Sánchez reconheceu erros do governo e convocou eleições gerais antecipadas para 29 de novembro, citando necessidade de resolver desigualdade, serviços públicos e acesso à moradia. O fracasso legislativo ocorreu após protestos massivos desencadeados pelo despejo de Maricarmen Abascal, 87 anos, que enfrentava aumento de aluguel; manifestantes exigem aluguéis mais baixos e proibição de compra por fundos de investimento.
Sánchez convoca eleições antecipadas na Espanha após fracasso em crise de moradia
Uma em cada quatro famílias espanholas não consegue pagar sua moradia
Por que exatamente Sánchez decidiu convocar eleições agora? Parece uma decisão precipitada.
Não foi precipitada — foi forçada. Seu governo perdeu uma votação crucial sobre moradia na sexta-feira. Dois decretos de emergência foram rejeitados no Congresso. Ele ficou sem os votos de que precisava.
Mas espera — o governo dele é minoritário há tempos. Por que essa derrota específica o levou a convocar eleições? Outras derrotas não fizeram isso?
Porque essa derrota foi simbólica. Ocorreu no contexto de protestos massivos nas ruas, desencadeados pelo despejo de uma idosa de 87 anos. O governo estava respondendo à pressão pública, e mesmo assim perdeu. Ficou claro que ele não tinha apoio parlamentar para agir.
E o caso da Maricarmen Abascal — ela conseguiu voltar para casa?
Sim, chegou a um acordo com a proprietária semanas depois. Mas o dano já estava feito. O caso abriu a discussão sobre algo que preocupa os espanhóis há anos: o acesso à moradia.
Uma coisa me intriga — o relatório da Fundação Foessa diz que uma em cada quatro famílias tem problemas de moradia. Isso é 2024. Mas Sánchez estava no poder desde antes disso. Por que a crise explodiu agora?
Porque Maricarmen Abascal virou símbolo. Uma pessoa real, um rosto, uma história. Isso mobiliza as pessoas de forma diferente de um número em um relatório.
Os partidos de oposição celebraram a convocação das eleições. Isso significa que Sánchez está em posição fraca?
Não necessariamente. Feijóo e Abascal celebraram, mas Abascal mesmo admitiu que as eleições são incertas. Em 2023, o Vox e o Partido Popular lideravam as pesquisas, e Sánchez ainda conseguiu formar governo. As pesquisas não são tudo.
E há um detalhe importante — Salvador Illa, presidente do governo da Catalunha, declarou apoio explícito a Sánchez. Isso pode significar que os nacionalistas catalães estão considerando apoiá-lo novamente.
Então Sánchez pode vencer?
Pode. Mas o que está em jogo agora é se ele conseguirá formar uma coalizão que tenha votos para aprovar legislação sobre moradia. Porque se não conseguir, estaremos de volta ao mesmo lugar.
Exatamente. As eleições resolvem quem governa, mas não resolvem o déficit de 750 mil residências ou a falta de construção nova. Isso vai exigir vontade política e apoio parlamentar — seja qual for o governo que sair das urnas.
Le Pouls
- Eleições antecipadas marcadas para 29 de novembro de 2026
- Dois decretos de emergência sobre moradia foram rejeitados no Congresso em 2 de outubro
- Maricarmen Abascal, 87 anos, despejada por aumento de aluguel; caso desencadeou protestos nacionais
- Déficit habitacional estimado em 750 mil residências na Espanha
- Uma em cada quatro famílias espanholas tem dificuldades de moradia, segundo relatório de 2024
Sánchez reconheceu erros do governo e convocou eleições gerais antecipadas para 29 de novembro, citando necessidade de resolver desigualdade, serviços públicos e acesso à moradia. O fracasso legislativo ocorreu após protestos massivos desencadeados pelo despejo de Maricarmen Abascal, 87 anos, que enfrentava aumento de aluguel; manifestantes exigem aluguéis mais baixos e proibição de compra por fundos de investimento.
O primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez anunciou eleições antecipadas para 29 de novembro após seu governo não conseguir aprovação parlamentar para legislação de emergência sobre moradia, desencadeada por protestos contra o despejo de uma idosa.
Pedro Sánchez entrou no palácio de La Moncloa na segunda-feira, 5 de outubro, e anunciou que a Espanha iria às urnas no dia 29 de novembro. O primeiro-ministro reconheceu, em audiência pública, que seu governo havia cometido erros e não conseguiu cumprir tudo o que havia prometido. Mas o que o levou a convocar eleições antecipadas não foi apenas uma reflexão sobre o desempenho — foi uma derrota parlamentar clara, ocorrida apenas três dias antes, quando o Congresso rejeitou a legislação de emergência que seu governo havia elaborado para enfrentar a crise de moradia que assola o país.
A crise ganhou rosto humano no final de setembro, quando Maricarmen Abascal, uma aposentada de 87 anos, foi despejada de seu apartamento em Madri porque não conseguia pagar o aumento substancial do aluguel. O caso provocou indignação pública imediata. Milhares de pessoas saíram às ruas em todo o país exigindo proteção para inquilinos. Um acampamento foi instalado na Porta do Sol, no coração de Madri, no dia 26 de setembro. Abascal, semanas depois, chegou a um acordo com a proprietária do imóvel e conseguiu voltar para casa, mas o dano político já estava feito. Os protestos continuaram, e as demandas se ampliaram: aluguéis mais baixos, fim dos despejos, proibição da compra de imóveis residenciais por fundos de investimento — aquilo que muitos espanhóis chamam de "fundos abutres".
Em resposta à pressão nas ruas, o governo de coalizão de esquerda liderado por Sánchez elaborou dois decretos de emergência. O primeiro incluía a suspensão dos despejos de inquilinos vulneráveis até 2030, a extensão por dois anos dos contratos de aluguel que venceriam antes de 2028, aumentos de impostos sobre apartamentos destinados ao turismo, e restrições à compra de imóveis residenciais por fundos de investimento. O segundo decreto propunha a renovação automática dos contratos de aluguel — uma exigência central do Sindicato dos Inquilinos da Espanha e de muitos parlamentares de esquerda. Na sexta-feira, 2 de outubro, ambos os decretos foram colocados em votação. O primeiro foi rejeitado por 178 votos a 172. O segundo, por 184 votos a 166. A derrota foi clara e decisiva.
O governo havia contado com o apoio dos partidos nacionalistas menores da Catalunha e do País Basco para compensar a oposição previsível do Partido Popular e do Vox. Mas o partido independentista catalão Junts per Catalunya anunciou sua oposição pouco antes da votação, condenando as medidas ao fracasso. Sánchez ficou sem os votos de que precisava. Naquela segunda-feira, ao anunciar as eleições antecipadas, o primeiro-ministro reconheceu que "ainda restam muitas injustiças a serem corrigidas, muitas metas sociais a conquistar e muitos problemas a resolver, sobretudo no campo da desigualdade, dos serviços públicos e do acesso à moradia". Ele afirmou que a Espanha havia se tornado "a economia que mais cresce e mais cria empregos em toda a União Europeia", mas admitiu que os níveis de desigualdade e pobreza permaneciam altos.
A reação política foi imediata. Alberto Núñez Feijóo, presidente do Partido Popular de centro-direita, celebrou o anúncio, declarando que "finalmente, os espanhóis irão decidir". Santiago Abascal, líder do Vox de direita radical, também expressou aprovação, mas advertiu que as eleições seriam "muito incertas", citando como exemplo as eleições de 2023, quando seu partido e o Partido Popular lideravam as pesquisas, mas Sánchez conseguiu formar um governo de coalizão. Membros do gabinete de Sánchez responderam com otimismo. Yolanda Díaz, segunda vice-presidente e ministra do Trabalho, escreveu que voltariam "com mais força" para enfrentar os aluguéis e reduzir a jornada de trabalho. Mónica García, ministra da Saúde, afirmou que o povo espanhol "estará à altura" e se imporia "ao rancor da rede internacional do ódio". Salvador Illa, presidente do governo da Catalunha, declarou seu apoio a Sánchez: "A Catalunha estará com Pedro Sánchez. Agora, mais do que nunca".
Nas ruas de Madri, as pessoas consultadas pela Reuters mostraram-se divididas. Manuela Feria disse que as eleições já faziam falta e que era necessário "tirá-lo já". Ramón Díaz afirmou que gostaria que entrasse "um governo realmente de esquerda". Florencio Díaz viu a convocação das eleições como "uma grande vitória da luta nas ruas", destacando que na sexta-feira anterior havia ficado demonstrado que "o Congresso não entende os problemas dos cidadãos". Mas Sandra mantinha a cautela: "Tenho um pouco de medo sobre o que poderá acontecer, mas é verdade que, com o governo que temos, as coisas não avançam".
A crise de moradia que precipitou tudo isso é profunda e estrutural. Um relatório da Fundação Foessa indicou que, em 2024, uma em cada quatro famílias espanholas tinha dificuldades para conseguir ou manter sua moradia. O déficit habitacional é estimado em cerca de 750 mil residências. Embora existam milhares de imóveis vazios em todo o país, a maioria não se localiza nos centros urbanos, onde a necessidade é maior. Os níveis de construção de novas residências são muito baixos, afetados pela escassez de solo disponível nas grandes cidades, pelo aumento dos custos dos materiais e pela falta de mão de obra no setor. Agora, com as eleições marcadas para 29 de novembro, caberá aos espanhóis decidir qual caminho seguir para resolver uma crise que afeta milhões de famílias e que, no caso de Maricarmen Abascal, quase custou a uma idosa seu lar.
Citations marquantes
Sei que nós mesmos cometemos erros e não conseguimos fazer tudo a que nos havíamos proposto— Pedro Sánchez, primeiro-ministro da Espanha
Foi uma grande vitória da luta nas ruas. Até a semana passada, não imaginávamos que isso fosse ocorrer— Florencio Díaz, manifestante em Madri