Wall Street cai com Nasdaq a liderar perdas; défice dos EUA dispara 12% e petróleo agrava pressão

Défice, juros e petróleo: a tripla pressão que Wall Street não conseguiu suportar
Três forças convergiram numa única sessão para derrotar os mercados, com o Nasdaq a sofrer o maior impacto.
Mark

Porque é que o Nasdaq caiu mais do que os outros índices, sendo que o Dow Jones quase não se mexeu?

Mimi

O Nasdaq é pesado em tecnologia, e as empresas tecnológicas sofrem particularmente quando os juros sobem. Os seus lucros futuros valem menos quando os yields das obrigações aumentam.

Luke

Mas a Tesla caiu 2,13% apesar de ter apresentado um Roadster impressionante. Isso sugere que nem a inovação consegue compensar o ambiente de juros mais altos.

Mark

E o défice de dois biliões de dólares — é realmente tão grave quanto parece?

Mimi

É significativo. Representa 6,25% do PIB, e o Tesouro atribuiu-o em grande parte aos reembolsos de tarifas de Trump que foram declaradas ilegais. Mas há também o custo crescente dos juros sobre a dívida existente.

Luke

Aqui há um detalhe importante: o Tesouro atribuiu o agravamento aos reembolsos, mas não sabemos exatamente quanto desse aumento de 12% vem de cada fator. É uma estimativa ou uma decomposição precisa?

Mark

E o petróleo? Porque é que subiu tanto?

Mimi

Houve um navio que afundou no Estreito de Ormuz após ser atingido por um projéctil iraniano. Isso intensificou os receios de perturbação nas rotas de fornecimento do Golfo Pérsico.

Luke

Mas a Agência Internacional da Energia libertou 100 milhões de barris da reserva de emergência. Se havia essa preocupação, porque é que o Brent continuou a subir 3,47%?

Mimi

Porque o mercado estava a precificar não apenas o incidente, mas o padrão mais amplo de tensão geopolítica — ataques na Arábia Saudita, na Rússia, na Ucrânia, e a possibilidade de mais disrupções.

Mark

A Reserva Federal vai subir as taxas em dezembro?

Mimi

Os mercados estão a incorporar essa possibilidade em totalidade. Mas para a reunião de final de outubro, a probabilidade é inferior a 20%.

Luke

Kevin Warsh disse que não estava a sinalizar uma decisão definitiva. Isso significa que o mercado pode estar a ser demasiado confiante sobre dezembro?

  • Nasdaq caiu 2,15% para 26.140,03 pontos; S&P 500 recuou 1,09%; Dow Jones cedeu 0,34%
  • Défice orçamental dos EUA atingiu dois biliões de dólares (6,25% do PIB), subida de 12%
  • Yield das obrigações a 10 anos nos 5,09%; Brent acima de 109,60 dólares o barril
  • Navio porta-contentores afundou no Estreito de Ormuz após ataque iraniano

O Nasdaq liderou as perdas com queda de 2,15%, enquanto S&P 500 recuou 1,09% e Dow Jones cedeu 0,34% numa sessão marcada por tripla pressão nos mercados. O défice orçamental dos EUA atingiu dois biliões de dólares (6,25% do PIB), agravado por reembolsos de tarifas de Trump declaradas ilegais e juros crescentes da dívida pública.

Wall Street encerrou em queda com o Nasdaq a cair 2,15%, pressionado pela subida dos juros (yields a 10 anos nos 5,09%), escalada do petróleo (Brent acima de 109 dólares) e divulgação do défice orçamental dos EUA que disparou 12% para dois biliões de dólares.

A sessão de Wall Street desta sexta-feira foi marcada por uma convergência rara de pressões: os juros das obrigações de dez anos subiram para 5,09%, o petróleo Brent escalou acima de 109 dólares o barril, e Washington divulgou que o défice orçamental dos EUA tinha disparado 12% até aos dois biliões de dólares. Os três grandes índices fecharam em terreno negativo, mas o Nasdaq absorveu o impacto mais severo.

O índice tecnológico caiu 2,15%, perdendo 573 pontos para fechar nos 26.140,03. O S&P 500 recuou 1,09% para 7.659,44 pontos, enquanto o Dow Jones cedeu 0,34% para 52.002,41 pontos. A queda do Nasdaq refletiu a vulnerabilidade particular do setor tecnológico a subidas de taxas de juro: quando os yields sobem, os fluxos de caixa futuros descontados que sustentam as avaliações destas empresas perdem valor.

O anúncio do Tesouro norte-americano sobre o défice orçamental chegou como um choque. O défice do ano fiscal atingiu dois biliões de dólares, equivalentes a 6,25% do PIB da maior economia mundial. Scott Bessent, secretário do Tesouro, atribuiu grande parte deste agravamento aos reembolsos de tarifas que Trump tinha imposto mas que os tribunais declararam ilegais. A isto somava-se o custo crescente dos juros sobre a dívida pública já elevada. A notícia ressurgiu menos de um mês antes das eleições de meio de mandato, reabrindo o debate sobre a sustentabilidade das contas públicas americanas.

O movimento nos mercados obrigacionistas refletia preocupação crescente com a inflação, alimentada pela escalada do petróleo. O Brent subiu 3,47% para 109,60 dólares o barril, enquanto o WTI avançou 4,01% para 101,90 dólares. Esta subida prolongava uma valorização que já atingia perto de 78% num ano. O catalisador imediato foi o agravamento das tensões no Médio Oriente: o Comando Central norte-americano confirmou que um navio porta-contentores tinha afundado no Estreito de Ormuz após ser atingido por um projéctil iraniano. Embora mais de 40 embarcações tivessem atravessado o estreito nas últimas 24 horas, a Agência Internacional da Energia libertou os restantes 100 milhões de barris da sua reserva de emergência, lançada em março.

A sessão também foi marcada por ataques na Arábia Saudita, na Rússia e na Ucrânia, e por um projeto de lei nos EUA que pretendia bloquear acordos sobre gasóleo russo. Washington ponderava ainda aliviar sanções a navios que transportassem crude iraniano, russo ou venezuelano numa tentativa de conter os preços da energia. O ouro subiu 0,42% para 4.187,50 dólares por onça, beneficiando da procura por refúgios face ao aperto inflacionista, enquanto o milho cedeu 0,78%.

No plano das empresas individuais, a Tesla surpreendeu com a apresentação do novo Roadster, que executou manobras aéreas impressionantes: subiu uma rampa, fez uma cambalhota controlada e utilizou o seu sistema de suspensão para saltar e dar cambalhotas sobre uma linha de veículos da marca. Apesar desta demonstração de engenharia que reavivou o entusiasmo, as ações caíram 2,13%. A Fox e a Mobileye foram animadas por upgrades de analistas.

Nos mercados de futuros, os investidores já incorporavam em totalidade uma subida de taxas da Reserva Federal em dezembro, após declarações de responsáveis como Christopher Waller apontando para a necessidade de novas subidas para conter a inflação. Porém, uma subida na próxima reunião do FOMC no final de outubro era vista com menos de 20% de probabilidade, depois do discurso do Presidente da Fed em Banguecoque. Kevin Warsh manifestou otimismo sobre a força da economia norte-americana e surpresa com a resiliência das economias globais, mas afirmou categoricamente que não estava a sinalizar uma decisão definitiva.

O radar geopolítico permanecia centrado no conflito EUA-Irão, com os rebeldes Houthi a atacarem infraestruturas sauditas e Washington a ponderar estratégias para conter os preços da energia. A pressão sobre os mercados — juros, petróleo e défice — parecia longe de dissipar.

O secretário do Tesouro atribuiu o agravamento do défice em grande parte aos reembolsos de tarifas impostas por Trump que foram declaradas ilegais pela justiça
— Scott Bessent, Secretário do Tesouro
Kevin Warsh manifestou otimismo sobre a força da economia norte-americana e surpresa com a resiliência das economias globais, mas afirmou categoricamente que não estava a sinalizar uma decisão definitiva sobre taxas de juro
— Kevin Warsh, responsável da Reserva Federal
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