Vacina de Oxford neutraliza variante brasileira, aponta estudo in vitro

Precisamos vacinar rápido para não dar chance de mutações prejudicarem a eficácia
Pesquisadora da USP alertava sobre a urgência da vacinação em massa no Brasil contra a variante P.1.
Mark

Por que esse estudo in vitro importa se ele não testa em pessoas?

Mimi

Porque ele nos diz se os anticorpos conseguem reconhecer o vírus. Se falhassem no tubo de ensaio, falharia também no corpo. Não é prova de eficácia, mas é um sinal de alerta ou de esperança.

Mark

A P.1 é mais transmissível, mas a vacina funciona melhor contra ela do que contra a sul-africana. Por quê?

Mimi

Provavelmente porque as mutações que a tornam mais transmissível não são as mesmas que a fazem escapar dos anticorpos. A sul-africana concentrou suas mudanças justamente nos pontos que as vacinas atacam.

Mark

A redução de 2,6 a 2,9 vezes nos anticorpos — isso é muito ou pouco?

Mimi

Pouco, comparado ao que vimos com a sul-africana. E estudos anteriores mostraram que essa queda não derruba a proteção na vida real. Mas é um sinal de que o vírus está aprendendo a se esquivar.

Mark

O que significa "vacinar rápido"?

Mimi

Significa que cada pessoa vacinada é uma chance a menos para o vírus mutar. Se ele circular livremente enquanto tentamos vacinar, pode desenvolver mudanças que as vacinas atuais não conseguem neutralizar.

Mark

Então o Brasil estava em uma corrida contra o tempo?

Mimi

Estava. A P.1 era mais transmissível, o que significa que se espalharia rapidamente. E quanto mais se espalhasse, mais oportunidades teria de mutar de formas que as vacinas não reconhecessem.

  • A variante P.1, mais transmissível que linhagens anteriores e portadora de mutações preocupantes, acendia o alerta de que o vírus evoluía mais rápido do que as campanhas de vacinação no Brasil.
  • Estudos in vitro revelaram uma queda nos anticorpos gerados pelas vacinas de Oxford e Pfizer diante da P.1 — 2,9 e 2,6 vezes respectivamente —, levantando dúvidas sobre a durabilidade da proteção.
  • A comparação com a variante sul-africana, contra a qual as reduções chegaram a 9 vezes, trouxe relativo alívio: a P.1 mostrou-se menos resistente às vacinas do que se temia.
  • Cientistas como Natalia Pasternak alertaram que a alta transmissibilidade da P.1 poderia torná-la rapidamente dominante no Brasil, tornando a velocidade da vacinação uma questão de sobrevivência coletiva.
  • O estudo, ainda sem revisão de pares, apontava para um cenário manejável — mas um segundo trabalho publicado no New England Journal of Medicine reforçou que a variante sul-africana seguia sendo uma ameaça sem resposta clara.

Em março de 2021, pesquisadores de Oxford e da Fiocruz Amazônia trouxeram uma notícia de alento em meio à incerteza pandêmica: as vacinas de Oxford e Pfizer demonstraram, em laboratório, capacidade de neutralizar a variante brasileira P.1, originária do Amazonas. Embora os níveis de anticorpos tenham caído em comparação às cepas comuns, a proteção se manteve em patamar semelhante ao observado contra a variante britânica — e muito superior ao enfrentado diante da cepa sul-africana. A ciência sinalizava esperança, mas também um aviso: o tempo para vacinar era tão urgente quanto a própria ameaça.

Em março de 2021, um estudo conduzido por pesquisadores de Oxford e da Fiocruz Amazônia ofereceu uma perspectiva encorajadora sobre a variante brasileira do coronavírus. Amostras de sangue de 50 pessoas vacinadas — metade com Oxford, metade com Pfizer — foram testadas contra a cepa P.1, identificada no Amazonas. O resultado preliminar indicou que ambas as vacinas mantinham capacidade de neutralização, apesar de uma redução nos níveis de anticorpos em relação às cepas mais comuns.

A queda foi de 2,9 vezes para a Oxford e 2,6 vezes para a Pfizer — números que, embora expressivos, ficaram bem abaixo das reduções de 7,6 e 9 vezes registradas contra a variante sul-africana B.1.351. O desempenho foi comparável ao observado contra a cepa britânica, considerada menos ameaçadora. Sue Ann Costa Clemens, coordenadora dos centros de pesquisa da vacina de Oxford no Brasil e coautora do estudo, avaliou o resultado como muito positivo, estimando que a eficácia contra a P.1 deveria ser próxima à registrada contra a variante britânica.

A microbiologista Natalia Pasternak, da USP, confirmou que a P.1 possui alta afinidade com os receptores das células humanas, o que a torna mais transmissível e capaz de se tornar rapidamente prevalente no país. Ainda assim, ela ressaltou que a variante não apresenta um escape tão pronunciado da vacina de Oxford — uma boa notícia para o Brasil, que dependia fortemente desse imunizante. O alerta, porém, era claro: vacinar com rapidez era essencial para impedir que novas mutações comprometessem a eficácia dos imunizantes.

O estudo tinha limitações reconhecidas pelos próprios autores: tratava-se de análise in vitro, sem testes em seres humanos vivos. Dias depois, um segundo trabalho publicado no New England Journal of Medicine — com revisão de pares e conduzido em pessoas — trouxe notícias preocupantes sobre a variante sul-africana, indicando que duas doses da Oxford não conferiam proteção contra casos leves a moderados da B.1.351. A P.1 representava um cenário menos sombrio, mas a corrida contra o tempo permanecia aberta.

Um estudo de laboratório publicado em março de 2021 trouxe notícias encorajadoras sobre a capacidade das vacinas em circulação de enfrentar a variante brasileira do coronavírus. Pesquisadores de Oxford e da Fiocruz Amazônia testaram amostras de sangue de 25 pessoas vacinadas com o imunizante de Oxford e outras 25 que receberam a Pfizer, observando como os anticorpos dessas pessoas se comportavam diante da cepa P.1, originária do Amazonas.

O resultado, ainda que preliminar e sem revisão de outros cientistas, mostrou que ambas as vacinas conseguiam neutralizar o vírus. Houve uma queda nos níveis de anticorpos em comparação com as cepas mais comuns — a Pfizer apresentou redução de 2,6 vezes e a Oxford de 2,9 vezes — mas essa diminuição não comprometeu a proteção. O desempenho foi semelhante ao observado contra a variante britânica, bem menos preocupante do que o enfrentado pela variante sul-africana, contra a qual as reduções chegaram a 7,6 e 9 vezes respectivamente.

A preocupação inicial dos pesquisadores era legítima. A P.1 compartilha mutações semelhantes com outras variantes perigosas, especialmente na região do vírus que se liga às células humanas. Isso a torna mais transmissível que as linhagens anteriores. Mas, surpreendentemente, ela mostrou-se menos resistente aos anticorpos naturais ou induzidos por vacina do que a variante sul-africana, sugerindo que outras mudanças naquela cepa podem ter um papel importante na neutralização.

Sue Ann Costa Clemens, coordenadora dos centros de pesquisa da vacina de Oxford no Brasil e uma das autoras do estudo, ofereceu uma perspectiva otimista. Ela apontou que as duas variantes se comportam de maneira muito semelhante, e que no caso britânico a eficácia caiu apenas de 80% para 75%. "Temos que esperar os estudos de efetividade aqui, mas acreditamos que vá ser um índice parecido para a P.1. É um resultado muito positivo", disse.

A microbiologista Natalia Pasternak, da USP, que avaliou o trabalho, confirmou que a P.1 tem uma afinidade muito grande com o receptor das células humanas, o que lhe dá vantagem de ser mais transmissível. "Com isso ela vai ganhar fácil a briga e deve se tornar prevalente no Brasil bem rapidamente", explicou. Mas ela também trouxe uma mensagem de alerta: a variante não tem um escape tão grande da vacina de AstraZeneca, o que é uma boa notícia para o Brasil, que dependia desse imunizante. Porém, a velocidade da vacinação seria crucial. "Precisamos vacinar rápido para não dar a chance de as cepas desenvolverem mais mutações que podem prejudicar a eficácia das vacinas."

O estudo tinha limitações claras. Tratava-se de análise in vitro, feita em laboratório, não em seres humanos. Ainda faltavam testes de eficácia em pessoas vivas. Mas os cientistas apontavam que estudos anteriores no Reino Unido já haviam comprovado que pequenas perdas no nível de anticorpos não prejudicavam a efetividade da vacina na prática.

Dias depois, um segundo estudo publicado no New England Journal of Medicine — este sim com revisão de pares e realizado em pessoas — trouxe más notícias sobre a variante sul-africana. O trabalho constatou que duas doses da vacina de Oxford não conferiam proteção contra casos leves a moderados da covid-19 causada pela B.1.351. Ainda não estava claro se a vacina teria alguma eficácia contra casos graves e óbitos. A P.1, portanto, representava um cenário menos sombrio, mas a corrida contra o tempo continuava.

É um resultado muito positivo. Essas duas cepas se comportam de maneira muito semelhante, e no caso britânico a eficácia caiu apenas de 80% para 75%.
— Sue Ann Costa Clemens, coordenadora dos centros de pesquisa da vacina de Oxford no Brasil
Precisamos vacinar rápido para não dar a chance de as cepas desenvolverem mais mutações que podem prejudicar a eficácia das vacinas.
— Natalia Pasternak, microbiologista da USP
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