Venezuela inicia negociação com EUA, mas exclui María Corina Machado

Terremoto em junho de 2026 matou milhares de pessoas na Venezuela, afetando contexto político das negociações.
Uma negociação que exclua María Corina está fadada ao fracasso
Crítica de Henrique Capriles sobre a ausência da líder opositora nas negociações entre regime e oposição.
Mark

Por que María Corina Machado foi excluída se outros líderes da oposição dizem que ela é essencial?

Mimi

Washington descartou sua participação repetidamente, apesar de ela ter ganho o Nobel da Paz. Há uma dinâmica de poder aqui que vai além da política venezuelana.

Mark

Mas ela não está sabotando o processo?

Mimi

Não. Ela disse que não será um obstáculo a iniciativas que produzam avanços reais. Mas estabeleceu condições claras: instituições democráticas, libertação de presos políticos, eleições livres. Ela está sendo pragmática.

Mark

Então essa negociação pode funcionar sem ela?

Mimi

Os analistas dizem que não. Uma cientista política que participou de negociações anteriores chama isso de "distribuição de tarefas eleitorais", não de negociação política real. O problema estrutural da Venezuela não desaparece com um novo governo.

Mark

E o terremoto? Como isso muda as coisas?

Mimi

Muda tudo. Força abertura para cooperação internacional. Já aconteceu na Nicarágua em 1972 — um terremoto acelerou a queda de uma ditadura. Tragédia e política estão entrelaçadas aqui.

Mark

Então há esperança?

Mimi

Há possibilidade. Mas não porque a negociação em si seja estruturada para resolver o problema. É porque o caos criado pelo terremoto pode forçar mudanças que a política sozinha não conseguiria.

  • María Corina Machado, prêmio Nobel da Paz 2025, foi excluída das negociações
  • Negociações ocorrem dois anos após fraude eleitoral que reelegeu Maduro
  • Terremoto em junho de 2026 matou milhares de pessoas na Venezuela
  • Nicolás Maduro foi capturado e levado a Nova York em janeiro de 2026
  • Marco Rubio, secretário de Estado americano, é um dos principais arquitetos da política americana para Venezuela

María Corina Machado, principal líder da oposição e prêmio Nobel 2025, foi excluída das negociações apesar de apoio de outros opositores à sua participação. Negociações ocorrem dois anos após fraude eleitoral que reelegeu Maduro e enquanto país se recupera de terremoto que matou milhares em junho de 2026.

Regime venezuelano e oposição iniciam negociações sob mediação dos EUA, mas excluem a líder opositora María Corina Machado, prêmio Nobel da Paz, gerando críticas sobre viabilidade do acordo.

Dois anos depois de uma eleição que todos suspeitam ter sido fraudada, Nicolás Maduro permanece no poder na Venezuela pela terceira vez. Agora, seu regime senta-se à mesa com a oposição novamente — desta vez sob supervisão dos Estados Unidos, e enquanto o país ainda chora as milhares de mortes causadas por um terremoto que sacudiu a nação há pouco mais de um mês. As negociações começam neste sábado, 1º de agosto, com Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional e irmão de Delcy Rodríguez (a número dois do regime que assumiu o comando quando Maduro foi capturado e levado a Nova York em janeiro), sentando-se diante de Dinorah Figuera, presidente da Assembleia Nacional de 2015 — a única instituição venezuelana que Washington reconhece como legítima.

Mas são as cadeiras vazias que revelam a verdadeira história. A ausência mais gritante é a de María Corina Machado, a principal voz da oposição venezuelana e ganhadora do Prêmio Nobel da Paz no ano passado. Apesar de suas repetidas demonstrações de deferência ao presidente americano Donald Trump — inclusive entregando-lhe a medalha do Nobel — Washington tem recusado sistematicamente sua participação neste processo. Desde que deixou o país na véspera da cerimônia de Oslo em dezembro de 2025, quando recebeu o prêmio, Machado tem sido citada por outros líderes opositores como figura indispensável para qualquer acordo que tenha chance de funcionar.

O ex-candidato presidencial Henrique Capriles foi direto: uma negociação que exclua Machado e tudo aquilo que ela representa está condenada ao fracasso desde o início. Dinorah Figuera, que agora senta-se à mesa, afirmou dias depois que María Corina é muito importante para o processo e que, a partir de 1º de agosto, convidaria todos os setores democráticos a participar e contribuir. A própria Machado, sem comentar publicamente a manobra que a deixou de fora, declarou na semana passada que não será um obstáculo a nenhuma iniciativa que produza avanços reais. Mas estabeleceu critérios claros: recuperação das instituições democráticas, libertação de todos os presos políticos, garantias reais para todos os atores políticos sem exclusão, um cronograma eleitoral presidencial apropriado e respeito pleno à soberania popular.

Analistas apontam que a aprovação de Machado pode ter peso considerável pela popularidade que ainda sustenta em seu país. Impedida de concorrer nas eleições de 2024, ela apoiou o diplomata Edmundo González — que, de acordo com atas eleitorais coletadas pelos próprios venezuelanos e verificadas por organismos internacionais, provavelmente venceu o pleito. Colette Capriles, cientista política da Universidade Simón Bolívar, vê a mesa de negociações não como um espaço de diálogo político real, mas como uma distribuição de tarefas para que ocorra uma eleição conforme os planos de Marco Rubio, secretário de Estado americano e um dos principais arquitetos do ataque à Venezuela há sete meses. "Não vejo estrutura adequada para uma negociação política real. Aparentemente, é para uma negociação eleitoral", afirma a pesquisadora, que participou das conversas de 2017 na República Dominicana. "Isso não significa nada, porque o problema na Venezuela não será resolvido com um novo governo."

A tutela americana ficou clara na forma como tudo foi anunciado. Em 11 de julho, Rodríguez afirmou que os venezuelanos não tinham "capacidade mental" para pensar em acordos naquele momento por causa do terremoto de final de junho. Chamou de desrespeitoso e insultuoso que políticos se reunissem para decidir quem ocuparia o Conselho Nacional Eleitoral ou o Supremo Tribunal. Apenas três dias depois, o mesmo terremoto tornou-se a justificativa para saudar a negociação em um comunicado divulgado nas redes sociais do político. O apoio internacional unânime ao povo e ao governo para enfrentar a tragédia, escreveu, mostrava que só em união poderiam avançar na reconstrução e na manutenção da paz.

O terremoto pode de fato influenciar os rumos políticos da Venezuela de maneiras que ninguém consegue prever completamente. Isso já aconteceu antes: em 1972, um terremoto em Manágua acelerou a queda da ditadura da família Somoza na Nicarágua. Segundo Colette, o terremoto força o governo e os Estados Unidos a abrir as portas da cooperação internacional sob as regras de organizações multilaterais como a ONU, o Banco Mundial e a União Europeia. Enquanto isso, a negociação prossegue sem a mulher que a oposição diz ser essencial para seu sucesso.

Uma negociação que exclua María Corina Machado e tudo o que ela representa está fadada ao fracasso
— Henrique Capriles, ex-candidato presidencial
Não vejo estrutura adequada para uma negociação política real. Aparentemente, é para uma negociação eleitoral
— Colette Capriles, cientista política da Universidade Simón Bolívar
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