Um encontro improvável com Paulo Coelho em Munique: quando o invisível comanda o mundo

é o invisível que comanda o mundo
A conclusão que a autora chega após vinte anos de reflexão sobre sincronicidades e encontros inesperados.
Mark

Por que você acha que esse encontro com Paulo Coelho foi tão significativo? Parecia uma coincidência comum.

Mimi

Não era comum. Eu não sabia que ele era devoto do Menino Jesus de Praga. Descobri isso por acaso, lendo uma reportagem na véspera. Quando entreguei o santinho, seus olhos marejaram. Aquilo não era reação de alguém recebendo um presente qualquer.

Luke

Mas você só descobriu que ele era devoto depois de ler a reportagem. Então o encontro em si não era tão mágico assim — era você tendo uma ideia, e ele recebendo bem. A sincronicidade que você sente agora vem dessa informação que você ganhou depois.

Mimi

É verdade. Mas é exatamente isso que me interessa. A vida não funciona como a gente planeja. Eu estava sem dinheiro, sem poder comprar um livro, e mesmo assim consegui dar algo que importava profundamente para ele.

Mark

E agora, vinte anos depois, você está em Barcelona com a agente dele. Isso foi planejado?

Mimi

Não. Eu estava em Barcelona por outras razões. Encontrei Mônica através de conexões que não tinha nada a ver com Paulo Coelho. Mas quando nos encontramos, ela confirmou o que eu sempre soube: o invisível comanda o mundo.

Luke

Confirmou como? Ela disse isso literalmente, ou você está interpretando a conversa dessa forma?

Mimi

Ela disse. Mas mais do que as palavras, foi a sensação de estar ali, naquele escritório, sabendo que vinte anos atrás eu tinha entregado um santinho a um homem que mudou a vida de milhões de pessoas.

Mark

Você acha que Paulo Coelho se lembra de você?

Mimi

Não faço ideia. Mas não importa. O que importa é que aquele momento foi real, foi genuíno, e abriu uma porta que eu não sabia que existia.

Luke

Mas você não pode confirmar se ele se lembra ou se aquilo significou algo duradouro para ele. Você tem apenas o seu lado da história.

Mimi

Tenho. E é suficiente.

  • Encontro com Paulo Coelho em Munique em 2007
  • Autora entregou santinho do Menino Jesus de Praga ao escritor sem saber que ele era devoto
  • Quase vinte anos depois, encontro com Mônica Antunes, agente de Coelho em Barcelona

A autora estava em Munique com bolsa de pesquisa quando colegas a pediram para encontrar Paulo Coelho, seu ídolo, mas ela não tinha dinheiro para comprar um livro. Sem saber que Coelho era devoto do Menino Jesus de Praga, ela entregou um santinho da imagem ao escritor, cujos olhos marejaram de gratidão ao receber o presente.

Colunista relata encontro fortuito com Paulo Coelho em Munique em 2007, quando entregou um santinho do Menino Jesus de Praga ao escritor, descobrindo posteriormente que ele é devoto da imagem.

Minha avó tinha certeza de que eu seria freira. A convicção vinha de duas mortes que escapei antes de completar um ano de vida, e também de um hábito que desenvolvi assim que aprendi a andar: pegar uma imagem do Menino Jesus de Praga e encostar na testa de quem reclamasse de dor de cabeça. Segundo ela, a dor passava na hora. Perdi esse dom há tempos. Hoje carrego Neosaldina na bolsa, e a beatificação não será possível, mas continuo gostando muito daquela imagem.

Em outubro de 2007, viajei de Munique para Praga com minha filha Beatriz, então com quatro anos, e o dinheiro contado. Queria apenas assistir a uma missa no dia 9, aniversário de minha avó. A cerimônia era em espanhol. Quando me aproximei do padre para comungar, Beatriz me seguiu e sussurrou "gracias". A auxiliar de missa, sem hesitar, entregou a hóstia à criança. Beatriz começou a reclamar alto que queria "comer o biscoitinho", enquanto eu tentava explicar que era Jesus ali. Só consegui recuperar a hóstia prometendo chocolates.

Depois, na sacristia, o padre me chamou em português. Era indiano, de Goa, e havia ouvido minha explicação desesperada com Beatriz. Achou lindo. Começou a nos benzer com água benta e muito entusiasmo. Beatriz perguntou por que ele estava nos dando banho. Antes de partirmos, o padre me entregou um pacote com cem orações para o Menino Jesus de Praga. Voltamos para Munique devidamente banhadas de água santa, com pouquíssimas moedas que troquei por chocolates na estação.

Eu estava em Munique com uma bolsa de pesquisa, junto com três colegas: uma japonesa, uma coreana e um polonês. No dia em que retornei de Praga, descobrimos que Paulo Coelho estava na cidade. Meus colegas entraram em pânico. A japonesa chorava, o polonês gritava, a coreana tremia. Suplicaram para que eu fosse com eles falar em português com o ídolo. Meia hora depois, eu estava diante de Paulo Coelho, mas sem dinheiro para comprar um livro. Para não passar vergonha, estendi a mão e entreguei um dos santinhos do Menino Jesus de Praga que o padre me havia dado.

Não sabia que Coelho era devoto fervoroso daquela imagem. Descobri lendo uma reportagem emoldurada na parede da igreja, na véspera do encontro. Uma coincidência que parecia impossível. Quando entreguei a oração, seus olhos marejaram. Agradeceu quatro vezes, com gratidão sincera. Acho que o Mago tinha pedido algum sinal ao destino.

Quase vinte anos depois, estou em Barcelona, no escritório de Mônica Antunes, a mulher que fez o mundo inteiro conhecer os livros do brasileiro mais lido do planeta. Ela é chamada de Bruxa de Barcelona por ter aberto um caminho tão iluminado quanto improvável. Estou diante dela, e só posso chamar isso de milagre do Menino Jesus de Praga. Não virei santa, estou cheia de pecados, mas desta vez comi pizza com uma bruxa que me confirmou o que sempre suspeitei: é o invisível que comanda o mundo.

Agradeceu quatro vezes, com gratidão sincera
— Descrição da reação de Paulo Coelho ao receber o santinho
É o invisível que comanda o mundo
— Confirmação de Mônica Antunes à autora em Barcelona
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