Festa do Peão investe R$ 30 milhões em infraestrutura, incluindo novo complexo hoteleiro com 250 apartamentos e 50 cabanas vips. Evento nascido do meio rural agora mira festivais de música eletrônica e eventos internacionais para ocupar o parque o ano todo.
Barretos investe R$ 30 milhões para transformar Festa do Peão em polo de grandes eventos
O melhor parque de eventos do país, com seis bairros dentro dele
Por que uma festa nascida do meio rural precisa agora de festivais de música eletrônica?
Porque o parque existe o ano todo, mas a Festa do Peão ocupa apenas dez dias. Se você investiu R$ 30 milhões em infraestrutura, precisa que ela gere receita além daquele período. A festa é o âncora, mas não pode ser a única coisa.
E isso não descaracteriza o evento original?
Não, porque a Festa do Peão continua sendo o produto principal. Tudo que está sendo construído agora é financiado por ela. Os outros eventos são complementos, formas de manter o parque vivo e rentável quando não há festa.
Como uma cidade de interior consegue competir com grandes centros para atrair eventos internacionais?
Barretos tem algo que muitas cidades não têm: infraestrutura pronta o ano todo, capacidade de hospedagem ampla com Olímpia ao lado, aeroportos próximos e uma organização que já provou saber fazer grandes eventos. Não é só sobre a cidade, é sobre o parque como destino.
Os visitantes típicos têm renda de R$ 14 mil mensais. Eles pagariam por Tomorrowland?
Talvez não os mesmos visitantes. Tomorrowland atrai um público diferente, com poder de compra maior. Mas é exatamente isso que Muzetti quer: diversificar o público, não apenas repetir o mesmo perfil ano após ano.
A inspiração veio do Rock in Rio. Isso não é um pouco irônico?
Muito irônico. Uma festa rural nascida de tradições do campo foi reimaginada a partir de um festival urbano de música eletrônica. Mas mostra como Barretos pensa: não está presa ao passado, está olhando para o que funciona no mundo.
Le Pouls
- R$ 30 milhões investidos em infraestrutura para a edição de 2026
- R$ 600 milhões de receita projetada para a festa
- Complexo hoteleiro com 250 apartamentos e 50 cabanas vips dentro do parque
- Quase 1 milhão de visitantes esperados
- Festa do Peão nascida em 1956, agora na 71ª edição
Festa do Peão investe R$ 30 milhões em infraestrutura, incluindo novo complexo hoteleiro com 250 apartamentos e 50 cabanas vips. Evento nascido do meio rural agora mira festivais de música eletrônica e eventos internacionais para ocupar o parque o ano todo.
A Festa do Peão de Barretos amplia infraestrutura com investimento de R$ 30 milhões, projeta receita de R$ 600 milhões e busca atrair festivais internacionais como Tomorrowland e The Town.
A Festa do Peão de Barretos, nascida há sete décadas como celebração das tradições do campo, está se reinventando. Este ano, a organização investiu R$ 30 milhões em infraestrutura, projetando uma movimentação financeira de R$ 600 milhões e sinalizando ambições bem mais amplas do que rodeios e montarias. O objetivo agora é transformar o parque de 80 alqueires numa plataforma capaz de atrair festivais de música eletrônica, eventos internacionais e qualquer grande atração que precise de espaço, logística e hospedagem de qualidade.
A 71ª edição da festa, que começou na quinta-feira 20 de agosto e segue até o dia 30, oferece 150 atrações musicais distribuídas em cinco palcos, sendo o estádio de rodeios projetado por Oscar Niemeyer o principal deles. Mas os números revelam a transformação em curso: quase um milhão de visitantes esperados, 150 milhões de reais em receita apenas com venda de ingressos (com reajustes de até 20% em relação ao ano anterior), e um complexo hoteleiro novo dentro do parque com 250 apartamentos, 50 cabanas vips e mais 116 unidades para funcionários. Jerônimo Muzetti, presidente de Os Independentes, a associação que organiza a festa, não hesita em afirmar que Barretos possui agora o melhor parque de eventos do país, com estrutura montada o ano todo e pronta para receber qualquer tipo de festival.
O parque já funciona como laboratório dessa diversificação. Além da Festa do Peão, ele abriga anualmente o Barretos Motor Cycles em maio, voltado para motociclistas e fãs de rock, e o Insane Sound em outubro, dedicado a som automotivo. Nenhum desses eventos tem qualquer conexão com o meio rural que originou a festa. Muzetti menciona Tomorrowland, The Town e João Rock como exemplos de festivais que poderiam ocorrer no local. O sonho, segundo ele, é preencher o calendário com eventos de música eletrônica e outros gêneros que fazem sucesso no mundo, mantendo a Festa do Peão como o produto principal que financia e sustenta toda a operação.
A história da festa começa em 1956, mas suas raízes são ainda mais profundas. Nove anos antes, em 1947, já havia montarias registradas em Barretos, quando a cidade era conhecida quase exclusivamente pela pecuária. Barretos era ponto de parada obrigatória das comitivas que transportavam gado entre São Paulo e Mato Grosso do Sul, e possuía um frigorífico desde 1913, o Anglo. Quando os peões boiadeiros paravam para descansar, passavam as noites tocando viola, cantando e brincando de montar nos animais. Desse contexto rural nasceu a festa que hoje é a maior do gênero no país, com faturamento superior ao de cerca de duas mil outras festas similares espalhadas pelo Brasil.
A infraestrutura de hospedagem é um diferencial decisivo. Além do complexo hoteleiro dentro do parque e do camping que comporta 20 mil pessoas, Barretos conta com aproximadamente 4 mil leitos na rede hoteleira da cidade. A vizinha Olímpia, a apenas alguns quilômetros de distância, oferece mais de 35 mil leitos em resorts, hotéis e pousadas, atraída por suas águas termais. São José do Rio Preto e Ribeirão Preto, ambas a cerca de uma hora de distância, possuem aeroportos com voos regulares. Essa malha logística transforma Barretos numa base viável para eventos de grande porte.
Curiosamente, a inspiração para essa transformação veio de um evento que também não tem raízes no meio rural. Quando foi anunciada a criação do estádio de rodeios, o então presidente Mussa Calil Neto, hoje vice-prefeito, viajou ao Rio de Janeiro para encontrar Oscar Niemeyer. Na madrugada anterior ao encontro, o grupo barretense visitou a estrutura do Rock in Rio, cuja primeira edição ocorreu em janeiro de 1985. As estruturas metálicas para filas em caracol, as inovações logísticas e a organização geral do festival carioca inspiraram profundamente a forma como o Parque do Peão foi concebido. Mussa relata que precisou pedir autorização a Roberto Medina para entrar no local, mas o acesso valeu a pena: aquela visita moldou a visão de como um grande evento deveria funcionar.
Os números revelam quem frequenta a festa. Um levantamento da Secretaria de Turismo e Viagens de São Paulo feito em 2025 mostra que o visitante típico tem renda familiar mensal de R$ 14 mil e gasta R$ 605,60 por dia em Barretos, permanecendo em média cinco dias na cidade. Dos R$ 600 milhões projetados de movimentação financeira, R$ 150 milhões vêm da venda de ingressos. O restante distribui-se entre patrocinadores, comercialização de bebidas, feira comercial, praça de alimentação, estacionamento e hotelaria. Os ingressos para os principais dias, 22 e 29 de agosto, para o estádio que comporta 55 mil pessoas nas arquibancadas e pista, foram esgotados há meses.
Muzetti reconhece que embora o sonho seja preencher o calendário anual com grandes eventos, a Festa do Peão permanece como o produto principal, aquele que financia e sustenta os novos empreendimentos. Mas a estratégia está clara: transformar Barretos de um destino sazonal ligado ao agronegócio numa plataforma permanente de eventos, capaz de atrair públicos diversos e receitas o ano todo. Os grandes projetos, segundo ele, virão em breve.
Citations marquantes
Barretos tem o melhor parque de eventos do país. É difícil encontrar no país um parque que tem praticamente seis bairros, com hotel, complexo hoteleiro dentro do parque, tudo pronto para receber as festas e os grandes eventos do país.— Jerônimo Muzetti, presidente de Os Independentes
Os grandes projetos virão logo, logo para ficar aqui em Barretos. A gente quer trazer outros projetos de música eletrônica, outro tipo de música que está no mundo afora, que é sucesso.— Jerônimo Muzetti