Vídeo com 800 mil visualizações falsamente acusava governador Rui Costa de danificar asfalto para prejudicar Bolsonaro na rodovia federal BR-242. Fresagem mostrada nas imagens é etapa normal de recapeamento executada pelo DNIT, órgão federal responsável por rodovias federais, não pelo governo estadual.
Vídeo falso acusa Bahia de danificar obra federal para prejudicar Bolsonaro
A mentira viajou muito mais longe que a verdade
Por que um vídeo tão claramente falso conseguiu 800 mil visualizações? Qual é a mecânica que faz isso funcionar?
Porque é visualmente convincente e politicamente ressonante. Você vê homens trabalhando, vê marcas no asfalto, ouve uma narrativa que culpa um político específico. Não precisa ser verdade; precisa ser plausível e inflamável.
Mas espera — o vídeo foi removido e repostado. Isso sugere que o criador sabia que era falso, ou apenas que foi questionado e achou que podia tentar novamente com uma legenda diferente?
A segunda legenda — "mandaram da Bahia pra mim" — é interessante. Sugere que ele pode estar apenas repassando algo que recebeu, não necessariamente que inventou.
Certo, mas isso não muda o fato de que ele repostou sabendo que havia sido verificado. Isso é intencional.
E quanto ao Exército? O vídeo diz que o Exército fez o asfalto original. Isso é verdade?
Parcialmente. O Exército fez obras na BR-242, mas em um trecho diferente — entre os quilômetros 794,6 e 803,4. O vídeo foi gravado no km 748. Então não, não foi o Exército que fez o asfalto que está sendo recapeado.
Mas o Exército não negou categoricamente ter feito obras lá. Disse que não conseguia analisar o vídeo com precisão. Isso deixa uma brecha.
Verdade, mas a brecha é pequena. O DNIT foi claro: é responsabilidade federal, e o DNIT está fazendo o trabalho. Rodovias federais não são responsabilidade de governos estaduais.
Então por que alguém inventaria isso? Qual é o ganho político?
Atacar Rui Costa, um governador petista, em ano de eleição. Associá-lo a sabotagem contra Bolsonaro. É desinformação construída para influenciar percepção política.
E funcionou, até certo ponto. Mesmo que o vídeo tenha sido removido, a narrativa já circulou. Quantas pessoas que viram o vídeo original vão ver a verificação?
Boa pergunta. O segundo vídeo teve apenas 2.500 visualizações. A mentira viajou muito mais longe que a verdade.
Exatamente. E isso é o padrão que deveria nos preocupar.
Il Polso
- Vídeo no TikTok com 800 mil visualizações acusava governador Rui Costa de danificar asfalto na BR-242
- Fresagem mostrada é etapa normal de recapeamento executada pelo DNIT, órgão federal
- Rodovias federais são responsabilidade exclusiva do governo federal, não de governos estaduais
- Vídeo foi removido e repostado com legenda diferente após ser questionado
- Perfil @jairinho73 tem 4,6 mil seguidores e publica regularmente apoio a Bolsonaro
Vídeo com 800 mil visualizações falsamente acusava governador Rui Costa de danificar asfalto para prejudicar Bolsonaro na rodovia federal BR-242. Fresagem mostrada nas imagens é etapa normal de recapeamento executada pelo DNIT, órgão federal responsável por rodovias federais, não pelo governo estadual.
Verificação desmente vídeo viral que acusa governo baiano de estragar recapeamento na BR-242. Trabalho de fresagem é responsabilidade do DNIT, não do estado.
Um vídeo publicado no TikTok acumulou mais de 800 mil visualizações antes de ser removido, mostrando imagens de trabalhos em uma rodovia federal na Bahia e acusando o governador Rui Costa de deliberadamente danificar o asfalto para prejudicar o presidente Jair Bolsonaro. Dois homens não identificados narram as cenas enquanto trafegam pela BR-242, próximo a Baianópolis, no oeste baiano, xingando o governador petista e sugerindo que ele estaria sabotando uma obra feita pelo Exército. A acusação é falsa, e a investigação revela um padrão claro de desinformação política construída para atacar uma figura pública em ano de eleições.
O vídeo foi gravado no quilômetro 748 da BR-242, um trecho que corta uma das regiões mais produtivas do país. A rodovia é vital para o escoamento de grãos, soja, milho, café e algodão do Oeste baiano, e suporta tráfego intenso de caminhões. Nas imagens, é possível ver homens trabalhando com uniformes laranja e marcas características de fresagem no asfalto — um processo técnico de remoção de camadas do pavimento que faz parte do trabalho de recapeamento, não uma forma de danificação. O vídeo foi filmado e compartilhado em grupos de WhatsApp, amplificando o alcance da mentira.
A investigação começou com a localização precisa do local usando Google Maps. Os verificadores identificaram placas quilométricas visíveis no vídeo, uma ponte ao fundo e vegetação característica, confirmando que as imagens foram de fato feitas no km 748 da BR-242, próximo ao acesso a Baianópolis pela BA-464. A partir daí, buscaram informações sobre quem estava realizando obras naquele trecho específico.
A Secretaria de Infraestrutura da Bahia (Seinfra) negou categoricamente estar executando qualquer intervenção na BR-242. O secretário estadual de Infraestrutura, Marcus Cavalcanti, foi direto: o governo estadual não faz obras em rodovias federais, que são responsabilidade exclusiva do governo federal. Ele chamou a acusação de "duplo desconhecimento" — primeiro, imputar culpa a quem não está envolvido; segundo, ignorância técnica sobre como funciona a manutenção de estradas. O DNIT, órgão federal responsável pela rodovia, confirmou que é o responsável pelas intervenções. Em nota, informou que mantém contrato de manutenção vigente na BR-242, no segmento que passa por Baianópolis até Beira Rio, com extensão de 240 quilômetros. Os serviços incluem fresagem do pavimento seguida de aplicação de microrrevestimento asfáltico, conforme projeto de engenharia.
Rui Costa respondeu à acusação com ironia, chamando a publicação de "hilária". Mas sua resposta também carregava frustração: apontou que as estradas que ligam a Bahia estão sem manutenção adequada, cheias de buracos, e que o tráfego violento de caminhões é o que danifica o pavimento, não ações deliberadas do governo estadual. O governador destacou que a BR-242 é uma rodovia federal que liga o Centro-Oeste ao estado, portanto fora de sua jurisdição.
Um engenheiro civil com 40 anos de experiência em obras rodoviárias explicou que a fresagem mostrada no vídeo é uma operação corriqueira e necessária em restauração de pavimentos, especialmente quando os danos ao asfalto antigo são extensos. O processo é importante para manter o alinhamento da pista e executar remendos sem desnível durante o recapeamento. Não é sabotagem; é engenharia.
O perfil do TikTok responsável pela publicação, @jairinho73, removeu o vídeo após ser contatado pelos verificadores. Mas no dia seguinte, repostou o mesmo conteúdo com uma legenda ligeiramente diferente: "será possível isso, mandaram da Bahia pra mim, comente aí". O primeiro vídeo tinha mais de 800 mil visualizações quando foi apagado. O segundo havia acumulado quase 2.500 visualizações até a tarde de 14 de setembro. O perfil tem mais de 4,6 mil seguidores e publica regularmente conteúdo de apoio ao presidente Bolsonaro, inclusive durante as manifestações de 7 de setembro na Avenida Paulista.
A investigação ocorre em contexto de crescimento de desinformação política conforme se aproximam as eleições de 2022. Conteúdos falsos construídos para atacar a imagem de figuras políticas circulam com velocidade e alcance cada vez maiores, potencialmente comprometendo a avaliação dos eleitores no momento de decidir por um candidato. Este vídeo é um exemplo claro: uma mentira simples, visualmente plausível, politicamente motivada, amplificada por redes sociais e grupos de mensagens, capaz de atingir centenas de milhares de pessoas em dias.
Citazioni salienti
Não temos nenhuma ligação com a BR-242. É um duplo desconhecimento: primeiro, por imputar culpa a alguém que não está envolvido; e o outro fator é o desconhecimento técnico— Marcus Cavalcanti, secretário de Infraestrutura da Bahia
Infelizmente, é falta de vergonha na cara de quem não conserta as estradas e depois vem acusar os outros— Rui Costa, governador da Bahia