cadastro nacional de alunos superdotados, Renzulli expressou ressalvas claras. Um cadastro baseado principalmente em testes de desempenho, argumentou, deixa de fora muitas crianças que se beneficiariam de programas de aprofundamento. "Se vamos colocar crianças na lista somente com base em um resultado de inteligência, vamos deixar de fora muitas que têm alta criatividade e alto comprometimento", disse. Um limite rígido exclui arbitrariamente — e a criança fascinada pela migração de piranhas na Amazônia, mas sem pontuação suficiente, não recebe apoio.
A formação de professores emerge como essencial em sua análise. Renzulli desenvolveu instrumentos para mapear os interesses mais fortes de crianças e defende que a sociedade dá crédito demais a testes. "Por que não avaliamos também quantas crianças escreveram artigos, fizeram filmes, participaram de competições de ciências?", pergunta. Durante a entrevista, crianças brasileiras revelaram as tensões reais da vida intelectual precoce: Rafael, 12 anos, que aos 10 inventou uma fórmula matemática e criou uma língua própria; Sara, 10 anos, que não consegue dormir longe de quem compartilha seus interesses.
O que Renzulli defende é um modelo que começa com oportunidades amplas para todos e permite que os genuinamente entusiasmados avancem — independentemente de estarem em alguma lista oficial. "Se queremos que os países cresçam, precisamos que crianças comecem a trabalhar em suas ideias em vez de memorizar informações para uma prova na sexta-feira", afirmou. Para um país do tamanho do Brasil, a questão permanece: como identificar e nutrir o potencial humano sem deixar ninguém para trás?
"Por que eu penso tão rápido?" A pergunta veio de uma criança brasileira superdotada, convidada pela Folha para formular questões a Joseph Renzulli, psicólogo norte-americano de 90 anos que há mais de cinco décadas estuda a superdotação e ajudou a redefinir completamente como o mundo entende o que significa ser superdotado.
Renzulli, professor emérito da Universidade de Connecticut, não trabalha mais em sala de aula, mas continua orientando pesquisadores e disseminando materiais de formação de professores de sua casa. Sua contribuição mais conhecida foi desafiar a ideia de que superdotação se resume a um número — o QI. Nos anos 1970, ele propôs a teoria dos três anéis: a superdotação emerge quando três características se intersectam: habilidade acima da média, criatividade e forte comprometimento com as tarefas. Essa mudança de perspectiva revolucionou a educação e levou ao desenvolvimento do Modelo de Enriquecimento Escolar, que oferece a todos os alunos experiências variadas para despertar interesses, depois aprofunda o trabalho com aqueles que demonstram envolvimento genuíno.
Quando soube, durante a entrevista, que o Brasil aprovou em junho uma lei criando um cadastro nacional de alunos superdotados para acompanhar suas trajetórias e oferecer atendimento especializado, Renzulli expressou ressalvas claras. Um cadastro baseado principalmente em testes de QI ou desempenho, argumentou, deixa de fora muitas crianças que poderiam se beneficiar profundamente de programas de aprofundamento. "Se vamos colocar crianças na lista somente com base em um resultado de inteligência ou de desempenho, vamos deixar de fora muitas que têm alta criatividade, alto comprometimento com a tarefa", disse. "E essas duas habilidades são tão importantes quanto a capacidade acima da média."
O problema, em sua visão, é que um limite rígido — digamos, QI 130 — exclui arbitrariamente. Uma criança com QI 129 fica de fora. Uma criança fascinada pela migração de piranhas na Amazônia, mas sem pontuação suficiente em testes, não entra na lista e, portanto, não recebe apoio. Renzulli enfatiza que são justamente as pessoas com interesses fortes, criatividade e comprometimento que impulsionam economias e sociedades — as que abrem empresas, escrevem livros, fazem pesquisas. Muitas das pessoas famosas por grandes feitos e invenções, observa, não necessariamente tiveram QI extraordinariamente alto, mas tinham as três características funcionando juntas.
A formação de professores emerge como essencial em sua análise. Educadores precisam aprender a identificar talentos de múltiplas formas, não apenas por provas. Renzulli desenvolveu instrumentos como o Interest-A-lyzer, que ajuda a mapear os interesses mais fortes de crianças e adultos. O maior erro da sociedade, em sua avaliação, é dar crédito demais a testes. "Por que não avaliamos também quantas crianças escreveram e publicaram artigos, poemas, histórias, fizeram filmes, participaram de competição de ciências, se apresentaram em uma peça de teatro?", pergunta. "É mais importante do que simplesmente olhar para resultados de provas."
Durante a entrevista, crianças superdotadas brasileiras fizeram perguntas que revelam as tensões reais da vida intelectual precoce. Rafael Kessler, 12 anos, contou que aos 10 inventou uma fórmula matemática, criou uma língua e desenvolveu nomes para números extremamente grandes — e perguntou o que fazer com essas capacidades. Renzulli sugeriu buscar mentores em universidades próximas ou online, conectar-se com especialistas em sua área de interesse através da internet. Sara Gomide, 10 anos, perguntou por que não consegue dormir longe de casa com outras crianças. Renzulli respondeu que muitos estudos recentes mostram que crianças superdotadas se sentem melhor quando estão com quem compartilha seus interesses e respeita suas diferenças.
O que Renzulli defende é um modelo que começa com oportunidades amplas para todos — palestras, filmes, excursões — e depois permite que aqueles genuinamente entusiasmados avancem, independentemente de estarem em alguma lista oficial. "Se queremos que os países cresçam, precisamos que, cada vez mais, crianças comecem a trabalhar em suas ideias em vez de memorizar informações do quadro-negro a semana toda para fazer uma prova na sexta-feira", afirmou. Para um país do tamanho do Brasil, com sistema educacional complexo e desigual, a questão permanece: como identificar e nutrir o potencial humano sem deixar ninguém para trás?
Notable Quotes
Um dos problemas de um cadastro é que geralmente olhamos apenas para um aspecto, os resultados de QI ou de testes de desempenho. E isso pode deixar de fora muitas crianças que têm interesses diversos e poderiam se beneficiar de programas de aprofundamento do conhecimento.— Joseph Renzulli
Se queremos que os países cresçam, precisamos que, cada vez mais, crianças comecem a trabalhar em suas ideias em vez de memorizar informações do quadro-negro a semana toda para fazer uma prova na sexta-feira.— Joseph Renzulli