Netanyahu fora do poder seria renovação espiritual para Israel, diz brasileiro-israelense

O ataque do 7 de Outubro matou mais de 1.200 pessoas em Israel e a resposta israelense causou mais de 73 mil mortes em Gaza, principalmente civis.
Estamos fortes, mas não é uma força alegre ou de vitória
Schorr descreve o estado emocional de Israel um ano após o ataque de 7 de Outubro.
Mark

Quando você fala em "renovação espiritual", o que exatamente você quer dizer? Isso é sobre política ou é algo mais profundo?

Mimi

É os dois. Depois de tudo que vivemos, há um cansaço com a forma como as coisas foram conduzidas. Netanyahu virou sinônimo de uma certa dureza, e as pessoas querem acreditar que outro caminho é possível.

Luke

Mas Eisenkot também se opõe a um Estado palestino. Qual é a renovação espiritual se a política externa continua basicamente igual?

Mimi

A diferença está na forma, não só no conteúdo. Eisenkot promete investigar o que falhou no 7 de Outubro. Há uma possibilidade de responsabilização que não existe agora.

Mark

E quanto ao isolamento internacional que você mencionou? Uma mudança de premiê resolve isso?

Mimi

Não resolve sozinha. Mas muda a narrativa. Pessoas no exterior associam Netanyahu a uma certa imagem. Um novo rosto poderia abrir portas que estão fechadas.

Luke

Você disse que o cessar-fogo não aliviou as críticas. Por que você acha que uma mudança de governo faria diferença se a política continua a mesma?

Mimi

Porque há esperança de que uma liderança diferente pudesse ter feito escolhas diferentes. E talvez ainda possa fazer. Não é garantido, mas é possível.

Mark

Você visitou o túmulo de seu amigo Tal Elion. Como você equilibra essa dor pessoal com a esperança política?

Mimi

Não equilibro. Elas coexistem. A dor não desaparece com eleições. Mas a esperança de que algo mude, de que não foi tudo em vão, ajuda a seguir em frente.

  • Israel chega às eleições de 27 de outubro marcado por dois anos de conflito, luto coletivo e um isolamento internacional que cresce a cada semana sem solução diplomática à vista.
  • As pesquisas apontam enfraquecimento do partido de Netanyahu, mas a formação de um novo governo dependerá de negociações complexas entre os múltiplos partidos do Knesset.
  • Gadi Eisenkot, ex-general e principal nome da oposição, concentra as esperanças de quem quer mudança — mas também se opõe à criação de um Estado palestino, mantendo uma linha dura que limita qualquer ruptura real com o passado.
  • Para Schorr, o maior fracasso não foi militar, mas diplomático: a ausência de uma campanha internacional coordenada pelo desarmamento do Hamas deixou Israel cada vez mais sozinho no palco global.
  • A visita ao túmulo de um amigo morto no 7 de Outubro resume o estado emocional de um país que ainda sangra, mas que, segundo Schorr, aprendeu uma força que ele mesmo não recomenda a ninguém.

Dois anos após o ataque que abalou as fundações de uma nação, Israel se prepara para ir às urnas em 27 de outubro de 2026, carregando o peso de mais de 1.200 mortos em seu próprio solo e mais de 73 mil em Gaza. Para Gabriel Schorr, guia turístico gaúcho radicado em Israel há quase três décadas, essas eleições não são apenas uma disputa política — são uma oportunidade de renovação espiritual para um povo que aprendeu, à força, a valorizar a vida de outra forma. A história de uma nação em guerra encontra, nas urnas, a pergunta que toda sociedade traumatizada eventualmente precisa responder: quem somos agora, e para onde queremos ir?

Gabriel Schorr atendeu ao telefone de seu apartamento em Israel com uma frase que resumia tudo: "A primeira sensação é: estamos fortes." O guia turístico gaúcho, radicado no país desde 1999, comparou essa força à de alguém que sobreviveu a muitas cirurgias — não é alegria, não é vitória, é simplesmente não ter caído até o final.

Um ano antes, em outubro de 2025, Schorr falava de medo. Havia comprado uma arma. Descrevia um Oriente Médio cujas esperanças haviam desabado. Agora, às vésperas das eleições de 27 de outubro de 2026, ele vê algo diferente no horizonte — e descreve o momento como assustador em sua importância.

As pesquisas indicam que o partido de Netanyahu deve perder espaço para a oposição, mas a formação de um novo governo dependerá de negociações intrincadas no Knesset. Para Schorr, a saída de Netanyahu seria mais do que uma troca de liderança: "seria uma renovação espiritual para o povo de Israel." Suas esperanças estão depositadas em Gadi Eisenkot, ex-general filho de judeus marroquinos, que promete desarmar o Hamas e investigar as falhas que tornaram possível o 7 de Outubro. Mas Eisenkot também se opõe a um Estado palestino — e Schorr reconhece que, mesmo com uma liderança mais humana, não sabe se o curso da guerra teria sido muito diferente.

O que mais pesa, diz ele, é o isolamento. Israel está "mais sozinho do que nunca", e o cessar-fogo em Gaza não trouxe o alívio diplomático esperado. Schorr imagina o que poderia ter sido: uma campanha global pelo desarmamento do Hamas, com a comunidade internacional condenando os métodos israelenses mas exigindo, ao mesmo tempo, a saída do grupo terrorista do poder. "Não vimos isso", lamenta.

No último fim de semana antes da entrevista, Schorr foi ao kibutz de Kfar Azza visitar o túmulo de Tal Elion, amigo morto no ataque de 7 de outubro de 2023 — o pior massacre de judeus desde o Holocausto, com mais de 1.200 vítimas em Israel. A resposta militar israelense transformou Gaza em ruínas e resultou em mais de 73 mil mortes, a maioria civis. É nesse contexto de dor acumulada que Israel se dirige às urnas, carregando a pergunta que Schorr ainda não sabe responder completamente: o que vem depois?

Gabriel Schorr estava em seu apartamento em Israel quando a reportagem o procurou em outubro de 2025. Faltavam dias para um cessar-fogo que arrefeceria o conflito em Gaza, e dois anos se completavam desde o ataque do 7 de Outubro. Naquela época, Schorr falava de medo. Havia comprado uma arma. Descrevia um cenário de esperança no Oriente Médio que desabou. Sentia uma insegurança sem precedentes nos mais de 20 anos em que vive em Israel.

Agora, um ano depois, a conversa começa diferente. "A primeira sensação é: estamos fortes", diz o guia turístico gaúcho à Folha por telefone. Ele compara a sensação à de alguém que passou por muitas cirurgias, tem medo de voltar ao hospital e não retornar, mas volta mesmo assim e passa a valorizar a vida de outra forma. "Não recomendo para outras pessoas. Não é uma força alegre ou de vitória, mas sim de não ter caído até o final."

Schorr, judeu radicado em Israel desde 1999, vive um momento que ele próprio descreve como assustador em sua importância. Os israelenses irão às urnas no dia 27 de outubro para renovar o Parlamento e potencialmente escolher um novo primeiro-ministro. As pesquisas indicam que o partido de Binyamin Netanyahu, atual premiê, deve perder espaço para a oposição. Mas a permanência ou saída de Netanyahu dependerá de negociações complexas com os diversos partidos que formam o Knesset, o Parlamento israelense.

Para Schorr, a perspectiva de um governo pós-Netanyahu representa algo maior que uma simples mudança administrativa. "Para mim, o dia depois de Netanyahu seria uma renovação espiritual para o povo de Israel", afirma. Ele não é eleitor do premiê atual e coloca suas esperanças em Gadi Eisenkot, principal figura da oposição e cotado para suceder Netanyahu caso sua coalizão obtenha maioria. Eisenkot é ex-general, filho de judeus marroquinos, e faz campanha prometendo desarmar efetivamente o Hamas e investigar as falhas que permitiram o ataque de 7 de Outubro. Como Netanyahu, porém, ele se opõe à criação de um Estado palestino, posição contrária à maioria da comunidade internacional.

Schorr reconhece que uma mudança de liderança poderia alterar a percepção internacional de Israel. "Tem pessoas no Brasil que não sabem pronunciar o nome do meu primeiro-ministro, mas sabem que ele é sinônimo de maldade", comenta com certo humor. Há esperança genuína de transformação dentro do Estado, diz ele. Mas quando se trata da política externa sob Eisenkot, suas expectativas são moderadas. "A visão mais humana e universalista dele poderia ter encerrado a guerra em Gaza mais cedo, mas não sei se ele teria deixado de atacar o Irã."

O que mais pesa no coração de Schorr, porém, é o isolamento crescente de Israel no cenário internacional. "Nós estamos mais sozinhos do que nunca", afirma. Ele aponta que o cessar-fogo em Gaza poderia ter aliviado as críticas ao país, mas isso não ocorreu. Schorr imagina qual teria sido a estratégia ideal: uma campanha mundial pelo desarmamento do Hamas, não para que Israel permanecesse em Gaza, mas para que saísse e um governo tecnocrático árabe entrasse em seu lugar. "Esse poderia ter sido o slogan da Assembleia Geral da ONU: condenamos a forma como Israel lutou na guerra, mas agora precisamos desarmar o grupo terrorista. Não vimos isso."

No último fim de semana, Schorr visitou o kibutz de Kfar Azza para estar junto ao túmulo de Tal Elion, amigo próximo morto no ataque de 7 de Outubro. O ataque, que ocorreu na manhã de 7 de outubro de 2023, deixou mais de 1.200 mortos em Israel e é considerado o pior massacre de judeus desde o Holocausto. Integrantes do Hamas e outros grupos terroristas palestinos entraram armados em território israelense e atacaram kibutzim, comunidades, estradas e eventos próximos à fronteira. O festival de música eletrônica perto do kibutz Re'im registrou o maior número de vítimas: 378 pessoas. Os terroristas também sequestraram 251 pessoas levadas para Gaza, 44 delas já mortas.

A resposta israelense em larga escala transformou a maior parte de Gaza em ruínas, provocou uma crise humanitária sem precedentes e resultou em mais de 73 mil mortes, a maioria civis, segundo o Ministério da Saúde de Gaza. Esses números, embora provenham de um órgão sob autoridade do Hamas, são considerados confiáveis pelas Nações Unidas. É neste contexto de trauma profundo, tanto pessoal quanto coletivo, que Israel se prepara para eleições que Schorr vê como potencialmente transformadoras.

Para mim, o dia depois de Netanyahu seria uma renovação espiritual para o povo de Israel
— Gabriel Schorr, guia turístico brasileiro-israelense
Nós estamos mais sozinhos do que nunca, é uma sensação que pesa o coração por aqui
— Gabriel Schorr
Contact Us FAQ