Um ano depois de Donald Trump proclamar o fim da guerra em Gaza, o cessar-fogo existe apenas no papel: ataques aéreos israelenses continuam ceifando vidas palestinas, enquanto o território — devastado em 82% de suas estruturas — aguarda uma reconstrução que não pode começar sem um acordo político que ninguém parece disposto a ceder. Entre a exigência israelense de desarmamento total do Hamas antes de qualquer retirada e a insistência da facção em que Israel cumpra seus compromissos primeiro, Gaza permanece suspensa num limbo onde a paz foi anunciada, mas a guerra nunca terminou de verdade.
Um ano após cessar-fogo, Gaza segue em crise com 1.431 mortos e impasse na reconstrução
O cessar-fogo permanece suspenso em um vácuo, formalmente vigente mas esvaziado de seu propósito
Um ano se passou desde o anúncio do cessar-fogo. Como é possível que ainda haja 1.431 mortos se a guerra supostamente acabou?
O cessar-fogo é formal, mas não significa que as operações militares pararam. Israel continua com ataques aéreos e operações no terreno, alegando que está respondendo a violações do Hamas. A violência caiu 61% em relação ao segundo ano da guerra, então tecnicamente há menos morte, mas continua acontecendo.
Importante notar: esses 1.431 mortos são números do Ministério da Saúde de Gaza, que está ligado ao Hamas. A ONU considera confiáveis, mas é uma fonte única. E a queda de 61% é comparada especificamente ao segundo ano da guerra, não ao primeiro ano ou ao período anterior ao conflito.
E a reconstrução? Parecia que era parte do acordo.
Está praticamente parada. Israel controla 70% do território agora e mantém restrições de acesso a 65% de Gaza. Sem acesso, não há como reconstruir. Além disso, 82% das estruturas sofreram danos, com dois terços completamente destruídas. O custo estimado é de US$ 71,4 bilhões para a próxima década.
Essa estimativa de US$ 71,4 bilhões vem de uma avaliação conjunta de ONU, União Europeia e Banco Mundial, feita em abril. É um número sólido, mas é uma projeção. A realidade pode ser diferente conforme as operações continuam.
Então qual é o impasse real? Por que não conseguem avançar?
Netanyahu diz que Israel não vai sair de Gaza até o Hamas se desarmar completamente. O Hamas diz que Israel precisa cumprir seus compromissos primeiro, especialmente a retirada de tropas. É um círculo vicioso: ninguém quer dar o primeiro passo.
Há um plano de 15 pontos que prevê desarmamento gradual enquanto Israel se retira gradualmente. Netanyahu rejeitou isso em agosto. Mas precisamos ser claros: não sabemos se o Hamas aceitaria esse plano ou se insistiria em sua posição. Temos apenas a posição de Netanyahu registrada.
E a população? Como está vivendo?
Terrível. Dois milhões e cem mil pessoas deslocadas. 94% precisa urgentemente de auxílio para moradia e itens básicos. 65% vive em tendas ou abrigos improvisados. As necessidades humanitárias são avassaladoras.
Esses números vêm do Ocha, que é confiável, mas refletem a situação em um momento específico. A situação pode estar piorando ou melhorando, mas o relatório mais recente é de início deste mês, então é relativamente atual.
Der Puls
- Apesar do cessar-fogo formalmente em vigor desde outubro de 2025, pelo menos 1.431 palestinos foram mortos e 5.026 feridos — a violência caiu, mas não parou.
- Israel expandiu seu controle territorial de 53% para 60% de Gaza e ordenou avançar até 70%, usando a chamada 'linha amarela' como instrumento de pressão sobre o Hamas e o Hezbollah.
- A reconstrução está paralisada: 65% do território permanece inacessível, dois terços das construções estão completamente destruídas e o custo estimado chega a US$ 71,4 bilhões para a próxima década.
- Com 94% da população necessitando de auxílio urgente e 65% das famílias vivendo em tendas, a crise humanitária aprofunda-se enquanto o impasse político persiste.
- Netanyahu recusou o plano de 15 pontos apoiado por Trump e declarou que não haverá retirada antes do desarmamento completo do Hamas, que por sua vez exige o oposto — tornando a segunda fase do acordo um horizonte cada vez mais distante.
Um ano depois de Donald Trump proclamar o fim da guerra em Gaza, o cessar-fogo existe apenas no papel: ataques aéreos israelenses continuam ceifando vidas palestinas, enquanto o território — devastado em 82% de suas estruturas — aguarda uma reconstrução que não pode começar sem um acordo político que ninguém parece disposto a ceder. Entre a exigência israelense de desarmamento total do Hamas antes de qualquer retirada e a insistência da facção em que Israel cumpra seus compromissos primeiro, Gaza permanece suspensa num limbo onde a paz foi anunciada, mas a guerra nunca terminou de verdade.
Um ano após Donald Trump anunciar o fim da guerra em Gaza, o cessar-fogo existe formalmente, mas a realidade no terreno conta outra história. Ataques aéreos israelenses e operações militares continuam matando palestinos, transformando o que deveria ser um período de reconstrução em uma extensão indefinida do conflito. Desde o anúncio oficial, em outubro de 2025, o Ministério da Saúde de Gaza registrou ao menos 1.431 mortos e 5.026 feridos — números que incluem vítimas de ferimentos anteriores e corpos retirados dos escombros. Embora a violência tenha caído 61% em relação ao segundo ano da guerra, a morte segue sendo uma constante na vida cotidiana do território.
O controle territorial tornou-se o cerne do impasse. O acordo original previa que Israel mantivesse presença em cerca de 53% de Gaza com retirada gradual, mas Netanyahu declarou em maio que o país já controlava 60% e ordenou avançar até 70%. Analistas observam que Israel usa esse domínio territorial para pressionar o Hamas e o Hezbollah a se desarmarem, mantendo a militarização como ferramenta de coerção.
A reconstrução permanece praticamente paralisada. Imagens de satélite revelam que 82% das estruturas de Gaza sofreram algum dano — mais de 200 mil construções —, com dois terços completamente destruídas, número que cresceu 9% desde o cessar-fogo. Uma avaliação conjunta da ONU, União Europeia e Banco Mundial estima em US$ 71,4 bilhões o custo de recuperação na próxima década, com US$ 26,3 bilhões necessários apenas nos primeiros 18 meses. O território teria sofrido um retrocesso de 77 anos em desenvolvimento humano. Dos 2,1 milhões de habitantes, 94% necessitam urgentemente de auxílio, e 65% vivem em tendas ou abrigos improvisados.
O verdadeiro obstáculo está na segunda fase do acordo. O plano americano previa uma administração palestina tecnocrática, retirada progressiva israelense e desarmamento do Hamas. Em julho, o Hamas anunciou a dissolução de seu órgão administrativo e a transferência de funções civis a um comitê de tecnocratas — movimento que Israel classificou como um 'truque', bloqueando a entrada dos novos integrantes. Em agosto, Netanyahu rejeitou o plano de 15 pontos apoiado por Trump, afirmando que não haverá retirada antes do desarmamento completo. O Hamas insiste no caminho inverso. Com posições irreconciliáveis, o cessar-fogo permanece suspenso num vácuo — formalmente vigente, mas esvaziado de seu propósito original.
Um ano atrás, Donald Trump anunciou que a guerra na Faixa de Gaza havia terminado. Hoje, o cessar-fogo permanece formalmente em vigor, mas a realidade no terreno conta uma história bem diferente. Ataques aéreos israelenses e operações militares continuam causando mortes entre a população palestina, transformando o que deveria ser um período de reconstrução em uma extensão indefinida do conflito.
Segundo relatório divulgado pela Ocha, o escritório de assuntos humanitários das Nações Unidas, o Ministério da Saúde de Gaza registrou pelo menos 1.431 mortos e 5.026 feridos desde o anúncio oficial do cessar-fogo em 10 de outubro do ano passado. Esses números incluem pessoas que faleceram por complicações de ferimentos e corpos recuperados dos escombros. No mesmo período, quatro soldados israelenses foram mortos em ações do Hamas, conforme informou o Exército de Israel. Embora a violência tenha caído 61% em comparação com o segundo ano da guerra, segundo dados do Acled, um banco de dados que monitora conflitos armados globalmente, a morte continua sendo uma constante na vida cotidiana de Gaza.
O controle territorial tornou-se o cerne do impasse. O cessar-fogo original previa que Israel mantivesse presença em cerca de 53% de Gaza, com retirada gradual. Em maio, porém, o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu declarou que Israel já controlava 60% do território e havia ordenado às Forças Armadas alcançar 70%. Essa zona de controle é demarcada pela chamada "linha amarela", estabelecida pelo Exército israelense. Nasser Khdour, analista de Oriente Médio do Acled, observa que Israel tem utilizado esse controle territorial para pressionar tanto o Hamas quanto o Hezbollah a se desarmarem, mantendo a militarização ao redor dessa linha como ferramenta de coerção.
A reconstrução permanece praticamente paralisada. Um relatório recente da Ocha aponta que restrições de acesso a 65% do território de Gaza continuam sendo obstáculo fundamental, enquanto os 35% restantes já estão superlotados. Além disso, limitações na entrada de suprimentos e equipamentos essenciais impedem reparos de infraestrutura crítica. Análises de satélite da Unosat, centro de satélites das Nações Unidas, revelaram que 82% das estruturas de Gaza sofreram algum tipo de dano, representando mais de 200 mil construções. Aproximadamente dois terços foram classificadas como completamente destruídas, e esse número cresceu 9% desde a declaração do cessar-fogo.
O custo da reconstrução é astronômico. Uma avaliação conjunta da ONU, União Europeia e Banco Mundial calculou em US$ 71,4 bilhões o investimento necessário para recuperar e reconstruir Gaza na próxima década, com US$ 26,3 bilhões requeridos apenas nos primeiros 18 meses. O relatório estima que o território sofreu um retrocesso de 77 anos em desenvolvimento humano. A maioria dos 2,1 milhões de habitantes de Gaza permanece deslocada. Segundo o Ocha, 94% da população necessita urgentemente de auxílio para moradia e itens domésticos básicos, enquanto 65% das famílias vivem em tendas ou abrigos improvisados.
O verdadeiro obstáculo, porém, reside na segunda fase do acordo. O plano apresentado pelos Estados Unidos previa a criação de uma administração palestina tecnocrática, retirada progressiva das tropas israelenses e desarmamento do Hamas. Em janeiro, Trump anunciou a criação do Conselho da Paz para supervisionar a implementação. Em julho, o Hamas anunciou a dissolução de seu órgão administrativo e disse que entregaria funções civis a um Comitê Nacional para a Administração de Gaza, formado por tecnocratas palestinos. Israel classificou o anúncio como um "truque" e manteve bloqueada a entrada dos integrantes da nova administração.
O impasse agora se concentra na ordem dos próximos passos. Um plano de 15 pontos apoiado por Trump prevê desarmamento gradual do Hamas enquanto Israel retira suas forças progressivamente. Em agosto, Netanyahu rejeitou a proposta, afirmando que não haverá nenhuma retirada antes que o Hamas se desarme completamente. A facção, por sua vez, insiste que Tel Aviv deve primeiro cumprir seus compromissos, especialmente a retirada de tropas. No domingo passado, Netanyahu voltou a indicar que as operações continuarão, declarando durante cerimônia oficial que "não haverá governo do Hamas em Gaza". Dias antes, ele e o ministro da Defesa afirmaram que perseguirão integrantes da facção "até que o Hamas não exista mais". Com essas posições irreconciliáveis, o cessar-fogo permanece suspenso em um vácuo, formalmente vigente mas esvaziado de seu propósito original.
Bemerkenswerte Zitate
Não haverá governo do Hamas em Gaza— Binyamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, em cerimônia oficial no domingo
Israel tem procurado pressionar a população em geral por meio de ordens de retirada, ataques contínuos, destruição de infraestrutura e controle territorial— Nasser Khdour, analista de Oriente Médio do Acled