Em meio ao debate sobre prioridades educacionais no Brasil, a campanha de Romeu Zema propõe uma reconfiguração institucional de fundo: retirar o ensino superior do Ministério da Educação e transferi-lo para a pasta de Ciência e Tecnologia, deixando o MEC voltado exclusivamente para a educação básica. A ideia parte de uma crítica antiga e persistente — a de que os recursos federais historicamente favorecem as universidades em detrimento das escolas onde a maioria das crianças brasileiras dá seus primeiros passos. É uma aposta de que mudar a arquitetura do Estado pode mudar o destino da aprendiz
Zema propõe tirar ensino superior do MEC para priorizar educação básica
Se estão ficando mais tempo na escola, mas não estão aprendendo mais, pra que?
A proposta de tirar o ensino superior do MEC parece radical. Como isso funcionaria na prática, se há tanta interdependência entre os dois níveis?
É exatamente o que Calegari reconhece—a divisão pode dificultar a articulação. Mas ele argumenta que essa articulação já não existe de verdade hoje. A ideia é que o MEC se concentre totalmente na educação básica, enquanto universidades e pesquisa vão para Ciência e Tecnologia.
Mas ele mantém os cursos de formação de professores no MEC, certo? Então não é uma separação completa. E ele não apresentou dados sobre como isso afetaria o financiamento ou a qualidade da formação docente.
E quanto aos recursos? Ele disse que a educação básica recebe menos dinheiro?
Sim, ele critica que a maior parte dos recursos federais vai para o ensino superior. Mas não apresentou números específicos ou uma projeção de quanto aumentaria o investimento na educação básica.
Isso é importante notar. É uma crítica à distribuição atual, mas sem dados concretos sobre a proposta alternativa. É mais um diagnóstico do que um plano.
E sobre os salários dos professores? Zema pagava muito pouco em Minas.
Calegari não respondeu diretamente a isso. Disse que é preciso compatibilizar com a capacidade fiscal e mencionou o desequilíbrio das contas mineiras. Mas não comprometeu a campanha com salários maiores.
Então quando pressionado sobre um fracasso concreto da gestão anterior, a resposta foi vaga. Isso deixa em aberto se a política federal seria diferente.
Qual é o fio condutor de todas essas propostas?
Aprendizagem. Tudo—recursos, gestão, formação, tempo integral—deveria ser organizado em torno de melhorar o que os alunos realmente aprendem.
É um princípio sensato, mas também é abstrato. A questão é se as políticas específicas—parcerias privadas em creches, homeschooling, Pé-de-Meia reformulado—realmente levam a melhor aprendizagem. Isso ainda está em aberto.
Der Puls
- A proposta rompe com décadas de estrutura ministerial ao separar ensino superior e educação básica em pastas distintas, o que representaria a maior reorganização do MEC em gerações.
- A crítica central é que o orçamento federal privilegia universidades enquanto professores da rede básica recebem salários insuficientes e creches acumulam filas de espera por todo o país.
- A campanha tenta conciliar essa visão com o histórico de Zema em Minas Gerais, onde o salário inicial docente é um dos menores entre os estados — sem resposta direta sobre como evitaria repetir esse padrão no plano federal.
- A navegação proposta passa por parcerias privadas para creches, tempo integral condicionado a resultados de aprendizagem e reformulação do Pé-de-Meia para alcançar os alunos com maior risco de abandono.
- O horizonte da campanha é uma educação organizada em torno de uma única bússola: aprendizagem mensurável — com carreiras docentes, programas e financiamento todos subordinados a esse critério.
Em meio ao debate sobre prioridades educacionais no Brasil, a campanha de Romeu Zema propõe uma reconfiguração institucional de fundo: retirar o ensino superior do Ministério da Educação e transferi-lo para a pasta de Ciência e Tecnologia, deixando o MEC voltado exclusivamente para a educação básica. A ideia parte de uma crítica antiga e persistente — a de que os recursos federais historicamente favorecem as universidades em detrimento das escolas onde a maioria das crianças brasileiras dá seus primeiros passos. É uma aposta de que mudar a arquitetura do Estado pode mudar o destino da aprendizagem.
A campanha presidencial de Romeu Zema, pelo Partido Novo, defende uma mudança estrutural no Ministério da Educação: transferir o ensino superior para o Ministério de Ciência e Tecnologia, deixando o MEC dedicado exclusivamente à educação básica. A proposta foi apresentada por Diego Calegari, secretário de Educação de Joinville e representante da campanha, no programa Educação em Debate, realizado pela Folha em parceria com a Fundação Lemann, o Instituto Natura, a Nova Foundation e a Associação Bem Comum.
Calegari reconhece que a separação pode enfraquecer a articulação entre os níveis de ensino, mas argumenta que essa conexão já é precária. Uma exceção está prevista: os cursos de formação de professores e as licenciaturas permaneceriam no MEC. A lógica por trás da proposta é redistributiva — segundo ele, a maior parte dos recursos federais em educação vai para o ensino superior, deixando a educação básica e a valorização docente em segundo plano.
Quando confrontado com o fato de Minas Gerais ter o segundo menor salário inicial para professores entre os estados, Calegari não respondeu diretamente, citando restrições fiscais e o desequilíbrio herdado da gestão anterior. A campanha defende uma carreira docente em que a progressão dependa não só do tempo de serviço, mas de formação continuada e desempenho em sala de aula.
Outras propostas incluem a expansão de creches via parcerias com entidades privadas e comunitárias — com a promessa de zerar a fila em até oito anos —, o ensino de tempo integral condicionado a melhorias mensuráveis na aprendizagem e a reformulação do Pé-de-Meia para focar nos estudantes com maior risco de evasão. A campanha também apoia o homeschooling, com mecanismos de acompanhamento estatal. Em todas essas frentes, a aprendizagem é apresentada como o critério organizador central de qualquer política educacional.
A campanha presidencial de Romeu Zema, candidato pelo Partido Novo, apresenta uma proposta que redefiniria a estrutura do Ministério da Educação: tirar o ensino superior da pasta e transferi-lo para o Ministério de Ciência e Tecnologia, deixando o MEC concentrado exclusivamente na educação básica. A ideia foi defendida por Diego Calegari, representante da campanha do mineiro, durante participação no programa Educação em Debate, uma iniciativa da Folha em parceria com a Fundação Lemann, o Instituto Natura, a Nova Foundation e a Associação Bem Comum.
Calegari, que é secretário de Educação de Joinville em Santa Catarina, reconhece que essa divisão poderia prejudicar a articulação entre os dois níveis de ensino, mas argumenta que essa conexão já é frágil na configuração atual do ministério. Ele cita como exemplo a formação de professores, que considera excessivamente teórica e desconectada das necessidades reais das salas de aula. A proposta prevê uma exceção: os cursos de graduação voltados à formação docente e as políticas relacionadas às licenciaturas permaneceriam no MEC, enquanto todas as demais carreiras e responsabilidades do ensino superior migrariam para a pasta de Ciência e Tecnologia.
Por trás dessa reorganização institucional está uma crítica ao modelo atual de distribuição de recursos federais. Segundo Calegari, a maior parte do orçamento público destinado à educação em nível federal vai para o ensino superior, deixando a educação básica e a remuneração de professores em segundo plano. Embora não tenha apresentado números específicos ou projeções de aumento de investimento, ele defendeu que o governo federal deveria assumir papel mais ativo no financiamento dos anos iniciais e na valorização dos docentes. Quando questionado sobre o fato de Zema ter implementado o segundo menor salário inicial para professores entre as redes estaduais—R$ 4.800—Calegari não respondeu diretamente se uma eventual gestão federal repetiria essa política. Em vez disso, argumentou que é necessário compatibilizar a remuneração com a capacidade fiscal e mencionou o desequilíbrio das contas mineiras herdado pela administração anterior.
A proposta de valorização docente vai além do salário. A campanha defende a criação de uma carreira em que a progressão não dependa apenas do tempo de serviço, mas também de formação continuada, participação em comunidades de aprendizagem e avaliação do desempenho em sala de aula. Essa lógica de incentivo por resultados se estende a outras iniciativas. No caso do ensino de tempo integral, Calegari defende a ampliação da jornada, mas condicionada a melhorias mensuráveis na aprendizagem dos alunos. "Se elas estão ficando mais tempo na escola, mas não estão aprendendo mais, pra que o tempo integral?", questionou. Para o Pé-de-Meia, programa que oferece bolsas a estudantes pobres do ensino médio para garantir permanência escolar, a proposta é reformular a iniciativa para focalizá-la nos alunos com maior risco de abandono e vinculá-la a compromissos de melhoria das redes.
Na educação infantil, a campanha pretende expandir vagas em creches através de parcerias com entidades privadas e comunitárias. Calegari defende uma legislação mais aberta à atuação do setor privado na educação, argumentando que ele pode coexistir harmoniosamente com o setor público. Com esse modelo, afirmou ser possível "tranquilamente em quatro ou oito anos zerar a fila de creche no Brasil". A campanha também apoia o homeschooling, permitindo que famílias eduquem os filhos em casa com mecanismos de acompanhamento estatal para garantir que as crianças cumpram os objetivos curriculares previstos.
Todas essas propostas—reorganização institucional, redistribuição de recursos, reformulação de programas, parcerias privadas—giram em torno de um objetivo central: a aprendizagem. Para Calegari, recursos, gestão, formação docente, tempo integral e financiamento devem ser organizados e avaliados a partir dessa prioridade. A campanha de Zema aposta que essa reorientação estrutural poderia melhorar os resultados educacionais no país.
Bemerkenswerte Zitate
Hoje, essa articulação não existe— Diego Calegari, representante da campanha de Zema, sobre a conexão entre ensino superior e educação básica no MEC
A esmagadora parte dos recursos da educação públicos no governo federal vão para o ensino superior e não para a educação básica— Diego Calegari, criticando a distribuição atual de recursos federais